BBB20, The Circle Brasil e Casamento às Cegas renovam força dos reality shows

Em um momento de isolamento social e fortalecimento das redes sociais, público tem se engajado com programas de realidade televisionada
Márcio Bastos
Publicado em 07/04/2020 às 11:12
The Circle Brasil é reality perfeito para o mundo em estado de isolamento Foto: Netflix/Divulgação


Terça-feira é dia de paredão no Big Brother Brasil, programa que chega às suas últimas semanas na Rede Globo. Isso significa que, na noite do dia 7 de abril, o jogo vai para acabar para Babu, Flayslane ou Marcela, trio que disputa a preferência do público para permanecer na casa mais vigiada do Brasil. E coloca vigiada nisto. A forma como o BBB tem conquistado e engajado a audiência mostra que a fórmula dos reality shows está longe de se esgotar - ao contrário, está se adaptando aos novos tempos e entendendo os anseios de uma geração cada vez mais conectada e socialmente isolada.

Iniciada em janeiro, a atual edição do Big Brother Brasil pautou debates necessários desde as primeiras semanas, como machismo, racismo, relacionamentos tóxicos, sororidade, entre outros. Alguns participantes chegaram a ser aclamados por sua “sensatez” para, poucos dias depois, serem “cancelados”. No tribunal online e das ruas, nenhuma fala passa impune e qualquer rachadura na projeção de uma imagem perfeita é amplificada ao ponto de dividir todo mundo entre mocinhos e vilões.

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O BBB talvez seja o modelo mais conhecido de reality show: indivíduos confinados juntos em um espaço, disputando um prêmio e tendo que sobreviver à predileção interna e do público. Há algumas edições, as torcidas têm se acirrado e, talvez como um reflexo da polarização que também toma conta do mundo, não há espaço para nuances. Para o público, é ou não é, ame ou odeie. Nesta 20ª edição, o paredão entre Manu Gavassi e Felipe Prior chegou a bater o recorde de 1,5 bilhão de votos e mais parecia uma final de Copa do Mundo.

Outros modelos de “programas de realidade”, no entanto, têm apostado em dinâmicas diferentes que vão além da legitimação pelo voto da audiência. É o caso de dois fenômenos recentes da Netflix: The Circle e Casamento às Cegas. O primeiro acompanha um grupo de estranhos, cada um em um apartamento de um mesmo edifício, que só podem se comunicar através de uma rede social comandada por voz. Assim, podem assumir suas verdadeiras identidades ou assumir personagens. O objetivo é se tornar um influenciador digital e, no final da competição, ser o mais querido baseado apenas em suas interações por texto e por suas fotos.

Casamento às Cegas leva essa premissa para o campo do romance. Divididos em dois grupos, mulheres e homens devem sair em busca de seu par perfeito, mas, ao invés de se verem, deverão decidir quem é seu par ideal apenas pela conversa. Revezando-se em cabines separadas por paredes, eles devem sair de lá noivos, caso achem sua “cara metade”. Os participantes dizem encarar a experiência como um experimento social e não demora para que alguns estejam fazendo declarações de amor eterno e jurando de pés juntos que sabem que estão diante do amor da vida. Uma vez formados, os casais têm que enfrentar o passo mais difícil: se conhecer e se confrontar com a complexidade de cada indivíduo antes de dizerem “sim” (muitos desistem no altar, por sinal).

REDES SOCIAIS DOMINAM

Sucessos na Netflix, tanto The Circle quanto Casamento Às Cegas são reflexos de uma relação cada vez mais íntima das pessoas com as redes sociais, espaços nos quais é possível editar versões de si mesmo que podem condizer com a realidade ou apenas representar uma idealização em busca de curtidas e aceitação. The Circle, particularmente, é sustentado em cima dessa premissa e constrói com muita engenhosidade a percepção de que, sim, a forma como alguém é visto virtualmente tem muito peso social em 2020.

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Para ser o maior influenciador do programa e ganhar o prêmio de R$ 300 mil, cada curtida importa e personagens “fake” (quando o que é apresentado não é condizente com a realidade) podem ser mais benquistos do que aqueles que apresentam suas versões reais. O que importa é a imagem que se projeta. Não é o público que irá julgar, mas os próprios participantes. A audiência só tem acesso ao resultado quando ele já está determinado.

Em um momento singular da história contemporânea, com a maioria das pessoas em isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus - e as redes sociais se consolidando como um dos meios de comunicação primordiais - a premissa do programa ganha contornos ainda mais parecidos com a realidade.

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No Big Brother Brasil, no The Circle ou em outros tipos de reality shows, como RuPaul’s Drag Race, MasterChef, De Férias Com o Ex, Soltos em Floripa, só para citar alguns, o termo realidade pode ser expandido e repensado. Afinal, há sempre uma edição - da equipe do programa ou até mesmo do próprio público, que, caso esteja acompanhando pelas redes sociais ou pelo pay per view, pode escolher câmera, ângulos, assuntos. O que parece comum a todas essas atrações é o poder de catarse que há na adoração ou linchamento de seus participantes, como se eles representassem arquétipos de cada um de nós.

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