COVID-19

Depois do óleo, turismo de Pernambuco encara pesadelo do coronavírus

Após desastre ambiental no segundo semestre do ano passado, a Covid-19 frustra os planos de retomada do crescimento do setor em 2020

Mona Lisa Dourado
Mona Lisa Dourado
Publicado em 16/03/2020 às 14:08
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ARNALDO CARVALHO/JC IMAGEM
Porto de Galinhas ainda não registra cancelamentos significativos, mas deve sentir impacto da redução do fluxo internacional - FOTO: ARNALDO CARVALHO/JC IMAGEM
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*Conteúdo atualizado às 23h50 do dia 16 de março de 2019

Quando o turismo de Pernambuco ensaiava recuperação depois do baque com o episódio do derramamento de óleo no segundo semestre do ano passado, a Covid-19 frustra os planos de retomada do crescimento em 2020. Pior que isso, a preocupação é com um colapso, que se traduza em falências e demissões, uma vez que o setor é dominado em 80% por pequenas e médias empresas com no máximo cinco funcionários. Fechamento de fronteiras, suspensão de voos e cruzeiros, proibição de grandes eventos e consequente cancelamento de reservas começam a paralisar os negócios em todos os âmbitos. Até porque em tempos de restrição de contato social e incertezas sobre o futuro, viagens definitivamente deixam de ser prioridade.

Em função da crise econômica e do desastre ambiental, em 2019, a receita turística total já havia recuado em Pernambuco 6,3%, de R$ 10,1 bilhões em 2018 para R$ 9,5 bilhões no ano passado, segundo dados da Secretaria estadual de Turismo, Lazer e Esportes e Empetur. Agora, a perspectiva tanto local quanto nacional é de um ano difícil, ainda sem previsão de quando e como os prejuízos poderão ser recuperados.

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Eventos

Entre outros adiamentos anunciados na última semana, a Setur e a Empetur confirmaram o cancelamento de todos os 17 eventos do Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon-PE) agendados para os próximos 60 dias. Dessa forma, o segmento corporativo e de eventos, fatia mais relevante no Recife, fica inviabilizada neste momento. "Alguns organizadores de eventos já procuraram a Empetur para novas datas em 2020 e 2021", informou a assessoria de imprensa do órgão via nota. 

ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Centro de Convenções de Pernambuco integra pacote de concessões do governo do Estado. Estudo de viabilidade deve ser concluído até o início de 2021 - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

Agências de viagens

No que se refere ao turismo de lazer, a seção pernambucana da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav-PE) já diz que as vendas de pacotes estão "zeradas", enquanto os demais segmentos, como o de negócios, pedagógico e receptivo começam a "cair vertiginosamente".

Segundo o vice-presidente nacional e local da entidade, Marcos Teixeira, Pernambuco tem 310 agências - 115 delas associadas à Abav -, que empregam cerca de 5,5 mil trabalhadores. "Se não tivermos faturamento, não teremos como pagar os custos fixos e os salários", diz Teixeira.

O presidente local da Abav, Marcelo Wilke, acrescenta que março costuma ser um dos melhores meses de vendas, depois da alta temporada. "Agora tudo foi por água abaixo. Precisaremos refazer as projeções e orçamentos, reduzir despesas. Ainda não conseguimos calcular os impactos", desabafa.

De acordo com dados da Agência Condepe Fidem, o turismo representava 3,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado em 2018. Somando todas as atividades características do setor, o número de empregos formais era 74,9 mil pessoas em 2017, último dado disponível. A agência justifica que ainda está analisando os dados específicos do setor em 2019.

Hotelaria

No caso da hotelaria, os cancelamentos das reservas no Estado ainda não se mostram significativas, mesmo com a suspensão das atividades relacionadas à Semana Santa. É o que diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-PE), Eduardo Cavalcanti, que também é um dos proprietários do Portal de Gravatá, no Agreste. A entidade tem 87 hotéis associados no Estado (metade deles de pequeno porte, com menos de 50 apartamentos) e emprega cerca de 15 mil trabalhadores. "Os hotéis ainda estão com boa ocupação, de 70% no caso do Portal no último fim de semana, mas sabemos que a situação vai se complicar. Estamos conscientes do impacto, porque quando a demanda do turismo se retrai, isso recai sobre dezenas de outros setores que ele movimenta", analisa.

Cavalcanti também destaca que os hotéis estão adotando protocolos mais rigorosos de higienização por causa do coronavírus e aumentando a distância das mesas nos restaurantes, entre outras providências para evitar a propagação do Covid-19.  

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Porto de Galinhas

Em Porto de Galinhas, principal destino turístico do Estado, ocupação, faturamento e lucro registraram queda de 5% em janeiro em relação ao mesmo mês de 2019, ainda sob os efeitos do desastre ambiental do derramamento de óleo. Os dados são do Porto de Galinhas Convention & Visitors Bureau. Agora, com o novo coronavírus, as consequências são imprevisíveis, diz o presidente da entidade, Eduardo Tiburtius.

Segundo ele, no último fim de semana, as praias e hotéis ainda estavam cheios e o movimento de cancelamento de reservas era "tímido". Tiburtius reconhece, no entanto, que é uma questão de tempo a redução do fluxo, principalmente de estrangeiros. E, logo, dos brasileiros assustados com a escalada do Covid-19.

Argentina e Chile, que estão entre os principais emissores sul-americanos para Porto de Galinhas, já decretaram fechamento de fronteiras e desaconselharam viagens. União Europeia proibiu nesta segunda (16) qualquer viagem não essencial por 30 dias.

"As próximas semanas serão decisivas. Se vivermos algo semelhante ao que passa na Itália e Espanha, vamos necessitar de sensibilidade dos governos do Estado e nacional para minimizar os danos. Se passamos dois ou três meses sem atividade, precisaremos de ajuda", prevê. Porto de Galinhas conta com 16 hotéis e mais de dois mil leitos, considerando pousadas, albergues e flats. Estima-se que cerca de 40 mil pessoas trabalham direta ou indiretamente com o turismo no destino.

Reunião com o governo do Estado

Para tentar atenuar os efeitos da Covid-19, o trade turístico se reuniu nesta segunda-feira (16) à tarde com representantes do governo do Estado, no intuito de estabelecer medidas como adiamento de pagamento de impostos - caso do IPVA para receptivos e empresas de transporte -, redução de alíquotas de tributos e liberação de crédito a juros baixos para capital de giro, uma das maiores preocupações para honrar despesas imediatas e garantir o pagamento dos funcionários.

O encontro não resultou em nenhum anúncio imediato, mas no comprometimento dos gestores de levar as demandas ao governador Paulo Câmara. A presidente da divisão local da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc), Tatiana Marques, conta que a reunião foi importante para “expor as reivindicações do setor”, que agora aguarda o atendimento dos pleitos “o mais rápido possível”.

A secretária de Turismo do Recife, Ana Paula Vilaça, diz que “as consequências negativas são inevitáveis”, mas que o momento é de “preservar vidas”. “A atividade do turismo também está bastante comprometida, porque justamente o fluxo de pessoas passa a ser o vilão da saúde”, afirmou o secretário da pasta no Estado, Rodrigo Novaes, via assessoria de imprensa.

O pleito das associações pernambucanas acompanha movimento nacional de dez entidades de classe (Abav Nacional, ABIH, Abracorp, AirTkt, Aviesp, Avirrp, Braztoa, Clia Brasil, FBHA e Fohb), que enviaram uma carta ao ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, solicitando cinco medidas emergenciais para garantir a sustentabilidade das empresas. Neste mês de março, enfatiza o documento, já foram registrados 85% de cancelamentos no País, quando no mesmo período do ano passado o faturamento foi de R$ 19,2 bilhões.

Em todo o ano, o setor do turismo faturou em 2019 R$ 238,6 bilhões, considerando as atividades de hospedagem e similares, bares e restaurantes, transporte de passageiros, agências de viagens e cultura e lazer. O número de pessoas formalmente empregadas nas atividades turísticas no Brasil é estimada em 2.983.080 trabalhadores.

Pacote federal

O mercado ainda espera para esta segunda-feira (16) o anúncio de um pacote do governo federal para socorrer o setor. Entre as providências almejadas, estão autorização do Banco do Brasil para que as empresas aéreas fiquem até quatro meses sem pagar juros; abertura de linha de empréstimo de capital de giro para as aéreas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a juros mais baixos; abertura de linha de empréstimo de capital de giro no BNDES para pequenas e médias empresas de serviços ligados ao turismo; e redução do montante a ser devolvido pelo BNDES pelos empréstimos tomados juntos ao Tesouro Nacional, para custear as linhas de crédito a serem anunciadas. A devolução deve cair de R$ 100 bilhões para até R$ 80 bilhões.

Na manhã desta segunda-feira (16), o Conselho Monetário Nacional (CMN) já aprovou, em reunião extraordinária, duas medidas para ajudar a economia em geral, que já podem beneficiar o trade. A primeira facilita a renegociação de operações de créditos de empresas e de famílias que possuem boa capacidade financeira e mantêm financiamentos regulares e adimplentes em curso. O anúncio, segundo o CMN, permitirá ajustes fluxos de caixa, contribuindo para a redução dos efeitos temporários decorrentes da Covid-19. Já a segunda medida expande a capacidade de utilização de capital dos bancos, para que que as instituições tenham melhores condições para realizar as eventuais renegociações decorrentes da primeira medida e até possam ampliá-la nos próximos meses.

Foto: Edmar Melo/Acervo JC Imagem
Aena aguarda posição da Anvisa sobre pedido de cancelamento de voos internacionais da Prefeitura do Recife - Foto: Edmar Melo/Acervo JC Imagem

Aeroporto do Recife - Aena

Em relação à solicitação da Prefeitura do Recife (PCR) de cancelar voos internacionais no Aeroporto do Recife a partir da próxima sexta-feira, a nova administradora do terminal, a Aena Brasil respondeu, via nota, que está "cumprindo fielmente todas as determinações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) nos aeroportos sob sua administração e aguardará as definições dos órgãos federais sobre o pedido da suspensão dos voos internacionais para se manifestar".

Também via nota, a Anvisa afirma que a decisão não cabe ao órgão, "pois não somos a autoridade responsável pelo transporte aéreo no país". "O trabalho da Anvisa nos pontos de entrada tem três objetivo específicos: garantir a adoção das medidas preventivas para a comunidade aeroportuária e portuária; fazer com que os procedimentos de desinfecção e limpeza de aeronaves e navios sejam realizados corretamente; encaminhar os casos de pessoas que estejam manifestando sintomas. Assim, o papel da Anvisa nos pontos de entrada no País é de dar encaminhamento aos casos sintomáticos, adotar as medidas para encaminhamentos desta pessoa ao serviço de atendimento e tornar possível o rastreamento dos demais passageiros em casos de confirmação", diz a nota. 

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por sua vez, respondeu que "cabe à União determinar o fechamento de aeroportos federais". 

A PCR diz que ainda não recebeu nenhum retorno sobre o pedido. "A Prefeitura do Recife informa que o ofício enviado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária já reconhece autoridade da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) de tomar a decisão dos cancelamentos dos voos internacionais, conforme o disposto no art. 8º inciso XI e XIX da Lei Federal 11.182/2005. Porém, procurou a Anvisa por ser a autoridade sanitária nacional para que tome as providências cabíveis", relata a nota.  

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Consumidor

Nesta segunda (16) e terça-feiras (17), há reuniões agendadas entre a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e representantes de agências de turismo e companhias aéreas para chegar a um acordo sobre as remarcações de viagens, para que possam ser feitas sem taxas. A Anac e o Ministério Público são esperados para os encontros.

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Reuniões do trade local com o Procon estadual e o Procon Recife também estão programadas para esta terça (17) e quarta-feiras (18) em busca do mesmo entendimento.

Por enquanto, o apelo é para que haja bom senso de ambas as partes. Ou seja, que as companhias aéreas e operadoras de turismo liberem as taxas de remarcações e o consumidor, por sua vez, opte por reagendar o voo e/ou pacote em vez de pedir o reembolso, a não ser nos casos em que a viagem não possa ser realizada em outro momento.

Conheça um pouco da história de Porto de Galinhas:

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