PANE NO SISTEMA

WhatsApp caiu! Há exatamente uma semana você dizia isso e sua vida virava de cabeça para baixo. Foi "o dia em que a terra (quase) parou"

A pane, que durou cerca de seis horas, atingiu diversos países e evidenciou a dependência do ser humano das redes sociais

Vanessa Moura
Vanessa Moura
Publicado em 11/10/2021 às 12:22
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Há uma semana as redes sociais de Mark Zuckerberg caíam - FOTO: Divulgação/Unsplash
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"Foi um pânico. Eu não conseguia atender as demandas das pessoas pelas redes sociais, não conseguia fazer as postagens programadas, não conseguia manter contato com as outras pessoas do trabalho. Um caos absurdo", lembra a gestora de redes sociais Larissa Rodrigues. "Caos", sensação exata sentida por milhares de pessoas - do mundo inteiro - no último dia 4 de outubro. 

Há uma semana, uma segunda-feira comum tornou-se palco de um evento histórico - e catastrófico. Durante a manhã tudo caminhou sob perfeita ordem. Acordar, checar o WhatsApp, depois o Instagram, e talvez o Facebook. Depois disso, as tarefas menos importantes: escovar os dentes, tomar banho e café. Tudo acontecia conforme tinha que acontecer. Até que, por volta das 12h do dia quatro de outubro, as primeiras queixas começaram a aparecer. No Twitter, todos reclamavam que não conseguiam enviar e receber mensagens no WhatsApp, ou atualizar o feed no Instagram. O dia em que a Terra (quase) parou começava. E se na célebre canção de Raul Seixas as pessoas sumiram das ruas, por aqui elas sumiram - forçadas - do 'Zap'. 

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O apagão do mensageiro WhatsApp e do Instagram e Facebook provocam um sentimento de medo de dependência das plataformas digirais - DIVULGAÇÃO

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Acontece que as redes sociais do império de Mark Zuckerberg resolveram descansar na última segunda-feira (5) e custaram-lhe a bagatela de R$ 5,9 milhões. A pane, que durou cerca de seis horas, atingiu diversos países e evidenciou aquilo que todos nós já sabíamos: a dependência do ser humano das redes sociais. 

"Às vezes eu esquecia que as redes estavam fora do ar e muitas vezes eu ia olhar o Instagram, aí quando entrava eu lembrava que não estava funcionando e ficava um pouco frustrada. É aquela coisa, né, já tá enraizado na gente que os minutinhos livres que tivermos são destinados ao Instagram", revelou Aline Alana Oliveira, que é estudante de Engenharia de Produção. 

De acordo com o psicólogo Miguel Gomes, as redes sociais acabam ocupando uma posição de muleta na vida das pessoas. "A dependência das redes sociais vem porque o mecanismo que a rede social cria é um mecanismo de satisfação. Quando você publica alguma coisa no Facebook, no Instagram, você fica numa expectativa de que outras pessoas vão ver e te dar uma gratificação. Além de que você sente essa necessidade de acompanhar também a vida idealizada do outro. As redes sociais são uma espécie de muleta que as pessoas tem para se entreter e se relacionar com o mundo e quando você perde essa muleta, acaba criando uma ansiedade generalizada", explicou. 

Por outro lado, a queda das plataformas ligadas ao Facebook representou um enorme obstáculo não somente para quem as utiliza como simples forma de entretenimento. De acordo com pesquisa do Sebrae, 84% dos empresários preferem vender pelo WhatsApp, 54% pelo Instagram e 51% pelo Facebook. Desta forma, pequenos e médios empreendedores, que usam as plataformas digitais de Zuckerberg para trazer o pão de cada dia à mesa, foram duramente afetados pelas seis horas de apagão total dos aplicativos. Para além da saudade de se comunicar pelas redes, a pane significou prejuízos financeiros reais. 

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Este foi o caso da maquiadora Letícia Beserra, que realiza as marcações de atendimento de suas clientes por meio do Instagram e WhatsApp. Numa segunda-feira completamente atípica, a empreendedora perdeu a oportunidade de um ótimo dia de faturamento. “Hoje em dia eu só faço agendamento pelo WhatsApp, então com a queda das plataformas o meu trabalho foi completamente afetado. Eu não consegui ajudar nenhuma cliente. Foi um péssimo dia no sentido profissional, eu não tive oportunidade de agendar ninguém e com isso acabei perdendo dinheiro", disse. 

Como forma de minizar os impactos da pane, muitos empresários resolveram migrar para o Telegram, que segundo pesquisa da Sensor Tower, teve 6,3 milhões de downloads na ocasião, com aumento de 530% em relação ao dia anterior.

“Neste caso específico, quando o WhatsApp caiu, vimos que alguns empreendedores migraram rapidamente para o Telegram, mas o volume de pessoas que utilizam essa plataforma ainda é muito incipiente, o que acaba não rendendo o resultado esperado. Mas de certa forma, essa foi uma alternativa que os empresários tiveram”, opinou o gerente do Laboratório de Estratégias Digitais de Negócios do Sebrae Pernambuco, Thiago Suruagy. 

No pódio dos afetados financeiramente pelo "apagão", os influenciadores digitais chegaram em primeiríssimo lugar. Com uma profissão 100% dependente da Internet e das redes sociais, os "influencers" sentiram o gosto amargo do isolamento digital e tiveram que buscar alternativas palpáveis para não se entregarem ao desespero. 

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Para Geovanna Souza, que é influenciadora digital e consultora de imagem, a saída foi utilizar o tempo "livre" para deixar todos os trabalhos agendados prontos. "Na segunda-feira foi tudo muito incerto. Eu tinha uma loja de moda praia agendada pra fazer o provador e a proprietária cogitou cancelar o trabalho por conta da queda do Instagram. Pra não perder os trabalhos, e consequentemente o dinheiro que eu ganharia, eu tive que colocar a cabeça pra pensar em uma alternativa, então eu fiz todos os trabalhos, gravei, editei e deixei pronto pra publicar quando, enfim, o Instagram voltasse", disse. 

Mesmo assim, a antecipação não lhe tornou imune à imensa dor de cabeça. "Apesar de ter deixado muita coisa pronta. A pane no Instagram prejudicou bastante em relação ao engajamento, porque quando ele voltou, não voltou 100%. Voltou cheio de problemas, na verdade. Então o engajamento não estava tão bom, precisei esperar um tempo pra poder cumprir com minhas obrigações e ter um bom resultado". 

Entre trancos e barrancos, Geovanna acredita ter se saído bem durante o naufrágio digital. Para ela, a alegria da plataforma ter se restabelecido é maior do que a angústia causada pela pane. "Se o Instagram não voltasse mais eu ficaria muito triste, de verdade. Eu amo o que eu faço nas redes sociais, amo produzir conteúdo. Claro que eu teria outra alternativa como trabalho, pois sou formada em Design de Moda e pós-graduada em Consultoria de Imagem, mas isso me ia deixar realmente bastante frustrada. Eu gosto de trabalhar com o Marketing Digital", completou. 

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A situação também preocupou a estudante de gastronomia Nathalya Tavares. Criadora do perfil de dicas gastronômicas e turísticas Recife Para Dois - que acumula 13,4 mil de seguidores no Instagram e 64,4 mil no TikTok - a influenciadora sentiu o peso da dependência das redes sociais no quesito profissional.

 
 
 
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"Nosso trabalho é inteiramente por redes como Instagram, contatos com estabelecimentos pelo WhatsApp. Apesar de usarmos também o TikTok, nosso foco não é ele. Então ficar sem o Instagram seria não ter exatamente um trabalho. É preocupante saber que dependemos tanto de algo que pode cair e não voltar mais. Se esse apagão fosse permanecente teríamos que encontrar outro app/rede social pra levar nosso foco e começar tudo de novo", explicou. 

Sofrimento e angústia para uns, tranquilidade e liberdade para outros. De acordo com a Nova Edição do Global Digital Report, que mapeia hábitos dos internautas, o tempo de permanência das pessoas na internet já beira 7 horas diárias. Para a jornalista Maria Clara Carneiro, de 24 anos, os momentos longe das redes sociais foram um bálsamo. 

"A queda das redes sociais foi um verdadeiro alívio para mim. Assim como a maioria das pessoas, principalmente da população jovem, durante a semana passo muito tempo conectada. Felizmente, a data coincidiu com um encontro que já tinha marcado com minhas amigas. O fato de não termos acesso as redes sociais deixou o momento ainda melhor, porque ficamos mais focadas na conversa, livres de distração", contou. 

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Para o psicólogo Miguel Gomes, a sensação de "liberdade" pode estar atrelada com a certeza de que, em uma hora ou outra, as plataformas voltariam a funcionar. "Foi quase como se um detox forçado, né? Pode ser um alívio pra muitos porque eles tem a certeza de que depois tudo volta ao normal. Caiu, mas vai voltar, né? Então ficar um tempo sem é bom. Mas eu não sei o que as pessoas diriam se essa queda foi mais duradoura, ou talvez permanente". 

Mas o que, de fato, causou esta pane? 

Em comunicado, o Facebook informou que a interrupção das suas redes e serviços de mensagens foi provocada por uma "mudança de configuração defeituosa" em seus servidores, o que impediu os usuários de acederem às plataformas.

"Pessoas e empresas ao redor do mundo dependem de nós para se manterem conectados", observou a empresa, que até então se mantinha praticamente silenciosa sobre o ocorrido. “Apresentamos nossas desculpas aos que foram afetados”, acrescentou o Facebook, referindo-se possivelmente a bilhões de pessoas no mundo, de acordo com vários especialistas em segurança cibernética.

A possibilidade de um ataque hacker foi descartada, por ora, por especialistas. "É difícil criminosos terem sucesso invadindo uma empresa como o Facebook, que está na vanguarda da tecnologia e não brinca com segurança digital", explicou Vivaldo José Breternitz, professor da faculdade de computação e informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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O apagão do mensageiro WhatsApp e do Instagram e Facebook provocam um sentimento de medo de dependência das plataformas digirais - FOTO:DIVULGAÇÃO

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