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A revolução na sonoridade do Rush

Moving Pictures completa 40 anos. Edição especial comemorativa será lançada até o fim do ano

João Carvalho
João Carvalho
Publicado em 16/02/2021 às 2:00
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SRO Anthem / Divulgação
Banda canadense foi fundada há 53 anos e vendeu milhões de discos - FOTO: SRO Anthem / Divulgação
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O início dos anos 80 trouxe uma certa independência para Anselmo Lopes. Recém-contratado numa empresa como office boy, gastava quase todo o salário com discos de rock que garimpava nas lojas do centro de São Paulo. Numa delas, deu de cara com o novo lançamento da banda canadense Rush, de quem já começara a ser fã. Comprou o bolachão, levou pra casa, botou pra tocar e sentiu a porrada sonora. A clássica Tom Sawyer abria o caminho para o que seria um marco na carreira do trio canadense com o disco Moving Pictures, completando 40 anos este mês. A obra foi tão importante que a produtora do Rush confirmou o lançamento de uma edição especial comemorativa, com lançamento previsto para até o fim deste ano. Anselmo, assim como milhares de pessoas, foi arrebatado e se transformou em adorador de tudo do trio. Com 56 anos ( e exercendo hoje a odontologia) coleciona discos, DVDs, CDs, camisas e toda uma parafernalia ligada à "santíssima trindade do rock", como Geddy Lee (baixo, teclados e voz ), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) ficaram conhecidos.

A sensação de Anselmo foi a mesma de milhares de fãs naquele fevereiro de 1981. Para a maioria deles (e de alguns críticos) este não é apenas mais um álbum de hard rock ou rock progressivo do início dos anos 80. Trata-se de uma obra-prima. O Rush vinha do triunfante Permanent Waves, disco anterior, e mostrava de vez a nova fase. Músicas mais curtas, compactas. "Foi quando nos tornamos o que somos. Acho que o Rush nasceu de fato com Moving Pictures", destacou na época Neil Peart, responsável também pelas letras da banda. "Comecei a ver como todas as coisas que criei poderiam ser feitas com muito menos palavras", disse. Neil faleceu em janeiro do ano passado, vítima de um câncer raro no cérebro.

Pode-se dizer que essa obra é o trabalho que define o Rush, o que "Dark Side of the Moon" foi para o Pink Floyd, por exemplo. Tematicamente pode ser considerado autobiográfico, focado em mostrar como a banda estava respondendo à popularidade em massa. "É o primeiro álbum onde realmente respiramos no que diz respeito ao ritmo", lembrou Geddy Lee em entrevista à imprensa americana. "Toda essa ideia de uma coleção de contos é o que buscávamos. O Moving Pictures é isso", descreveu Alex Lifeson, em outra entrevista.

O guitarrista lembra bem o processo de criação. "Fomos para uma fazenda na região de Stony Lake (um lago no condado de Peterborough, no centro de Ontário, Canadá)", explicou Alex numa das biografias do grupo ("Limelight", de Martin Popoff). "Tinha uma casa bonita com um grande celeiro. Convertemos o celeiro em estúdio, montamos a bateria de Neil e tínhamos áreas para mim e Geddy. E era um local muito bom". Com o produtor Terry Brown, Lee, Lifeson e Peart trabalharam intensamente durante outubro e novembro de 1980, meses de muito frio e neve pesada. "Estávamos nos divertindo bastante", lembrou Lifeson. "Acho que é por isso que Moving Pictures se tornou o nosso disco mais famoso. As pessoas sabem quando uma banda está detonando. E realmente estávamos".


Um trabalho tão diferente incluiu também uma parceria inédita. A já citada música de abertura Tom Sawyer, conhecida no Brasil como "a música do MacGyver" - era o tema do seriado Profissão Perigo, sucesso da TV nos anos 80 - ganhou letra feita por Peart e Pye Dubois, do grupo Max Webster, também canadense. Para se ter uma ideia da importância dessa composição, em 2009 foi nomeada umas das maiores canções de hard rockde todos os tempos. Na esteira dela, as outras seis músicas que integram o Moving Pictures seguem mostrando todo a maestria e virtuosismo do Rush.

Viver em um palco iluminado se aproxima do irreal, é o que afirma Limelight. "É uma canção sobre a alienação que os fãs tentam nos impor", explicou Neil. "Eles nos forçam a fazer o check-in em hotéis com nomes falsos. A ter seguranças para manter as pessoas longe de nós". O discurso se repete mais tarde em Vital Signs, com pegada forte de guitarra e sintetizador, o que não se esperaria do trio, inicialmente. Mas funcionou tão bem que se tornou uma das favoritas dos fãs na época do lançamento.

"Vital Signs foi a última a ser gravada, eclética ao extremo, abraça uma ampla variedade de influências estilísticas dos anos 60 pra cá", escreveu Peart no texto de divulgação da turnê do disco. Em Red Barchetta , o trio mostra ao público uma narrativa sobre a sensação de liberdade: começa devagar, com um trabalho simples de guitarra e baixo e, em seguida, entra num crescente cada vez mais rápida. Foi uma homenagem do baterista ao seu carro favorito, uma Ferrari 166MM.

Já YYZ prova que tudo poderia ser uma fonte de inspiração para Peart. Durante uma viagem de avião, ele ouviu o som do código morse do Aeroporto Internacional de Toronto e escreveu um dos maiores instrumentais do rock. "Criamos durante uma jam, eu e Neil. Alex veio depois e incluiu solos com pegadas da música oriental", descreveu Geddy Lee. The Camera Eye é um épico de onze minutos fortemente sintetizado para transmitir impressões de Nova York e Londres. Menos mística e mais industrial, não é uma música para todos os gostos, mas ainda assim pode ser considerada um clássico. Witch Hunt surge de um mar de efeitos sonoros gerados por sintetizador. É uma das canções mais obscuras já escritas pelo trio, baseada na história das Bruxas de Salem.

Moving Pictures influenciou milhares de músicos no mundo, incluindo artistas brasileiros. Alguns deles falaram ao Jornal do Commercio sobre o disco. Para João Barone, responsável pela bateria de um dos trios mais importantes para o rock brasileiro, Os Paralamas do Sucesso, "o álbum traz uma áurea especial num momento efusivo de criação. Realmente tem uma coisa especial". Segundo ele, os integrantes do Rush foram ganhando reputação a cada álbum e ampliando paulatinamente a quantidade de fãs. "É impossível ficar inerte ao que eles conseguiram", concluiu.

O guitarrista Paulo Rafael, do Ave Sangria, uma das bandas emblemáticas do rock psicodélico, destacou a conexão temporal que os canadenses fizeram. "Construíram essa ponte dos anos 70 com o que era moderno na época. Eram visionários, principalmente na parte instrumental. Tocavam nos anos 80 o que seria atual nos anos 90 e depois", disse. "Quando conheci o Rush, eu me perguntei: 'que som é esse?'. São gênios virtuoses. Pude acompanhar a passagem deles pelo Rio de Janeiro, em 2010, e observei fãs de várias idades. Uma banda que ainda vai inspirar muitas gerações", afirmou.

Baixista do Sepultura, uma dos mais importantes grupos do heavy metal mundial, Paulo Xisto lembrou quando conheceu o disco. Para ele, o trio conseguiu unir o pop e o progressivo em uma linguagem perfeita. "O disco é perfeito a cada faixa pela qual vamos passando", disse. "Gosto mais de Vital Signs. Mas virei fã de carteirinha depois de escutar várias vezes o Moving Pictures. É o disco mais Rush", diz. "Quando soube da morte do Neil eu estava num bar em Amsterdã. Fiz os caras do bar botarem o disco pra tocar inteiro", lembrou.

O Sepultura conheceu o trio canadense quando o Rush tocou em São Paulo, durante a turnê do disco Vapor Trails. Naquele ano eles se apresentaram também no Rio de Janeiro e Porto Alegre, voltando em 2010 para shows nas capitais paulista e carioca. 

ARQUITETOS DO SOM

Outro que considera a importância do disco é Charles Gavin, instrumentista, produtor, pesquisador, apresentador de TV e rádio, responsável pela bateria dos Titãs entre 1985 e 2010. "São arquitetos nos seus instrumentos. Acho que essa palavra, arquitetura, cabe bem na maneira como cada um atua dentro da música da banda", explicou. "Letras maravilhosas. E a música, a sonoridade, a instrumentação. Riffs, melodias, viradas de baterias que só o Neil Pert conseguiria fazer", lembrou. "Eles acertaram no disco, sem abrir mão de suas concepções estéticas e artistas nas quais acreditavam. Já eram ali um dos maiores instrumentistas de sua geração", exaltou.

Gavin lembra também a qualidade das apresentações ao vivo da banda. Um desses shows a que ele se refere foi gravado justamente durante a turnê do Moving Pictures (que rendeu a gravação do segundo disco ao vivo, o Exit...Stage Left) . "É uma coisa difícil de imaginar. Um cara que canta naquele registro tão alto, em termos de afinação. E além de interpretar, toca baixo e teclado ao mesmo tempo. A música, os arranjos eram carismáticos. Uma das bandas que mais ouvi na minha vida e que me trouxe muita alegria", comentou. "As pessoas ainda precisam conhecer e aprender a música do Rush."

À época do lançamento do álbum, Neil Peart fez uma reflexão sobre as impressões que ele teve como ouvinte da própria obra. "É uma curiosa sensação quando se escuta um álbum completo pela primeira vez. Como alguns meros quarenta minutos contêm e expressam todos os pensamentos, sentimentos e energia que foram colocados ali?", escreveu. "Então você repentinamente ouve sem analisar, transformando-se de executor em audiência, sentindo as respostas que você espera que um ouvinte em casa sinta."

No caso de Moving Pictures, a excelência do Rush é a grande resposta.

 

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TÚNEL DO TEMPO Rush durante show na Inglaterra na turnê do Moving Pictures - FOTO:CYGNUSX-1.NET/REPRODUÇÃO
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MEMÓRIA Disco Moving Pictures marcou de vez o sucesso do Rush no mundo - FOTO:REPRODUÇÃO
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Durante a turnê do Clockwork Angels, o Rush tocou todas as músicas do Moving Pictures, em homenagem aos 30 anos do disco - FOTO:SRO Anthem / Divulgação
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40 anos do lançamento de Permanent Waves, do Rush - FOTO:DIVULGAÇÃO

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