COLUNA MOBILIDADE

Aumenta o uso de aplicativos de transporte entre os mais pobres durante a pandemia de covid-19

Medo do transporte coletivo faz pessoas de menor renda usarem mais aplicativos para se deslocar. Corridas mais longas e integração de modais também cresceram

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 16/04/2021 às 17:58
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JC IMAGEM
Os dados fazem parte de uma análise realizada pela empresa 99 em sete capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Manaus e Recife) e refletem a desigualdade no País - FOTO: JC IMAGEM
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A pandemia de covid-19 segue promovendo mudanças de hábitos relacionados à mobilidade urbana. Agora, teve reflexo no uso do transporte por aplicativo, como 99 e Uber. As pessoas mais pobres, que vivem em bairros mais afastados dos centros urbanos, passaram a usar mais o serviço em todo o Brasil, enquanto que os mais ricos reduziram a utilização. No País, esse aumento chegou a 36%. No Recife, foi de 10%. Por trás dessa análise, o medo da contaminação no transporte público coletivo devido à superlotação nos horários de pico e a volta da preferência pelo transporte individual.

Os dados fazem parte de uma análise realizada pela empresa 99 em sete capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Manaus e Recife) e refletem a desigualdade no País: os mais ricos puderam realizar o isolamento social - muitos adeptos do home office -, enquanto os mais pobres seguiram e seguem precisando sair de casa para trabalhar. No Recife, especificamente, a redução de utilização pelos mais ricos foi de 4%. Nacionalmente, foi de 41%. Os dados são um comparativo entre o número de corridas realizadas em fevereiro de 2020, antes da pandemia, e fevereiro deste ano.

O crescimento se deu entre as pessoas que recebem até dois salários mínimos e caiu entre os que ganham mais de três salários mínimos. Nacionalmente, a frequência de uso entre os de menor renda cresceu sete pontos percentuais no aplicativo, enquanto que os de maior poder aquisitivo registraram uma queda de 13,5 pontos percentuais em viagens por app. Na capital pernambucana, os que ganham até dois salários mínimos cresceram dois pontos percentuais, e os que ganham mais de três salários mínimos registraram queda de três pontos.

Foto: Divulgação
No Recife, especificamente, a redução de utilização pelos mais ricos foi de 4%. Nacionalmente, foi de 41% - Foto: Divulgação

MEDO DO TRANSPORTE
Pela análise, as rendas mais altas deixaram de usar os apps porque conseguem ficar em casa e fazer isolamento social, enquanto as rendas mais baixas passaram a usar mais o serviço porque precisam estar na rua trabalhando. O medo do transporte público não é citado literalmente na comparação, mas a leitura é inevitável. Essas pessoas que migraram para os apps eram mais dependentes do transporte público antes da pandemia. Com o risco de contaminação devido às aglomerações nos ônibus e metrôs, principalmente nos horários de pico - quando a maioria das pessoas precisa chegar ou sair do trabalho -, priorizaram o custo com os apps.

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Eu já usava bastante o aplicativo porque moro na Vila do Ipsep (bairro do Ipsep, periferia da Zona Sul do Recife) e minha floricultura fica nos Aflitos (na Zona Norte da capital) e chegar de ônibus é difícil. Mas, com a pandemia, adotei o app para qualquer saída. Não importa se é perto. Mesmo tendo muitas opções de ônibus, não uso como usava antes",
Miriam Sales, designer floral

ACERVO PESSOAL
Designer floral Miriam Sales, proprietária da Empório Flores - ACERVO PESSOAL

A designer floral Miriam Sales, proprietária da Empório Flores, é um exemplo. Com a pandemia, viu sua despesa com a 99, Uber e Indriver aumentar mais de 40% porque, além das rotas que já fazia de aplicativo, o medo do transporte coletivo em geral a fez passar a utilizar o serviço para qualquer deslocamento. “Eu já usava bastante o aplicativo porque moro na Vila do Ipsep (bairro do Ipsep, periferia da Zona Sul do Recife) e minha floricultura fica nos Aflitos (na Zona Norte da capital) e chegar de ônibus é difícil. Mas, com a pandemia, adotei o app para qualquer saída. Não importa se é perto. Mesmo tendo muitas opções de ônibus, não uso como usava antes”, confirma.

ARTES JC
A adesão aos apps - ARTES JC

DISTÂNCIAS MAIORES E INTERMODALIDADE
O levantamento da 99 também aponta um crescimento das viagens mais longas, um reflexo da maior adesão da população de menor renda, que geralmente mora na periferia e trabalha nas áreas centrais ou em bairros de classe média que ficam distantes. Houve um aumento de 11,5% nas distâncias percorridas. “Esse dado reflete a dificuldade de acessibilidade para se deslocar dessa parcela da população. A oferta de serviço que ela dispõe. E acredito que, no caso específico da 99, que sempre teve o perfil de atender às diferentes áreas e regiões das cidades, ganhamos força por esse aspecto”, afirma Rodrigo Santos, gerente de políticas públicas e pesquisa da 99.

A integração de modais é outro movimento que cresceu na pandemia entre as rendas mais baixas. Mais pessoas estão mesclando os tipos de transporte, fazendo trechos de app e complementando outros com ônibus ou metrô. Ou vice-versa. Em São Paulo, única cidade que por enquanto a empresa fez esse recorte, a integração modal aumentou 18%. O deslocamento das regiões com residentes de baixa renda, no entanto, sempre foi forte na capital paulista, mesmo antes da pandemia - é importante destacar. Mas o reflexo é visto nas corridas que têm como destino ou partida estações de metrô e trem, e terminais de ônibus.

Das dez estações com mais viagens da 99 na cidade de São Paulo em fevereiro de 2021, seis se localizam fora da região de alta renda da cidade. Em 2020, eram quatro. E dos pontos com maior concentração de destinos de viagens que começam nas regiões com renda mais baixa de São Paulo, sete deles são estações de metrô ou de trem. Nas regiões de maior renda, são apenas duas. Por outro lado, as integrações entre aqueles de maior renda caiu 32%.

“A intermodalidade é algo que nos interessa muito porque faz bem a todos. Os passageiros, os aplicativos, o transporte público, a micromobilidade e as cidades saem ganhando. Para nós, quanto melhor for o serviço de transporte público ofertado, mais nós crescemos porque as pessoas vão querer ampliar essa integração e deixar o carro em casa. Queremos ser opção a esse retorno ao automóvel que a pandemia tem alimentado entre as pessoas”, pontua Rodrigo Santos.

Foto: Agência Brasil
No Recife, especificamente, a redução de utilização pelos mais ricos foi de 4%. Nacionalmente, foi de 41% - Foto: Agência Brasil

QUEDA DE MOVIMENTO
Em 2020, com a chegada da pandemia, o volume de corridas da 99 chegou a cair para 40% do normal. Segundo a empresa, a decisão de acelerar alguns lançamentos e desenvolvimento de produtos - R$ 157 milhões investidos em soluções de mobilidade e segurança, tanto física como sanitária - reverteu a situação e, em novembro, houve a retomada de 100% do volume de corridas.

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