Política externa de Trump na berlinda com retiradas de Síria e Afeganistão

A decisão do presidente norte-americano de retirar as tropas americanas da Síria e reduzir à no Afeganistão levou o secretário de Defesa, Jim Mattis, a renunciar ao cargo
AFP
Publicado em 21/12/2018 às 21:43
Estados Unidos retiraram suas tropas do Afeganistão após 20 anos Foto: Foto: DELIL SOULEIMAN / AFP


Políticos americanos e aliados dos Estados Unidos tentavam compreender nesta sexta-feira (21) a surpreendente decisão do presidente Donald Trump de retirar as tropas dos Estados Unidos da Síria e do Afeganistão, medidas que levaram seu secretário da Defesa, Jim Mattis, a renunciar ao cargo.

As manobras históricas de Trump de sair da Síria e reduzir à metade as tropas no Afeganistão se contrapõem a anos da doutrina americana no Oriente Médio e no Afeganistão e formam o cenário para uma sequência de eventos que podem resultar em mais banhos de sangue nesta região já traumatizada.

Enquanto muitos cidadãos americanos - e não apenas seus simpatizantes - enalteceram a decisão de Trump, cansados de anos de conflitos caros e em escalada, políticos de todo o espectro a condenaram.

"Reduzir a presença americana no Afeganistão e remover nossa presença na Síria reverterá o progresso, encorajará nossos adversários e tornará os Estados Unidos menos seguros", disse o congressista republicano Mac Thornberry, aliado de Trump que preside o Comitê de Forças Armadas da Câmara dos Representantes.

No Pentágono, ninguém parecia saber o que virá a seguir.

"Estamos encaminhando todas as questões à Casa Branca", disse uma porta-voz, quando perguntada sobre a retirada do Afeganistão.

O secretário da Defesa, Jim Mattis, que era visto como uma voz moderada e que gerava alta confiança entre os aliados dos Estados Unidos, renunciou ao cargo nessa quinta-feira (20), após dizer a Trump que não poderia concordar com sua decisão sobre a Síria.

A retirada americana deixará vulneráveis a um ataque turco milhares de combatentes curdos que o Pentágono levou anos treinando para lutar contra os extremistas do grupo Estado Islâmico.

'Nenhuma surpresa'

No Afeganistão, o talibã saudou a retirada parcial anunciada por Trump. Um porta-voz disse que o grupo estava muito contente com a notícia.

Bill Roggio, especialista sobre o Afeganistão e membro sênior da Fundação para a Defesa das Democracias, disse à AFP que a política do governo Trump para o Oriente Médio está em desordem.

"Eu não sei qual é sua política, especialmente com relação ao que ficou conhecido como Guerra ao Terror", afirmou.

"Até Trump articular uma política, parece que o isolacionismo ganhou o dia", emendou.

Trump fez campanha prometendo priorizar os interesses americanos com seu 'Estados Unidos primeiro' e limitar o engajamento do país no exterior. Portanto, as medidas anunciadas para o Afeganistão e a Síria não foram tiradas do nada, e muitos observadores ficaram felizes com estas ações.

Apenas semanas antes de Mattis anunciar um reforço de tropas no Afeganistão, em agosto de 2017, pesquisas de opinião mostravam que os americanos estavam exaustos da guerra e lhes faltava a confiança de que Washington tivesse qualquer estratégia de vitória.

Na época, uma consulta conjunta Morning Consult-Politico demonstrou que apenas 23% dos entrevistados acreditavam que os Estados Unidos estavam vencendo no Afeganistão, enquanto 38% opinavam que o país estava perdendo a guerra no país.

"Trump concorreu com uma plataforma de não intervenção, de 'basta de guerras estúpidas' e prometeu sair do negócio de 'nation-building' [construção de nação, em tradução literal]", declarou à AFP Daniel Davis, tenente-coronel reformado do Exército e membro sênior do 'think tank' militar Defense Priorities.

"Em termos gerais, esta é a política dele", acrescentou.

Em março, Trump disse que gostaria de retirar os soldados americanos da Síria e no ano passado, quando concordou em reforçar a presença de tropas no Afeganistão, declarou que fazia isto contrariando seus próprios instintos.

"Sair da Síria não foi uma surpresa", tuitou Trump nessa quinta-feira.

"Eu tenho promovido isto há anos e seis meses atrás, quando publicamente quis fazê-lo, concordei em ficar mais tempo", acrescentou, destacando que era "a hora de ir para casa" e de "por fim outros lutarem".

'Erro estratégico'

Trump alega que o grupo Estado Islâmico foi derrotado territorialmente na Síria, ainda que milhares de combatentes permaneçam no terreno e ainda mantenham o controle de pequenas porções de terra.

Sua retirada da Síria encerra abruptamente a influência americana no país devastado pela guerra e dá aos turcos a abertura para atacar os curdos, que eram apoiados pelos Estados Unidos.

Trump teria tomado esta decisão durante um telefonema na semana passada com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Ao ceder na Síria, Trump também mexe numa pedra angular de sua política externa: fazer recuar o Irã, que apoia o presidente sírio, Bashar Al Assad, e está tentando expandir sua influência regional.

"Este é um enorme erro estratégico e eu espero que o presidente reconsidere", disse à emissora Fox News, ligada ao partido Republicano de Trump, Jack Keane, general reformado.

"Se não o fizer, acredito com certo grau de confiança que ele irá se arrepender de sua decisão", acrescentou.

Keane está entre os nomes aventados em Washington para substituir Mattis à frente do Departamento de Defesa.

Ele alertou Trump de estar repetindo os "erros" do presidente Barack Obama, que durante anos foi criticado duramente pelos republicanos por retirar tropas americanas do Iraque para depois ver a emergência do EI.

As ordens de retirada de Trump também incomodaram seus aliados na Europa.

A ministra da Defesa da França, Florence Parly, disse que ainda "há trabalho a ser feito" na Síria, pedindo que os Estados Unidos discutam sua retirada com outros membros da coalizão que luta contra o EI.

Seu colega britânico, Tobias Ellwood, já havia contradito Trump nessa quarta-feira (19), retuitando o post de que os jihadistas teriam sido derrotados na Síria, acompanhado do comentário: "Discordo fortemente".

"Metamorfoseou-se em outras formas de extremismo e a ameaça está bem viva", escreveu.

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