Artes visuais

David Alfonso abre exposição 'Deuses Ocultos' na Arte Plural

Artista cubano radicado no Recife apresenta seu universo simbólico, entre o onírico e o real

Cadastrado por

Márcio Bastos

Publicado em 25/08/2021 às 9:52
O artista cubano David Alfonso vive no Brasil desde 2007 - DIVULGAÇÃO

O processo criativo de David Alfonso é marcado pela liberdade. O artista visual cubano não costuma fazer esboços antes de começar uma obra e se deixa levar pelo fluxo dos traços e pinceladas, o que dificilmente resulta em um caminho reto. E nem é isto que o interessa. Por veredas que o levam à sua infância e juventude em Cuba às experiências no Brasil, onde vive desde 2007, passando por suas leituras, interesse pela música, yoga e outros assuntos, ele é um viajante de um universo próprio, marcado por diferentes símbolos, mas que não necessariamente se descola do que acontece ao redor.

Se permitir enxergar o que há por trás desses elementos do imaginário é um dos motores de sua pintura, como mostram as obras da exposição Deuses Ocultos, em cartaz a partir desta quarta-feira (25), na Galeria Arte Plural. A curadoria é de Olívia Mindêlo.

Formado em design gráfico pelo Instituto Superior de Diseño de Havana, David vive desde 2009 no Recife, cidade pela qual se apaixonou após passar dois anos em Fortaleza. Ele encontrou muitas semelhanças entre a capital pernambucana e a sua cidade de origem, assim como nos costumes do povo e em elementos da cultura, com fortes influências da diáspora africana e da colonização ibérica. Há anos trabalhando com publicidade, ele utilizou o isolamento na pandemia para se dedicar mais à arte, aos estudos e à yoga e meditação.

"Trabalho muito a figura humana, não sei se é pelo fato de tentar entender quem somos nós. A exposição é uma homenagem a nós como seres humanos, imperfeitos e divinos ao mesmo tempo", explica o artista. "Não faço estudos prévios, pego a tela e vou em frente. Inclusive, tem várias obras aqui que são mais de uma porque eu cobri. Eu não conseguia me comunicar, entender de onde aquele personagem tinha saído ou aquele elemento. Por isso o nome da exposição, que é tentar descobrir a essência daqueles personagens. E para mim, o deus oculto também é a cor porque sou daltônico."

EXPRESSÃO Obras do artista cubano tendem a explorar a figura humana - GUSTAVO BETTINI/DIVULGAÇÃO

Essa relação com a cor, inclusive, dialoga com a premissa de liberdade e experimentação do artista. Um cachorro, por exemplo, pode aparecer roxo ou laranja, sem um compromisso com o real, ainda que recorra a ele como material de criação. Como resultado, tem-se obras que fazem uso da condição do artista para adquirir uma personalidade própria. Suas misturas com as cores são racionais, mas também intuitivas. "Se a pessoa sai verde, não importa, porque no final das contas o que eu não posso é deixar de criar. Para mim é mais importante me expressar", conta.

Seus personagens são permeados por símbolos recorrentes, como a lua, o sol, bananas (que remetem à sua casa, em Cuba), animais, como os caninos e os cavalos (significando o destino). Os objetos, como um facão, podem remeter a ideias complexas, como a de resistência e libertação, e o diálogo com o onírio também se faz presente. Seus personagens, mesmo quando imersos no coletivo, costumam transitar em universos particulares, como se fossem mistérios individuais.

"Foram obras trabalhosas pelo fato de que cada coisa que estivesse ali tivesse uma razão e às vezes ela se mostrava depois [da obra pronta]", explica. "A obra pode ser um quebra-cabeça. Há vários deuses ocultos, energias", reflete. "Primeiramente, pinto por necessidade e, depois, quero que quem observa a obra tenha algum tipo de relação com ela, uma interpretação. Essas obras são um pedaço de mim. Não gosto de falar dos significados, gosto que cada pessoa crie o seu."

CORES Artista é daltônico, por isso vê as cores como "deuses ocultos" - GUSTAVO BETTINI/DIVULGAÇÃO

O acesso presencial à exposição é gratuito, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. A APG fica na Rua da Moeda 140, Recife, no Bairro do Recife. Além dos trabalhos de David, é possível conferir no espaço a mostra pop-up com trabalhos de Maurício Arraes, Renato Valle, Luciano Pinheiro, Antônio Mendes, Rinaldo Silva, Raul Córdula, Dani Acioli e Sebastião Pedrosa.

 

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