OPINIÃO | Notícia

Sérgio Buarque: comunicação e estratégia

No geral, o governo do presidente Lula da Silva tem acertado no atacado com a implementação das reformas, embora não tenha uma estratégia

Por SÉRGIO C. BUARQUE Publicado em 29/01/2025 às 7:00 | Atualizado em 03/02/2025 às 7:16

É comum dizer-se que a propaganda é a alma do negócio. Mas, qual é o negócio? O resultado do negócio depende, antes de tudo, da qualidade do produto, a boa propaganda servindo apenas para ressaltar e demonstrar o seu valor para o consumidor.

Não existe milagre de comunicação capaz de vender um produto (negócio) de qualidade duvidosa, produto que não agrade ao consumidor, principalmente se ele não confiar na empresa e na marca.

É o caso do governo brasileiro e dos produtos que ele tem ofertado, até agora, à população brasileira? Não.

As conquistas do governo e a percepção do eleitor

É preciso reconhecer que o governo tem realizações importantes a apresentar ao eleitorado.

Conseguiu aprovar uma reforma tributária, nada trivial e de grande impacto no futuro na economia brasileira, concebeu e, aos trancos e barrancos, está implementando o Arcabouço Fiscal que mostra responsabilidade na gestão das finanças públicas (apesar das reclamações do próprio presidente); e delineou uma nova política industrial contemporânea.

Infelizmente, nada disso interessa à esmagadora maioria do eleitorado, que não compreende a relevância das mudanças estruturais, se move e avalia as medidas a partir dos resultados imediatos e diretos na sua vida.

O governo também tem resultados imediatos a apresentar, é verdade. No ano passado a economia brasileira registrou um crescimento de 3,5%, que levou a um desemprego muito baixo e ao aumento da massa salarial, combinado com o declínio da pobreza, tudo que o eleitor sente na pele.

E, como ele não sabe que o aumento do PIB bateu no teto da capacidade instalada e deve declinar neste ano, o governo teria muito que ganhar do reconhecimento público, mesmo sem grande empenho publicitário.

E então por que a avaliação geral do governo não melhora e, na verdade, vem declinando nos últimos meses? Tudo indica que os ganhos na renda e no emprego foram corroídos pela alta dos preços, principalmente pela inflação dos alimentos, que passou de 7,69% no ano passado. E, quando chega no bolso, a propaganda não convence.

No geral, o governo do presidente Lula da Silva tem acertado no atacado com a implementação das reformas, embora não tenha uma estratégia de desenvolvimento que foque nas grandes prioridades e articule as áreas estruturais, como educação e saneamento.

No varejo, o governo distribui medidas desconexas e, o que é pior, atua de forma reativa aos eventos e humores dos eleitores e das pressões dos movimentos sociais.

Espremido entre as chantagens do Centrão e as expectativas imediatistas dos eleitores, o governo padece de rumo e flutua ao sabor das circunstâncias.

Nestas condições, não adianta reformular e reforçar a comunicação, avançar nas redes sociais, se o governo não transmite confiança e qualidade dos seus produtos, não passa uma mensagem de confiança.

Na verdade, o governo já começa errado quando pensa que todo o problema reside nas falhas de comunicação e não, na qualidade dos produtos que está oferecendo aos brasileiros.

O impacto das decisões políticas na confiança do eleitor

Dois fatos recentes ilustram a confusão do governo na desesperada tentativa de melhorar a sua avaliação. Primeiro, a reviravolta em relação ao monitoramento do pix.

O governo acertou na medida, que tinha o objetivo de controlar movimentos irregulares da corrupção e o crime organizado através do pix.

Depois que o deputado Nicolas Ferreira divulgou nas redes sociais que, com este monitoramento, o governo queria taxar os pobres da informalidade, o governo entrou em pânico e recuou.

Pode ter falhado na comunicação, mas errou muito mais quando não teve a habilidade e a coragem política para defender o monitoramento e a passar confiança ao eleitorado de que não se tratava de controlar ou punir a movimentação de brasileiros honestos.

A reação da população refletia já uma desconfiança em relação ao governo, desconfiança que aumentou na medida em que, recuando, mostrou falta de rumo e convicção.

A pesquisa da Genial Quaest realizada depois do imbróglio mostra que, pela primeira vez, a aprovação do governo (31% aprovam) é menor que a desaprovação (37% desaprovam), confirmando a perda de confiança do eleitorado.

Considerando o efeito da inflação de alimentos na avaliação do governo, o ministro da Casa Civil vai à televisão sugerindo uma intervenção no mercado para baixar os preços dos produtos alimentares.

Reformulou, depois do impacto negativo da proposta (não da comunicação), mas anunciou que o governo vai reduzir tarifas alfandegárias aos produtos que tenham preços externos menores que os praticados internamente.

 

A falta de uma estratégia clara

A ideia é totalmente inadequada e de eficácia duvidosa para produtos cujos preços flutuam normalmente no tempo, de acordo com o clima e a safra, as cotações internacionais (que também flutuam) e o câmbio.

Mais um jogo de cena, como a promessa de importação de arroz depois do desastre ambiental no Rio Grande do Sul, que teria reduzido a oferta do produto.

Sem uma estratégia convincente capaz de entregar à população resultados concretos e, não, apenas promessas vazias e sinais claros de desorientação política, não adianta contratar o melhor comunicador do Brasil.

Um governo sério não deve se prender às demandas imediatistas dos eleitores, tem que estar disposto, inclusive, a tomar posições impopulares, quando necessário, e procurar convencer a população da sua correção e dos resultados de longo prazo.

Enquanto o próprio presidente da República e seus ministros não controlarem a incontinência verbal e continuarem prisioneiros das pesquisas eleitorais, o novo ministro da comunicação vai penar muito para recuperar a confiança do eleitorado e a avaliação positiva do governo.

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Sérgio C. Buarque, economista

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