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HEPATITE MISTERIOSA: "Pode ser manifestação da covid potencializada pelo adenovírus, o que levaria a uma doença autoimune", acredita pediatra

Para médico Eduardo Jorge da Fonseca Lima, novo quadro de hepatite em crianças é mais um desafio

Cinthya Leite
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Cinthya Leite
Publicado em 12/05/2022 às 14:11 | Atualizado em 12/05/2022 às 19:00
SÉRGIO BERNARDO/ACERVO JC IMAGEM
Eduardo Jorge da Fonseca Lima é pediatra e representante da Regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) - FOTO: SÉRGIO BERNARDO/ACERVO JC IMAGEM
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Em entrevista à Rádio Jornal, na manhã desta quinta-feira (12), o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, representante da Regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), falou sobre a hepatite aguda grave de origem desconhecida, que tem acometido crianças em vários países. Em Pernambuco, foi notificado o terceiro caso suspeito da doença na quarta-feira (11). 

"Este é mais um desafio, apesar de se ter um número relativamente pequeno no mundo; são 328 casos. No Estado, há três pacientes com hepatite cuja causa não conhecemos ainda. É importante frisar que as hepatites A, B, C, D e E continuam a existir e que é preciso (nesses casos atuais) afastá-las. Por enquanto, vemos (a hepatite aguda desconhecida) com preocupação, até termos a certeza de qual é o agente causador desses quadros", disse Eduardo Jorge. 

Durante a entrevista, o pediatra mencionou a possibilidade de relação com o adenovírus, que tem aparecido entre as principais hipóteses para explicar a causa dessa nova hepatite misteriosa. Nesse cenário, especialistas já consideram que o aumento da suscetibilidade entre crianças, após um menor nível de circulação de adenovírus durante a pandemia, e a coinfecção pelo coronavírus, precisam ser mais investigados.

"Muito tem se falado do adenovírus e até da covid. Do ponto de vista pessoal, penso que isso (hepatite aguda grave de origem desconhecida) pode ser manifestação da covid potencializada pelo adenovírus, o que favoreceria a uma doença autoimune. Parece ser bem mais isso do que a ação de um determinado vírus", acredita Eduardo Jorge. 

Para dar força à explicação, o médico também frisa que há indícios de que os atuais casos de hepatite desconhecida em crianças possam ser uma manifestação tardia da infecção pelo coronavírus na pediatria, "Nesse ponto, aproveito ainda para ressaltar que a maioria das crianças acometidas não receberam aplicação de vacina contra covid-19. Vamos acompanhar a evolução para ver se temos mais uma resposta", acrescenta.

HEPATITE MISTERIOSA: os casos em Pernambuco 

Menina de 3 anos 

Mora no município de Glória do Goitá, na Zona da Mata de Pernambuco. Ela foi encaminhada para o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no bairro dos Coelhos, área central do Recife, onde está internada desde o último dia 3 de maio. 

A criança, que apresentou quadro de febre, aumento do volume abdominal e icterícia (pele amarelada), recebe assistência na enfermaria da Imip. Na instituição, ela também realiza exames complementares. 

Menino de 1 ano

Residente no município de Toritama, no Agreste, ele foi acompanhado no Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru. Ele recebeu alta hospitalar no dia 6 deste mês. 

Adolescente de 14 anos

Residente no município de Salgueiro, no Sertão do Estado, ele estava internado no Hospital Getúlio Vargas (HGV), no Cordeiro, Zona Oeste do Recife. Ele foi transferido, na terça-feira (10), para o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), em Santo Amaro, área central da capital pernambucana.

Quais os sintomas da hepatite misteriosa? 

Os médicos devem ficar em alerta para esta situação emergente e precisam ficar atentos às crianças que apresentam sinais e sintomas "potencialmente atribuíveis à hepatite que podem exigir testes de função hepática", diz o alerta da SES.

Entre os sintomas, estão descoloração da urina (escuro) e/ou fezes (pálido); icterícia; prurido; artralgia (dor nas juntas); mialgia (dor muscular); pirexia (febre); náuseas, vômitos ou dor abdominal; letargia (cansaço com diminuição da energia, da capacidade mental e da motivação); e/ou perda de apetite.

"Equipes de saúde, principalmente da pediatria, devem estar atentas a crianças e adolescentes com 16 anos ou menos, principalmente com relato de passagem pelos locais afetados, que apresentem icterícia (coloração amarelada da pele e/ou olhos) ou sintomas compatíveis com hepatite aguda", destaca a SES.  

As investigações dos casos, segundo a secretaria, continuam em andamento, com a realização de exames complementares para análise laboratorial das hepatites virais, agentes possivelmente relacionados a este tipo de hepatite e outras doenças, assim como as investigações epidemiológicas realizadas junto aos municípios de residência dos pacientes. A SES também destaca que aguarda novas definições de protocolos pelo Ministério da Saúde.

"Por fim, a SES-PE reforça que segue em contato com toda a rede de saúde (unidades públicas e privadas) para monitoramento das ocorrências no Estado. O Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde de Pernambuco (Cievs-PE) também já emitiu nota de alerta orientando os serviços para que, na observação de casos suspeitos e que atendam às definições, realizem a notificação de imediato.

Adenovírus 41F é uma possível causa da hepatite misteriosa em crianças 

O surto foi divulgado, pela primeira vez, em abril, no Reino Unido - que já registrou mais de 100 casos, principalmente em crianças menores de 10 anos. Entre as principais hipóteses para explicar a causa dessa nova hepatite, está o adenovírus.

No alerta emitido a unidades de saúde públicas e privadas, a Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES) ressalta que existem mais de 50 tipos de adenovírus que podem causar infecções em humanos. "Os adenovírus se espalham de pessoa para pessoa e mais comumente causam doenças respiratórias, mas, dependendo do tipo, também podem causar outras doenças, como gastroenterite, conjuntivite e cistite."

A pasta acrescenta que, embora o adenovírus seja atualmente uma hipótese como causa subjacente, ele não explica totalmente a gravidade do quadro clínico. "A infecção pelo adenovírus tipo 41, tipo de adenovírus implicado (na hepatite aguda grave), não foi previamente associada a tal apresentação clínica. O adenovírus tipo 41 geralmente se apresenta como diarreia, vômito e febre, muitas vezes acompanhados de sintomas respiratórios. Embora existam relatos de casos de hepatite em crianças imunocomprometidas com infecção por adenovírus, o adenovírus tipo 41 não é conhecido por ser uma causa de hepatite em crianças saudáveis."

O aumento da suscetibilidade entre crianças pequenas, após um menor nível de circulação de adenovírus durante a pandemia de covid-19, o potencial surgimento de um novo adenovírus, bem como a coinfecção pelo coronavírus, precisam ser mais investigados.

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