ESCRITA

Xico Sá lança livro com crônicas sobre a tragicomédia do sexo e do amor

Em "Os Machões Dançaram ? Crônicas de Sexo e Amor", o autor cearense encerra a trilogia de textos sobre machos e fêmeas nos tempos atuais

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 02/11/2015 às 5:34
Jorge Bispo/GNT/Divulgação
Em "Os Machões Dançaram ? Crônicas de Sexo e Amor", o autor cearense encerra a trilogia de textos sobre machos e fêmeas nos tempos atuais - FOTO: Jorge Bispo/GNT/Divulgação
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“Todo desespero por amor é comovente. Todo desespero por sexo, igualmente”. A frase de uma das crônicas do livro Os Machões Dançaram – Crônicas de Sexo e Amor (Record) revela, nas suas palavras intencionalmente exageradas, o principal interesse do seu criador, o escritor cearense Xico Sá: pensar o amor e o sexo como uma espécie de dramaturgia grandiloquente, ridícula, cheia de tipos, farsas, projeções e até clichês. Na obra, que chega agora nas livrarias, o “serial-quoter carnavalesco”, como é definido pelo escritor Reinaldo Moraes, reúne algumas de suas famosas e recentes crônicas, inéditas ou já publicadas no Facebook, em seu blog na Folha de S. Paulo ou no portal do El País.

É o último volume da trilogia Modos de Macho & Modinhas de Fêmea, em que ele analisa o amor e os relacionamentos “em tempos de homens vacilões”. A obsessão pelo cronismo amoroso, com toques de deboche e canalhice, nasceu cedo, aos 15 anos. “Não sabia nada sobre relacionamento, mal havia me iniciado sexualmente em um cabaré de Juazeiro, e já escrevia uns textos para um programa de aconselhamento amoroso da rádio Vale do Cariri. Era o programa do locutor Jevan Siqueira, meu vizinho da rua Santa Luzia. Na chegada ao Recife, de 1979 para 1980, criei um serviço chamado ‘declarações de amor sob encomenda’ (anunciava nos classificados do JC e do Diário) e foi um grande sucesso. Ali já estava o rascunho das ‘cantadas literárias’ que escrevo até hoje. Lembro os poetas Alberto da Cunha Melo e Jaci Bezerra, meus conselheiros literários, abismados como a minha cara de pau”, conta o autor.

Ao falar em machos, Xico tenta ao tanto fazer uma ode a essa espécie que ele vê em extinção como destruir o que restou desse danoso orgulho masculino. “Existe sim uma certa nostalgia machista de muitas mulheres em relação ao homem à moda antiga, o personagem caricato que chamo de macho-jurubeba. Mas esse cara dançou. É possível ter pegada e ser mais sensível ao mesmo tempo. Mantenho a plataforma do macho de raiz apenas no sentido da comilança, no combate às enganações gourmetizadoras, e na valorização mais do olho no olho do que na virtualidade. No livro tiro muita onda também com o homem que promete e não cumpre, o marmanjo que diz ‘vou, não vai’, que defino como ‘Homem de Ossanha’ (leia mais abaixo)”, comenta.

Se o que mais o interessa nas suas crônicas é o prazer do texto, ele não deixa de enxergar na vida a “tragicomédia dos relacionamentos e das mudanças de costumes”. “Agora mesmo, no terminal do Cais de Santa Rita ou em Casa Forte, tem um casal em uma discussão de relação, a mitológica D.R., que vai nos fazer lembrar, palavra por palavra, peças de Shakespeare ou de Nelson Rodrigues. Todos os casos de amor começam de forma diferente, mas todos terminam da mesma maneira. Bom é que depois de um tempo, o que era trágico ganha ares de comédia, a gente consegue rir da bagaceira toda. Amar é lindamente brega”, vaticina.

Os textos de Xico, no entanto, também são mote para controvérsias. Algumas de suas crônicas já foram acusadas de serem machistas – mais do que fugir disso, o autor gosta do debate. “Ainda bem que rolam discussões, leituras críticas pertinentes e, óbvio, aquelas grosserias óbvias de comentaristas de Internet. Os embates que tive com grupos feministas foram ótimos, aprendi muito, não sei se como escritor, mas como homem”, relata.

A sua abordagem, inclusive, já sofreu mudanças com o tempo. “O primeiro volume dessa trilogia é absurdamente machista em algumas páginas, embora eu ache que, na contradição da contradição, seja um texto de denúncia literária do machismo ao expor personagens em situações ridículas de extrema convicção. O livro foi escrito entre 1998 e 2001. É tão pouco tempo historicamente, mas talvez hoje fosse condenado”, pondera. “Discordo e discuto numa boa com as feministas quando atacam meu lirismo de devoção às mulheres – ao fazer esse dengo palavroso eu estaria, segundo algumas que me escrevem, colocando-as em um certo altar, em um pedestal que ignora o embate do dia-a-dia e a igualdade. Aprecio discutir isso tudo, mas quando toca no sentido poético do texto tendo sempre a discordar.”

O fim da trilogia Modos de Macho & Modinhas de Fêmea não significa, no entanto, que Xico Sá vai abandonar sua obsessão pelo ridículo e belo dos relacionamentos amorosos. “Espero morrer escrevendo sobre esse assunto. Espero mais ainda: morrer praticando amor e sexo, afinal de contas como disse o Vinícius, homenageado em várias crônicas do livro, enquanto houver língua e dedo mulher nenhuma mete medo (Risos)”, aponta. O que ele diz que terminou foi a tentativa de organizar e editar essa sua “paródia gilbertofreyriana com o centro decadente do Hellcife no lugar da aristocracia de Apipucos”. “Agora cairei em um lirismo mais radical e erótico, como já havia ensaiado no meu livro Se um Cão Vadio aos Pés de uma Mulher-Abismo (Editora do Bispo, esgotado) e terminarei mais um romance, de título provisório Não Se Morre de Amor nos Trópicos”, adianta.

Além disso, Xico aguarda para ver o público conhecer a forma cinematográfica do seu romance Big Jato, levado às telas com direção de Claudio Assis e roteiro de Hilton Lacerda e Anna Francisco. Os amigos já conheciam a história desde que ela era uma ideia, e o escritor tentou não intervir em nada na adaptação. “Ao contrário, estava curioso para saber como leram a aventura. Fizeram uma fábula linda. Até brinco, na gréia: depois do roteiro do gênio Ray Bradbury para Moby Dick (filme de John Huston), essa é a melhor adaptação do cinema mundial, afinal de contas, foi feita em Pernambuco”, brinca.

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