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O que a Final do BBB 21 tem a ver com a política e as relações de poder no Brasil

Big Brother Brasil 21 ultrapassa o objetivo principal de entretenimento para provocar discussões até mesmo no campo político

Luisa Farias Renata Monteiro
Luisa Farias
Renata Monteiro
Publicado em 03/05/2021 às 21:43
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FINAL Após alianças, votações e mobilização de torcidas, Fiuk, Camilla e Juliette disputam o prêmio hoje - FOTO: REPRODUÇÃO
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O Big Brother Brasil é um programa televisivo que tem sido pauta entre os mais variados grupos sociais e cuja repercussão ultrapassa o objetivo principal de entretenimento para provocar discussões até mesmo no campo político. Fora da casa, nas redes sociais, detentores de mandatos falam do BBB 21 e fazem comparações entre o programa e o momento político em que vivemos. Lá dentro, a política também se faz presente, tanto nas relações de jogo entre os participantes como nos debates sobre temas urgentes como a questão racial e de gênero.

A identificação regional também contou no posicionamento dos políticos pernambucanos e, por isso, alguns declararam seu apoio ao economista Gilberto Nogueira no último paredão da temporada, antes dele ter sido eliminado no domingo (2) com 50,87% dos votos.

Carol Vergolino, integrante do mandado coletivo das Juntas (Psol) na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), foi uma delas. No Twitter, ela o chamou para se filiar ao Psol. “Entre ser feliz e ter razão, ser feliz sempre, mudando e aprendendo e se apaixonando carente. Esse Gil é demais. Vem te filiar no PSOL pra gente trabalhar pra esse Brasil lascado”, disse.

Ao JC, Carol diz que Gilberto é a cara do seu partido, por ter se posicionado a favor da educação e da ciência. Gil é doutorando em economia e passou em três PHDs no exterior. “Ele tem a cara do Psol que estará sempre de braços abertos para pessoas progressistas e querem o bem comum e lutam pelas liberdades”, afirma Carol.

Na visão do deputado federal Túlio Gadêlha (PDT), que também costuma comentar movimentações do jogo em suas redes sociais, o Big Brother é uma espécie de “termômetro social” que poderia ser mais usado pelos políticos brasileiros para que pudessem se comunicar melhor com a sociedade. Se isso já fosse um costume, diz o parlamentar, nomes como o do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o do ex-presidente Lula (PT) não estariam em constante pé de guerra.

“Existe algo muito caro na política e nesse jogo também, que é a coerência. Quando a Juliette pediu para a sua torcida votar para o Gilberto sair, eu comparei o gesto dela ao posicionamento de Lula e Ciro, que vivem se atacando, mesmo tendo programas tão parecidos. Eles brigam por uma vaga para enfrentar Bolsonaro no segundo turno, mas quanto mais se afastam, menor é a chance do eleitor de Lula votar em Ciro no segundo turno, e do eleitor Ciro votar em Lula, abrindo espaço para a reeleição do presidente”, observa Gadêlha.

Apesar de valorizar alianças no BBB e na política, o pedetista ressalta que em ambas as arenas posicionamentos firmes e claros costumam ser bastante admirados. “Assim como no Big Brother, no Parlamento nós nos deparamos constantemente com pautas polêmicas, como a questão do porte e posse de arma, ou do aborto e da política sobre drogas. E precisamos ter um lado em cada situação. Tanto é assim que no BBB aqueles que são considerados os jogadores mais fortes são aqueles que se posicionam. E isso serve até de lição para o atual centrão na política, que sempre se movimenta de acordo com as suas conveniências e tende a diminuir por conta da polarização”, afirma.

Para a cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (Facho) Priscila Lapa, a razão pela qual a repercussão do BBB entrou no radar dos políticos é o fato da agenda política ter deixado de ser composta apenas por temas tradicionais, como economia.

“O BBB acaba não sendo completamente ignorado pela classe política, principalmente em um momento que ela começa a tangenciar aspectos como representação regional, defesa de causas como essa questão LGBT, comportamentos minoritários, quando ela envolve conflitos raciais, envolve essas temáticas que são de política. De alguma forma, a política olha para esses movimentos, se apropria deles e começa a trabalhar isso como uma forma de manter ativa a sua audiência, criar engajamento”, explica Priscila.

Política dentro do BBB

A dinâmica do BBB tem como uma de suas principais ferramentas o voto, o que exige um poder de articulação dos seus participantes para construir alianças e traçar estratégias para fugir do paredão e eliminar os seus adversários no jogo. Segundo Priscila Lapa, a definição do que é ser político está diretamente relacionada ao tipo de comportamento necessário dentro do jogo do BBB.

“A gente utiliza esse adjetivo quando se refere a alguém que age calculadamente, que visualiza os fins que quer atingir e utiliza meios meios para atingi-los”, diz. “Toda ação política busca um determinado sentido. Além disso, político tem a ver com conflitos. Você tem recursos a serem distribuídos, resultados que podem ser alcançados e você tem conflitos que se desdobram a partir disso. E é muito claramente que você busca aliados que possam ajudar nos seus objetivos e você refuta atores que você acha que podem representar obstáculos na sua atuação. Nesse sentido, é uma semelhança muito grande, muito perfeita entre duas esferas, uma esfera de uma realidade reproduzida, que é o Big Brother, que é uma realidade política”, pontua a docente.

Mas para além do jogo, as relações dentro do BBB também não estão desprendidas da realidade política. Ao longo desta edição, ainda que a produção do reality evite o tema, alguns participantes manifestaram suas preferências políticas.

Arthur Piccoli, já eliminado, e Juliette Freire, que está na final do BBB, já elogiaram a postura da ex-presidente Dilma Roussef (PT) durante o episódio do impeachment contra ela. Juliette, inclusive, tem fotos da época da eleição de 2018 em que fazia campanha para “virar voto”, tática adotada por eleitores do então candidato Fernando Haddad (PT). Na última festa do BBB 21 no último sábado, Gilberto declarou que era de esquerda. Já Sarah Andrade, maior aliada de Gil, já afirmou que gostava do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quando ainda participava do programa. 

Apesar de não ter adotado nenhum posicionamento político-partidário dentro do jogo, o comportamento de Camilla de Lucas foi associado às bandeiras do MDB pela própria sigla, pelo fato dela se colocar como mediadora em situações de conflito, o que já lhe rendeu a pecha de ser "em cima do muro". 

Ela entra nas discussões para apaziguar a briga. Isso é estilo #MDB. E sempre se posiciona quando é questionada. Isso é #PontoDeEquilíbrio. Portanto, nossa torcida é para @camilladelucas. MDB, o partido que mais elegeu candidatos negros e pardos em 2020. Ela entra nas discussões para apaziguar a briga. Isso é estilo #MDB. E sempre se posiciona quando é questionada. Isso é #PontoDeEquilíbrio. Portanto, nossa torcida é para @camilladelucas. MDB, o partido que mais elegeu candidatos negros e pardos em 2020", diz um tweet da página do MDB. 

 

Torcidas

O uso das redes sociais tem sido decisivo no resultado dos paredões do BBB há alguns anos, mas em 2021 esse fenômeno se intensificou ainda mais, quase como um jogo paralelo jogado do lado de fora. Os participantes se apropriam de signos (cada um tem um emoji que os representa), constroem fortes torcidas, mobilizam mutirões e estabelecem uma rivalidade que por vezes não condiz com o jogo interno praticado por eles.

Exemplo disso foi o que ocorreu no penúltimo paredão, quando os administradores das páginas de Pocah nas redes sociais mudaram o posicionamento anterior - pela saída de Camila de Lucas - e orientaram a torcida a votar em Arthur, seu aliado no jogo. Isso acabou resultando na saída dele e, consequentemente, na sua permanência. Mais recentemente, no último paredão da temporada, a torcida de Juliette pediu pela saída de Gilberto, o que gerou embate com os que não concordavam com o posicionamento e queriam que Camila fosse eliminada. Com a eliminação de Gilberto, a final foi formada entre Camila, Juliette e Fiuk

“Eu queria que a gente conseguisse mobilizar as duas torcidas, que lá dentro se mostram mais progressistas, pelo Brasil, não só pelo Big Brother. Eu acho essa coisa da polarização sempre muito ruim. Até onde vai uma torcida e até onde vai um discurso de ódio, racista, a homofobia? É um caso a se pensar, é uma tese de doutorado”, afirmou Carol Vergolino.


Para a delegada Patrícia Domingos (Pode), que disputou a Prefeitura do Recife em 2020, o que se viu na votação que culminou com a saída de Gilberto do BBB foi “uma guerra virtual de torcidas”, em muito impulsionada pelo fato de, este ano, as pessoas estarem confinadas por conta da pandemia. “Gil não foi eliminado pelas posturas que ele teve ao longo do programa, ele foi eliminado por torcidas que se uniram para deixar Camilla e Juliette no programa. O mundo virtual está cada vez mais presente nas nossas vidas e tem ganhado um protagonismo muito grande, inclusive em razão da pandemia. Ele foi cancelado por um erro que cometeu com a Juliette, mas e as outras atitudes dele? E o que ele representa?”, questiona a policial.

O cientista político Alex Ribeiro, por sua vez, considera perigoso tratar sobre uma relação entre BBB e política, considerando o método e o discurso utilizados nos dois campos. “No BBB o sucesso não vem junto com uma narrativa intolerante, como ocorreu nas eleições de 2018. E o modelo executado nas redes sociais, por mais que tenham apoiadores guiados por paixões, é baseado numa ideia de entretenimento. Isso é importante se distinguir. O BBB é um evento temporário, finito. Bem diferente de discutir projetos para o futuro do país”, declara.

Em contrapartida, Alex vislumbra semelhanças entre os dois quando se trata de construção de polêmicas. “Nesse caso é preciso analisar que tipo de posicionamento pode atrair o espectador (no caso do BBB) e do eleitor”, afirma.

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