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Caso DJ Ivis: Em Pernambuco, já houve pelo menos 17 mil agressões contra ‘Pamellas’ só em 2021; saiba como denunciar

Caso de violência doméstica praticada por artista jogou luz sobre problemática. Só até maio de 2021, Pernambuco contabilizou 16.961 denúncias desta natureza, segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS)

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 13/07/2021 às 14:11
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Reprodução/Instagram
Prints do vídeo em que o cantor e músico DJ Ivis agride sua esposa, Pamella Holanda. - FOTO: Reprodução/Instagram
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Cenas de violência doméstica chocam o Brasil quando ultrapassam as quatro paredes de dentro de casa, mas são mais comuns do que parece. Isso é exemplificado pelos vídeos que mostram o DJ Ivis, sucesso do ‘piseiro’, agredindo a própria esposa na presença da filha, divulgados pela vítima nesse domingo (11), e por dados da Secretaria de Defesa Social (SDS): só até maio de 2021, Pernambuco contabilizou 16.961 denúncias; um crescimento de 1,73% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando houve 16.673 queixas do tipo.

O total de feminicídios, assassinatos de mulheres por razões de gênero, também preocupa. Em maio deste ano, a SDS registrou um aumento de 20% em relação ao mesmo mês de 2020, já que o total passou de 5 para 6, Nos cinco meses iniciais de 2021, a subida foi de 33,3%: de 33 para 44 vítimas. Em relação às mortes violentas de mulheres, o aumento foi de 96 para 101 (5,2%) entre este e o último ano, e, entre os meses de maio, houve queda de 25%, de 20 para 15 registros.

A violência doméstica e familiar constitui uma das formas de violação dos direitos humanos em todo o mundo. No Brasil, a Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, caracteriza e enquadra na lei cinco tipos de violência contra a mulher: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial.

A violência patriarcal dentro de casa, no entanto, começa a dar indícios muito antes de chegar a um feminicídio. "À medida em que a relação abusiva vai se consolidando, passando para a violência sexual, para a moral, para a patrimonial e para a física, também pode, com certeza, chegar ao feminicídio, porque tudo vai depender de como a mulher vai se comportar nesse ciclo e de como ela vai reagir. Quando um homem violento percebe percebe que perdeu o controle da mulher que ele subordina, ele passa a adotar estratégias mais duras e difíceis de combate", explica a Gerente de Enfrentamento e Prevenção a Violência contra a mulher do Recife, Avani Santana.

Um exemplo de tentativa de feminicídio que aconteceu nessa segunda-feira (12) foi, inclusive, noticiado pela coluna Ronda JCPoliciais civis da 4ª Delegacia de Homicídios, no Recife, prenderam em flagrante um homem suspeito de atirar na esposa, grávida de quatro meses, no bairro do Prado, na residência do casal. A corporação começou a investigar o caso após a vítima de 26 anos dar entrada, ferida, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) dos Torrões. Ela acabou sendo transferida para o Hospital da Restauração, na área central do Recife, onde segue internada. O estado de saúde é considerado grave. 

Pelas redes sociais, a Secretaria da Mulher do Recife divulgou um “violentômetro”, que pede para que as vítimas fiquem em alerta caso o parceiro “diminua a sua opinião, minta, mexa em suas coisas, culpe você por tudo e te chame de louca”. É preciso reagir se ele “chantagear, assediar, intimidar, ameaçar, controlar ou proibir”. Por fim, é necessário pedir ajuda caso ele “destrua seus bens, force relações sexuais, bata, aprisione ou ameace de morte".

“É preciso ficar atenta nas relações ainda de namoro. Um indivíduo dominador, controlador, que quer impor sua vontade e opinião sobre tudo, é alguém que mais adiante não vai ter controle dessas emoções quando sentir que houve uma reação por parte da mulher. Precisamos trabalhar ainda mais com as adolescentes para perceber os sinais, e a família e a sociedade precisam estar atentos para orientá-las”, afirma Avani.

Alguns dos vídeos do DJ Ivis mostram que outras pessoas presenciaram as cenas de violência. Avani  se preocupa ao observar que as testemunhas aparentemente não tentaram impedir as agressões. "As pessoas acham natural e isso é assustador, é algo que faz com que nos preocupemos com o que vai acontecer com esse país no futuro e com as futuras gerações. [Precisamos] tomar atitudes mais duras e ácidas no sentido de confrontar e de denunciar, além de usar os equipamentos públicos disponíveis à população."

O assunto é altamente repercutido pelas redes sociais desde que as cenas foram divulgadas. Nas redes sociais, o apoio à Pamella é majoritário, mas, mesmo assim, há pessoas que a culpam por não ter saído da relação antes. Para Avani, "essa é mais uma forma de violência" contra ela. "Ninguém gosta de apanhar, homens e mulheres nasceram para ser felizes. O sofrimento é decorrente das relações sociais que colocam esses indivíduos nessas posições. A sociedade julga a mulher quando ela rompe a relação abusiva, dizendo que ela não soube mantê-la, e a culpa quando no núcleo familiar algum filho tem algum problema. Nossa sociedade é muito dura para as mulheres", diz.

Como pedir ajuda

Disque 180 - Central de Atendimento à Mulher

A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço de atendimento telefônico que funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os finais de semana e feriados. Toda ligação feita à Central é GRATUITA e o objetivo é disponibilizar um espaço para que as mulheres possam denunciar violência de gênero em suas diversas formas. As ligações podem ser feitas de qualquer telefone - seja ele móvel ou fixo, particular ou público (orelhão, telefone de casa, telefone do trabalho, celular). O Disque 180 foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República.

Polícia Militar - Disque 190 (quando o crime está acontecendo)

Disque Denúncia: (81) 3421 9595 (para outras situações)

Disque Denúncia do MPPE: 0800 2819455

O serviço do Ministério Público de Pernambuco funciona de segunda a sexta- feira, das 12h às 18h, e tem como objetivo receber denúncias acerca de assuntos diversos referentes às áreas criminal, civil e de cidadania, bem como realizar o seu acompanhamento.

Ouvidoria da Mulher do Estado de Pernambuco - 0800 2818187
Central de Teleatendimento à Cidadã Pernambucana 24h / Ligação gratuita
Avenida Cais do Apolo, nº 222, 3º andar, Centro, Recife, PE,
CEP 50030-905.
Horário de atendimento: das 8h às 18h, dias úteis.
Atendimento virtual: ouvidoria@secmulher.gov.pe.br

Delegacias Especializadas Da Mulher

Recife
1ª Delegacia de Polícia Especializada da Mulher
Rua do Pombal, Praça do Campo. Santo Amaro. Recife. Fone: (81) 3184.3352

Jaboatão Dos Guararapes
2ª Delegacia de Polícia Especializada da Mulher
Estrada da Batalha, s/n°. Prazeres. Jaboatão dos Guararapes.
Fone: (81) 3184.3444/3445

Petrolina
3ª Delegacia de Polícia Especializada da Mulher
Rua Castro Alves, nº 57. Centro. Petrolina. Fone: (87) 3866.6625

Caruaru
4ª Delegacia de Polícia Especializada da Mulher
Rua Dalton Santos, nº 115. São Francisco. Caruaru. Fone: (81) 3719.9106

Paulista
5ª Delegacia de Polícia Especializada da Mulher
Praça Frederico Ludgren, s/n°. Paulista. Fone: (81) 3184.7072

Garanhuns
9ª Delegacia de Polícia Especializada da Mulher
Rua Frei Caneca, nº 460. Heliópolis. Garanhuns. Fone: (81) 3761.8507

Instituto Médico Legal
Rua do Pombal, nº 455. Santo Amaro. Recife. Fone: (81) 3222.5814

Centro de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Sexista

Recife
Centro de Referência Clarice Lispector
Rua Bernardo Guimarães, nº 470. Boa Vista. Fone: (81) 3232.5370/0800.2810107

Jaboatão
Centro de Referência Maristela Justus
Rua Travessa São João, nº 64. Massaranduba. Fone: (81) 3468.2485

Olinda
Centro de Referência Márcia Dangremon
Rua Maria Ramos, nº 131. Bairro Novo. Fone: (81) 3429.2707/0800.2812008

#UmaPorUma

A violência contra a mulher é constante e frequentemente acaba em tragédia. Existe uma história para contar por trás de cada feminicídio, em Pernambuco. O especial Uma por uma contou todas. Em 2018, o projeto mapeou onde as mataram, as motivações do crime, acompanharam a investigação e cobraram a punição dos culpados. Um banco de dados virtual, com os perfis de vítimas e agressores, além dos trágicos relatos que extrapolam a fotografia da cena do crime. Confira o especial Uma por Uma aqui.

REPRODUÇÃO DE VÍDEO
"O caso do DJ Ivis não é isolado. Só que aqui, chegando ao seu limite de exaustão, a vítima resolveu tornar público o seu calvário" - FOTO:REPRODUÇÃO DE VÍDEO
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NE10 - FOTO:NE10

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