ENEM 2021

Baixo número de inscritos no Enem 2021 escancara consequências da pandemia na educação do Brasil

Principal porta de entrada para o ensino superior, Exame Nacional do Ensino Médio teve menor número de inscritos em 13 anos: 4.004.764. Especialistas relacionam contingente à problemáticas como falta de isenção à faltantes no último ano, evasão escolar, crise econômica e dificuldades no ensino remoto

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 22/07/2021 às 6:30
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BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
Em Pernambuco, foram 226.817 inscritos. O número é o menor para o Estado desde 2008 - FOTO: BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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Desde que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se a principal porta de entrada para o ensino superior, dados que o envolvem são capazes de refletir avanços e retrocessos da educação do Brasil. Por isso, preocupa - mas não choca - em 2021 as provas terem tido o menor número de inscritos em 13 anos: 4.004.764 - que corresponde às versões impressa e digital. Uma queda que escancara a realidade social e econômica de um país que vive em emergência sanitária da covid-19 há em torno de 16 meses e que não ofereceu condições efetivas para que estudantes tivessem um acesso democrático ao ensino remoto.

A sensação de falta de preparo para as provas foi justamente o que fez alunos da escola estadual onde a professora Maria Severina Gomes, 45 anos, é assistente de gestão desistirem de fazê-la; o que não acontecia com frequência nos anos anteriores. “Geralmente, os que não se inscrevem já estavam vindo pouco para a escola. Acho que essa desmotivação tem a ver com estar desvinculado à instituição”, diz. Ela também teme que a baixa presença nas aulas remotas cause lacunas educacionais futuras. "Esses meninos vão chegar à universidade com um ensino médio incompleto.”

Ao todo, foram registrados 3.903.664 inscritos para a versão impressa. Já a versão digital teve as 101.100 vagas ofertadas preenchidas. As duas modalidades de prova serão aplicadas nas mesmas datas: 21 e 28 de novembro. Em Pernambuco, foram 226.817 inscritos. Do total, 223.817 escolheram a prova impressa, e 3.000 optaram pela prova digital. O número é o menor para o Estado desde 2008.

O contingente deve ser, na realidade, ainda menor, visto que ele não considera os participantes que deixaram de pagar a Guia de Recolhimento da União (GRU Cobrança), que teve prazo encerrado na última segunda-feira (19). Ainda, falta saber quantos destes realmente farão as provas, visto que o Enem 2020 teve abstenção recorde, com 55,3% dos 5.893.369 inscritos não comparecendo ao exame. Aos faltosos, foi vetado pelo governo federal um projeto de lei para garantir a isenção da taxa de R$ 85 nas provas deste ano.

Em entrevista ao JC sobre a quantidade de candidatos na última semana, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirmou que “adianta nada ter muitos inscritos e poucos presentes [na prova]”. O chefe da pasta ainda disse que a taxa de inscrição é para dar “responsabilidade ao jovem”. “A taxa não cobre as despesas do Enem, é para dar responsabilidade ao jovem com a prova. Tem provas que gastamos muito dinheiro porque alugamos salas, pagamos fiscais de prova, temos a logística, e chega na hora H, ninguém vai, porque não custa nada. Aqueles que tiveram e preencheram a condição de isenção, nós demos - não pôde ser para todos, infelizmente.”

"Quem conseguiu isenção da taxa em 2019 e não foi fazer o exame em 2020, por exemplo, por medo, não pôde conseguir novamente a isenção da taxa neste ano, por mais que tivéssemos apelado para que o Ministério da Educação não considerasse essa regra", aponta a presidente da Associação Nacional de Educação Básica Híbrida (Anebhi) e uma das responsáveis pela criação do Enem, Maria Inês Fini. A especialista ainda critica uma falta de coordenação nacional. "O MEC foi um grande ausente na gestão da educação básica, quem deu conta disso foram os gestores municipais, estaduais e da rede privada; eles sim fizeram um grande esforço para mobilizar a sua escola e poder prover a educação."

A secretária executiva de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco, Ana Selva, avalia que deveriam ter tido “ações mais flexíveis do Ministério da Educação em relação ao Enem, considerando a realidade que as escolas estão vivendo”. “Os dados espelham o momento vivido pela pandemia. Deveriam ter tido cuidados diferenciados por parte do governo federal, por exemplo uma maior flexibilidade no período de taxa de isenção. Ainda deixaram dúvidas aos estudantes: se iria ter Enem e quais seriam os protocolos de higiene nas provas.”

Fini afirma que ainda é necessário saber o perfil dos estudantes que desistiram do exame para fazer uma avaliação do que pode ter causado o baixo índice de inscrições. "Se a queda foi entre os que vão terminar o 3º ano, você pode interpretar que, com o isolamento físico da pandemia, muitos não tiveram acesso aos recursos remotos do ensino e se auto-excluíram por imaginarem que não seriam capazes de ter sucesso. Se estiver entre os mais velhos, já formados em anos anteriores, pode apelar para o fator econômico; de pessoas que tiveram que ingressar no mercado de trabalho imediatamente."

A necessidade de complementar a renda familiar também é apontada pelo educador e ex-secretário da Educação de Pernambuco Mozart Neves como uma das razões do baixo número de inscritos no Enem 2021. “Muitos, infelizmente, abandonaram o ensino médio para ajudar na renda familiar; o que é muito preocupante. Eles estão buscando atividades laborais e deixaram a escola, até porque muitos não se adaptaram ao ensino remoto”, afirma.

Esse foi o caso da estudante Diany Correia, de 19 anos, que viu o sonho de prestar vestibular para medicina veterinária ruir com a crise econômica. Ainda em 2020, ela havia conseguido se matricular no curso preparatório do Instituto JCPM no Recife, mas diz que não conseguia se concentrar no ensino à distância por não ter um bom ambiente de estudos em casa, e decidiu não tentar mais o Enem. Além disso, o acúmulo em alta da inflação de 8,35% nos últimos 12 meses, segundo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fez com que ela precisasse trabalhar.

“Minha casa não perdeu renda, mas, como tudo começou a aumentar, ficou bem difícil no primeiro ano da pandemia, e então consegui um emprego. Ainda pretendo fazer faculdade futuramente, mas não mais pelo Enem, porque requer muito tempo para estudar. Eu preferia fazer o Enem, porque sempre quis tentar vestibular. Logo quando comecei o pré-vestibular, estava bem focada, e fiquei muito triste [quando tive que parar]”, conta.

Não foi a pandemia que criou problemáticas como reprovação, evasão escolar e distorção entre idade e série escolar no Brasil. No entanto, com a necessidade do isolamento social, esta realidade foi acentuada. Segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2020, cerca de 5,5 milhões de crianças e adolescentes não tinham acesso à educação. Ademais, em torno de 1,38 milhão dos estudantes, 3,8%, abandonaram os estudos - taxa superior que a trazida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) em 2019, de 2%.

"Vínhamos melhorando muito, e tínhamos muita esperança que, com a reforma do ensino médio e da base nacional comum curricular, começaríamos 2020 com currículos mais atraentes, só que todo mundo foi pego de surpresa e isso acentuou a grande diferença que já existia na família brasileira. A sala de visitas das famílias virou a sala de aula. Da sexta para a segunda-feira, os professores viraram youtubers e atores de vídeo, e enfrentaram tudo isso com muita coragem. Temos uma desigualdade social acentuada, e as famílias não tinham equipamentos para receber esse ensino via plataforma digital, então houve muita dispersão de energia", avalia Maria Inês.

A evasão escolar, de acordo com Mozart, é um problema que será refletido futuramente no país. “Um jovem que não concluiu a educação básica não terá perspectiva de sustentabilidade no mundo do trabalho. Esse é um ponto de partida fundamental para que ele dê continuidade aos estudos seja na universidade, em um curso tecnológico, ou para se preparar para o mundo do trabalho. Tal perda pode ser algo que o país vai ter um grande problema, porque a pirâmide demográfica está mudando no Brasil. Estamos envelhecendo mais, alargando o topo, e, para sustentá-la, precisaremos ter jovens muito bem preparados.”

A Secretaria de Educação de Pernambuco espera que, nos dias das provas do Enem 2021, o MEC adote maiores cuidados sanitários. “A gente entende que o exame vai seguir a matriz de referência de avaliação e que não pode fugir disso; mas é importante que seja feita a organização do exame, com protocolos de biossegurança e organização dos espaços para que os estudantes se sintam seguros em fazê-lo”, torce Ana Selva.

Já em relação às medidas mitigadoras para amenizar danos na educação brasileira, a presidente da Anebhi é enfática: "do ponto de vista da escola, seja ela de educação básica ou de ensino superior, vamos ter que repor a escolaridade que faltou; não tem outro jeito. Não adianta fazer aula à tarde, ou ao sábado; vamos ter que ter um currículo de transição que combine o que faltou, que é direito de todos aprenderem, com novos ensinamentos também. É [responsabilidade] da gestão da escola e do conjunto de professores, não é culpa do aluno, ele é vítima, e temos que nos esforçar nesse sentido."

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Exame Nacional do Ensino Médio,Enem - FOTO:Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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