Cena Política

O que uma história da Itália antiga tem a ver com a decisão dos prefeitos sobre liberar ou não o carnaval

Prefeitos de cidades como Recife, Salvador, Olinda e Rio de Janeiro estão com uma espada sobre o pescoço e são obrigados a decidir sobre a festa de rua.

Igor Maciel
Igor Maciel
Publicado em 30/11/2021 às 9:50
Análise
ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Em 2020, Galo da Madrugada levou cerca de 2 milhões de pessoas às ruas do Centro do Recife, segundo estimativa da organização - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Fala-se muito na expressão "Espada de Dâmocles" e, dificilmente, ela se encaixa tão bem quanto na novela dos gestores brasileiros sobre liberar ou não o Carnaval de 2022.

Conta-se que na corte de Dionísio, em Siracusa, por volta do ano 400 A.C, um cortesão chamado Dâmocles, que invejava a riqueza e o poder de seu senhor, recebeu como presente a chance de viver durante um dia cercado de todo o ouro, prata e belas mulheres.

Dionísio colocou apenas uma condição: que ele passasse o dia com uma espada apontada para o pescoço, pendurada por um fio de rabo de cavalo.

O governante queria mostrar para o súdito a pressão pela qual passava todos os dias.

Poucas vezes, no Brasil, um carnaval teve tantas implicações políticas como já temos para 2022. Governadores e prefeitos estão no centro dessa discussão, principalmente pelo momento que vivemos. A pandemia aliviou, mas não passou.

Esse meio de caminho ajudou os gestores a liberarem a maior parte das atividades econômicas, inclusive shows privados com controle vacinal na entrada. Mas festa de rua é outra história.

Qualquer decisão tomada terá repercussão negativa para os prefeitos e governadores e, por isso, eles tentarão todas as formas para tirar o corpo fora. A associação de prefeitos de capitais com tradição no carnaval, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro estão fazendo, é uma delas.

É uma forma de dividir o ônus. Quando alguém reclamar na capital pernambucana, poderá se dizer "mas Salvador e Rio de Janeiro também cancelaram".

O problema são as festas privadas: como proibi-las depois que shows estão acontecendo por todos os cantos, com aglomeração?

No carnaval de rua, é impossível controlar de forma segura a entrada de pessoas. Um milhão de pessoas apresentando cartão de vacina antes de começar o Galo da Madrugada ou para subir cada ladeira e beco de Olinda é impensável.

O prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (DEM), já decidiu liberar somente os eventos privados de carnaval e cancelar a festa de rua. Petrolina é uma grande cidade, com uma economia forte e de grande interesse para o turismo, mas não tem como comparar com Recife, Olinda, Salvador e Rio de Janeiro.

Principalmente as duas pernambucanas e a capital carioca têm seu gigantismo na festa de rua, aberta e gratuita. Caso façam o mesmo, os prefeitos imediatamente receberão críticas por liberarem o "carnaval dos ricos" e acabarem com a "festa do povo".

Se cancelarem as festas privadas, proibindo-as, serão acusados de populismo e demagogia.

Ambos os acusadores terão boa dose de razão.

A relação com a história antiga de Siracusa é precisa, com uma observação: os prefeitos e governadores não são Dâmocles, que estava apenas por um dia experimentando os prazeres do poder e foi surpreendido com espada sobre o pescoço.

Eles são Dionísio, obrigados a decidir e assumir o benefício ou o prejuízo de suas opções.

Dâmocles, ao ver a espada, desistiu do "presente" e voltou para casa.

Dionísio morreu envenenado, acredita-se, pelo próprio filho querendo tomar o poder, anos depois.

Caso haja a liberação do carnaval de rua, a história antiga da Itália renderia boas fantasias.

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