MERCADO

Escritório na varanda e uso de tecnologia reforçam venda de imóveis em Pernambuco

Para se adaptar à nova realidade, mercado imobiliário aposta no aperfeiçoamento de soluções tecnológicas e versatilidade dos apartamentos

Lucas Moraes
Lucas Moraes
Publicado em 14/06/2020 às 5:00
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Foto: Diego Nigro/Acervo JC Imagem
Mercado imobiliário espera manter ritmo de vendas com nova jornada digital do cliente - FOTO: Foto: Diego Nigro/Acervo JC Imagem
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A pandemia da covid-19 tem proporcionado ao mercado imobiliário uma nova valoração. Não é uma simples questão de preço, até porque o momento não é de fartura e compras apressadas para quase todo o mundo, ainda mais quando se trata da compra da casa própria, algo necessariamente planejado. O maior tempo dentro dos imóveis e novas atribuições ao que antes era um local praticamente só de descanso tem despertado novos olhares para a ressignificação de espaços já existentes ou a conquista de novos. O setor aposta nessa demanda como fio condutor para manter as vendas aquecidas. E para fazer chegar ao cliente as propostas, o investimento em tecnologia tem crescido.

Na última segunda-feira (8) a maior parte da construção civil voltou às atividades em Pernambuco. Foram mais de 70 dias sem iniciar ou dar continuidade às obras em andamento. O resultado por certo impacta o prazo de entrega dos apartamentos, mas não foi capaz de inibir a manutenção dos índices de busca pela compra de imóveis. 

“Na parte comercial, de vendas, isso não parou. Teve alguma queda, mas não parou. A maioria das empresas já estava num transformação digital, e esse formato se solidificou na pandemia, devendo permanecer no retorno. Esse isolamento vai perdurar um pouco, então todo mundo tá se preparando. O digital sem dúvida é o grande caminho para essa parte comercial”, diz o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE), Gildo Vilaça.

O que muda no imóvel desejado e passa a ser muito importante (1,7 mil pessoas ouvidas):

Boa vizinhança: 68%
Imóvel com ambientes mais bem divididos: 63%
Imóvel com varanda: 57%
Imóvel com vista desimpedida: 55%
Imóvel maior: 46%
Imóvel com ambiente para escritório: 32%

Fonte: Grupo Zap

Há pouco mais de dois anos casada, a secretária Luzia Mendes, 34 anos, embora não tenha fechado negócio, não perdeu o entusiasmo na busca pela casa própria e, seguindo a tendência, passou a ter mais apreço por novas áreas. “Até então moro de aluguel. Já tenho algum dinheiro para conseguir financiar, mas ainda não sei se é o momento certo. Tenho procurado muito na internet. Antes pensava só em dois quartos, mas agora já pesa muito o espaço na varanda e até um terceiro quarto ou sala maior. Ultimamente tenho trabalhado de forma improvisada em casa”, conta. 

Facilitar o caminho da venda e ao mesmo tempo atender os novos desejos dos compradores é um desafio que precisará ser aceito por construtoras e incorporadas pernambucanas. Estudo com 1.700 entrevistados do FipeZap mostra que agora ter varanda, vista livre e ambientes mais bem divididos são características do novo imóvel consideradas importantes ou muito importantes por mais de 50% do público no pós-pandemia.
Na construtora Vale do Ave, o edifício Capiba, a ser erguido no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, já atenta para essas mudanças. O lançamento do imóvel foi adiado em 90 dias, mas, ao projeto, passou a ser concebido a possibilidade de ter uma varanda com estrutura de escritório, uma “varanda office”.

 

Divulgação
Apartamento decorado Porto Mondego - Divulgação

“Na nossa visão, a varanda gourmet faz uma integração com um espaço da sala, estamos adaptando o que seria isso para uma varanda office. Nesse sentido, é um movimento contrário, que pede um ambiente um pouco mais reservado. Essa basicamente seria a diferença de conceito de projeto. Consequentemente, as instalações complementares são diferentes. Enquanto uma varanda gourmet demanda bancada de água, instalação de gás; o outro projeto de varanda demanda mais pontos de energia e pontos de conexão de rede, que são inerentes ao trabalho”, diz o diretor técnico da Vale do Ave, Zeferino Costa sobre o novo formato do espaço com 9m².

Em outra frente,a construtora também investiu R$ 77 mil dólares na criação de um aplicativo. “O lançamento do Capiba tende a ser um lançamento virtual. Estamos desenvolvendo uma ferramenta muito interessante, com uma empresa de Israel. Um app do prédio, que estará disponível para tour virtual, inclusive com realidade aumentada, podendo entrar em todos os ambientes, áreas comuns e do apartamento, consultar preços e integrar ao Google Maps para conhecer os arredores. É algo pioneiro no Norte e Nordeste, talvez no Brasil também”, reforça Costa. O Valor Geral de Vendas é estimado em R$ 80 milhões.

Indicadores Nacionais Abrainc:

Os lançamentos de imóveis somaram 10.846 unidades em março de 2020, totalizando 17.627 no primeiro trimestre deste ano (queda de 3,0% em relação ao primeiro trimestre de 2019)

Já as vendas de imóveis novos somaram 10.927 unidades em março, colaborando para um volume total de 30.004 unidades comercializadas no primeiro trimestre deste ano (avanço de 11,5% frente ao mesmo período de 2019)

Alto Padrão:

2.924 lançamentos e 2.362 vendas em março de 2020. Na comparação com março do ano passado, as quedas foram, respectivamente, de -21,8% e -30,3%

Minha Casa Minha Vida:

7.826 lançamentos e 8.308 vendas em março de 2020. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, houve, respectivamente, queda de -16,8% e alta +7,2%

Fonte: Abrainc

Apostando também na continuidade das vendas, as construtoras Park Centrale e Casa Grande Engenharia lançaram o residencial Porto Mondego através de uma sala de exibição do aplicativo ZOOM, para 500 convidados. “No passado você fazia um prédio, montava o estande de vendas e o cliente ia até ele para fazer a compra. A gente antes da pandemia tinha como estratégia montar o apartamento e apresentá-lo. Em meados de março já tinha data marcada e todo o aparato de mídia em curso, começou a pandemia e paralisamos. Passamos a reforçar toda a mídia online”, diz o engenheiro civil e gestor do empreendimento Porto Mondego, Eduardo Lins.

Nos últimos dois meses, a captação de potenciais clientes no ambiente online cresceu 30%, segundo as construtoras. “As plantas flexíveis têm apresentado demanda. Nosso projeto é um três quartos com dependência. Facilmente vira um três quartos com home office. Tudo isso que aconteceu faz com que de alguma forma possa haver uma valorização do entendimento de ter um imóvel. O imóvel se valorizou e não necessariamente em preço”, completa Lins. Uma unidade do Porto Mondego pode sair em média por R$ 790 mil. O Valor Geral de Vendas é estimado em R$ 50 milhões.

 

Legenda Comunicação/ Divulgação
Rafael Simões, diretor da construtora Tenório Simões - Legenda Comunicação/ Divulgação

 

Interferência da pandemia


 Num levantamento feito pela consultoria Brain, especializada em mercado imobiliário, pelo menos 47% das pessoas que apontaram à consultoria interesse em comprar imóveis entre setembro de 2019 e o mês de fevereiro deste ano ainda mantinham a intenção de compra no último mês de abril. E para 11% dos compradores, o isolamento interferiu no tipo de imóvel a ser escolhido, preponderantemente pela questão financeira e a necessidade de repensar o tipo de imóvel. Dentre as tendências, paisagismo, coberturas, varandas e opções mais tecnológicas ganham destaque.

“A questão é que quase a totalidade das empresas não estava preparada para o caminho completo da jornada dos clientes. Esse caminho começa com promoção e divulgação, esse pedaço é onde as empresas estão mais estruturadas. A segunda parte, como tratar quem busca esses imóveis, muitas vezes a incorporadora ou imobiliária não fazia todo o processo de acompanhamento de quem está querendo comprar, e essa parte estava medianamente avançada. A terceira parte, de negociação e assinatura de contrato digital estava muito pouco avançada”, diz o sócio diretor da Brain, Fábio Tadeu Araújo.

Intenção de compra de imóveis no Brasil:

Em abril, a Brain realizou uma pesquisa onde 47% dos entrevistados mantiveram a intenção de compra e 53% desistiram. Entre os principais motivos para a desistência, destacam-se:

Incerteza sobre a duração da pandemia: 46%
Incerteza sobre o próprio emprego ou renda:24%
Perda de renda: 20%

Já as tendências apontam para:

Home Office
Espaços para coworking em condomínios residenciais
Mais área verde e mais fruição da casa
Um mundo mais virtual, com imóveis cada vez mais conectados

Fonte: Brain

O avanço tecnológico vale inclusive para o mercado Minha Casa Minha Vida. A construtora Tenório Simões, do município de Paulista, fechou parceria com a Docusign, passando a permitir a assinatura digital de contratos. “Antes do coronavírus nosso foco era levar o cliente até o apartamento decorado. Hoje, enviamos uma playlist de vídeos sobre o produto para o cliente também”, reforça o diretor da construtora, Rafael Simões.

Comercializando atualmente o edifício Costa do Forte, mesmo com a atual situação econômica, 60% das unidades foram vendidas. Nas contas da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), desde o início da pandemia, cerca de 60% do segmento Minha Casa Minha Vida teve redução inferior a 40% nas vendas. No Médio e Alto padrão, a queda acima de 40% atingiu 85% das empresas.

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Rafael Simões, diretor da construtora Tenório Simões - FOTO:Legenda Comunicação/ Divulgação
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Apartamento decorado Porto Mondego - FOTO:Divulgação

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