Substituto de Lula, Haddad enfrenta o desconhecimento e o antipetismo

O PT anunciou, nesta terça (11), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como candidato ao Planalto, a menos de um mês para a eleição
Cássio Oliveira
Publicado em 12/09/2018 às 7:39
O PT anunciou, nesta terça (11), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como candidato ao Planalto, a menos de um mês para a eleição Foto: Foto: AFP


Após muita insistência em negar a possibilidade de um plano B caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse impedido de participar das eleições deste ano, o PT foi obrigado a trocar o postulante e anunciou, ontem, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como candidato ao Planalto, a menos de um mês para a eleição. O limite para a troca foi estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na decisão que considerou Lula inelegível. O último recurso para esticar o prazo foi negado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Manuela D’Ávila (PCdoB) é a vice.

Foram realizadas sete eleições presidenciais desde a redemocratização no Brasil. Em todas, o Partido dos Trabalhadores teve candidato. Em três oportunidades, saiu derrotado (1989, 1994 e 1998), mas ficou em segundo. Nas outras quatro, elegeu o presidente (2002, 2006, 2010 e 2014). Agora, porém, vive um novo ciclo.

Haddad não enfrenta somente o desconhecimento do eleitor de Lula. Também é candidato de um partido que, de exemplo de honestidade, passou à vala comum da corrupção. Mas o grande desafio é se tornar de fato o herdeiro dos votos do ex-presidente, condenado em processo da Lava Jato e preso em Curitiba.

Lula apareceu liderando desde o início as pesquisas de intenção de voto. Em 22 de agosto, ainda autorizado a fazer campanha, despontava com folga no levantamento Datafolha ao apresentar 39% das intenções de voto. O atual líder, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), tinha 20 pontos percentuais a menos.

Desde então, muita coisa mudou. Lula foi definitivamente substituído nas pesquisas por Haddad, Bolsonaro foi esfaqueado durante ato de campanha, os guias eleitorais começaram, Ciro Gomes (PDT) começou a crescer e Marina Silva (Rede) iniciou trajetória descendente.

Neste novo cenário, o PT viu seu novo candidato saltar de 4% para 9% das intenções de voto na pesquisa do Datafolha, divulgada na última segunda, crescendo especialmente entre eleitores mulheres, com menor nível de escolaridade e de renda e residentes fora do Sudeste. Está tecnicamente empatado com Ciro (13%), Marina (11%) e Geraldo Alckmin (PSDB, 10%). Entrou definitivamente no páreo para ir ao segundo turno.

O cientista político Antônio Lavareda lembra que há obstáculos até o dia da votação, em 7 de outubro. “A campanha é curta, e o nível de desconhecimento ainda é muito alto. Os eleitores ainda não sabem que ele será apoiado por Lula, principalmente entre os mais pobres, onde reside a principal base de apoio lulista. Uma dificuldade adicional é a atualização do trabalho da Lava Jato e da Justiça em geral, que têm focado com novas revelações ora sobre Lula ora sobre o próprio Haddad.”

Desde 22 de agosto, ex-prefeito de São Paulo virou réu em processo de improbidade administrativa que corre na Justiça paulista, caso relacionado a obras da prefeitura. Entre as punições possíveis estão o pagamento de multa e a suspensão dos direitos políticos.

Lavareda analisa, porém, que a transferência de votos já vem acontecendo. “Nessa última pesquisa, isso é demonstrado pelo avanço de Haddad, que mais que triplicou suas intenções de voto no Nordeste e duplicou no Brasil. E também pelo declínio concomitante de Marina Silva, que caiu em todas as regiões. É difícil imaginar que o ex-prefeito paulistano não atinja o patamar de 20% dos votos válidos. O quanto poderá superar essa marca é uma outra questão, que dependerá dos rumos e da qualidade de sua campanha”, disse.

EFEITO CIRO

Além de desconhecido, Haddad enfrenta um cenário de crescimento do ex-governador do Ceará Ciro Gomes. Assim como o petista, Ciro cresceu no Datafolha, liderando a disputa no Nordeste, com 20% das intenções de voto, contra 14% de Bolsonaro e 13% do substituto de Lula. Na visão do consultor de marketing e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) João Ricardo da Matta, a estratégia do PT de manter Lula até o limite foi arriscada. “Os rincões do Brasil são um problema para Haddad. Ele não tem diálogo popular como Lula e nessa altura não poderá fazer a caravana que Dilma (Rousseff) fez. Outro problema dele é a falta de clareza do segundo lugar na disputa. A esquerda pode decidir pelo voto útil. Nessa questão, Ciro tem discurso com aderência e uma fala que chega no povo do Norte/Nordeste”, disse. A origem de Haddad é na academia paulista, como professor de ciência política da USP.

Contra Ciro, pesa a máquina do PT com candidatos competitivos a governos estaduais no Nordeste e com movimentos sociais como o MST. Haddad tem os palanques, por exemplo, de Paulo Câmara (PSB – Pernambuco), Renan Filho (MDB – Alagoas), Rui Costa (PT – Bahia ), Flávio Dino (PCdoB – Maranhão) , Wellington Dias (PT – Piauí), Fátima Bezerra (PT – Rio Grande do Norte) e Valadares Filho (PSB – Sergipe). Todos liderando.

Para João Matta, o sentimento de antipetismo ainda pode influenciar na campanha. “Temos quatro candidatos embolados e o sentimento antipetista, que é um sentimento real. Não à toa Bolsonaro está onde está. Pode acontecer de carrearem alguns votos. Por exemplo, alguns eleitores podem não enxergar Bolsonaro com chance de vencer no segundo turno. Então, sem chance de vencer no primeiro turno, o caminho antipetista pode levar votos a Alckmin ou a Ciro. Alguém de esquerda que não quer o PT pode enxergar Ciro como uma bandeira alternativa e como a opção de voto útil para vencer um candidato da direita”, projetou.

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