Manifestação

Por que pobre não bate panela nos panelaços? Foi assim com Dilma e é assim com Bolsonaro. Entenda

Manifestações desse tipo costumam ser registradas em bairros de classe média, dificilmente na periferia

JC
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Publicado em 04/06/2021 às 7:00
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NA TV Último pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro provocou ruídos em inúmeras cidades do País - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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O pronunciamento que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez na noite da última quarta-feira (2) para falar sobre as ações do governo durante a pandemia de covid-19, como de costume, foi acompanhado por panelaços em várias partes do País. Chama a atenção, porém, o fato de que desde a popularização deste tipo de protesto no Brasil, na época das manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), eles raramente são registrados fora de localidades de classe média.

“De Dilma para cá, a gente tem visto muito esse tipo de protesto, o panelaço, que em outros países, como a Argentina, é usado com mais frequência. No Brasil ele geralmente ocorre nos setores de classe média, classe média alta, muito raramente chega à periferia ou em favelas. No caso da classe média, o uso dessa ferramenta tem a ver com uma insatisfação com a política do governo durante a pandemia, que, além da questão sanitária, tem aumentado o custo de vida e empurrado para cima os preços da gasolina, da energia elétrica, do gás. Isso tudo gera insatisfação”, observou o cientista político Ernani Carvalho, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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No Twitter, na quarta, enquanto muita gente compartilhava vídeos mostrando seus vizinhos de prédio batendo panelas em janelas e varandas, havia também quem afirmasse que, por morar na periferia, estava bem distante dessa realidade. Em um post da chef de cozinha Paola Carosella, por exemplo, em que ela afirmava que “as panelas de aço inox fundo triplo são ótimas para cozinhar e melhores ainda para batê-las com profunda raiva e indignação”, uma das suas seguidoras afirmou: “Aqui onde moro, no morro, ninguém bate panela, pois não tem ninguém pra ouvir a parcela mais pobre da população. Nunca ouvi nenhum panelaço, nem a favor e nem contra. Cada um tenta apenas sobreviver”.

Uma outra usuária da rede disse que no dia em que houver panelaço onde ela mora é porque “o Brasil virou um país de classe média”. E completou declarando que “pobre não pensa em manifestação e panelaço, está preocupado se vai ter o que comer até o fim dessa pandemia”.

A chef de cozinha pernambucana Carmem Virgínia também comentou o caso na sua conta pessoal do Twitter. Segundo ela, em um País onde tantas pessoas passam fome, esse tipo de protesto, batendo uma panela, seria um desrespeito com quem não tem o que colocar no prato.

“Pode ter certeza, não tem um pobre que bata panela em sua comunidade! A maioria das pessoas que eu conheço está pensando no que botar na panela pra cozinhar, pra dar aos seus filhos amanhã! Protestar temos sim que fazer, mas bater panelas é muito desrespeitoso com quem tem fome!”, detalhou Carmem Virgínia, acrescentando ser contra a manifestação também porque, no Brasil, ela foi popularizada pelos “mesmos que esculhambavam uma mulher eleita presidenta pelo povo”.

Cientista político e professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Antônio Lucena diz que vários fatores podem explicar essa realidade, e um deles é o fato de que, apesar de ter perdido popularidade nos últimos meses, a figura do presidente Jair Bolsonaro ainda tem penetração entre os brasileiros mais pobres. “As últimas pesquisas divulgadas mostram que Bolsonaro perdeu apoio em diversas classes sociais, mas ele mantém certa popularidade entre as classes D e E, por causa do auxílio emergencial. Como essas pessoas são mais dependentes do Estado, elas costumam ter um voto muito mais fisiológico, enquanto as pessoas de classes mais altas, que não necessitam desses recursos estatais, conseguem se descolar dessas políticas públicas”, observou.

De acordo com pesquisa Datafolha divulgada no início do mês de maio, Bolsonaro teria atualmente a aprovação de 24% dos brasileiros, a pior marca do seu mandato até o momento. O levantamento mostrou que, pelo critério de renda, a maior rejeição ao presidente está na faixa acima dos dez salários mínimos mensais, onde 63% consideram o governo ruim ou péssimo. Entre os mais pobres (que recebem até dois salários mínimos), esse número recua para 45%.

Segundo dados de 2020 do IBGE, metade da população brasileira, o que equivale a pouco mais de 100 milhões de pessoas, sobrevive com R$ 438 por mês. Os resultados referem-se à renda média real domiciliar per capita de 2019, levantada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Rendimento de todas as fontes daquele ano. Os 10% mais pobres do País, por sua vez, recebem R$ 112 mensais.

O historiador e cientista político Alex Ribeiro ressalta, contudo, que o fato das periferias do Brasil em geral ficarem de fora dos panelaços não significa que ela não seja engajada politicamente, apenas o modo que ela encontra para manifestar sua insatisfação política é que seria diferente. "O panelaço é um ato característico da classe média, mas não quer dizer que a periferia não tenha consciência política. A insatisfação desse grupo é no cotidiano, nas dificuldades de sobrevivência, e na maioria das vezes é remetido aos poderes estaduais e municipais. Os atos em favor da moradia, contra violência, e na questão de saúde, por exemplo, ocorrem com frequência. A questão aqui é que são atos pontuais, em diferentes espaços", detalhou.

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De Dilma para cá, a gente tem visto muito esse tipo de protesto, que em outros países, como a Argentina, é usado com mais frequência. No Brasil, ele geralmente ocorre nos setores de classe média, muito raramente chega à periferia ou em favelas", diz Ernani Carvalho - FOTO:ACERVO PESSOAL
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As pesquisas mostram que Bolsonaro perdeu apoio, mas mantém certa popularidade entre as classes D e E, por causa do auxílio emergencial. Como elas são mais dependentes do Estado, costumam ter um voto mais fisiológico", lembra Antonio Lucena - FOTO:REPRODUÇÃO/FACEBOOK
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Não quer dizer que a periferia não tenha consciência política. A insatisfação desse grupo é no cotidiano e na maioria das vezes é remetido aos poderes estaduais e municipais. Os atos em favor da moradia, contra violência, e na questão de saúde, por exemplo, ocorrem com frequência", afirma Alex Ribeiro - FOTO:DIVULGAÇÃO

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