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Crítica: Esplendor, de Naomie Kawase

14 / dez
Publicado por Ernesto Barros às 4:01

Ayame Misaki e Masatoshi Nagase numa cena de Esplendor. Foto: Masaya Nakamori/Divulgação

No extremamente masculino cinema japonês, ter uma mulher realizando filmes e se destacando entre os cineastas mais importantes do país é algo que não se pode deixar passar em branco. Afinal, essa é a posição ocupada por Naomi Kawase, 48 anos, que, a partir dos anos 1990, construiu um corpo de trabalho singular, de grande riqueza visual e de uma sensibilidade ímpar.

O mais recente filme dela é Esplendor, vencedor do prêmio Ecumênico do Festival de Cannes deste ano, e que passa hoje, às 20h, na 20ª Mostra Retrospectiva/Expectativa do Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte. O filme estreia no ano que vem, mas ainda está sem dada de lançamento.

Nos seus últimos trabalhos, Naomie exercita uma delicadeza que certos críticos, um tanto apressados ou cínicos, teimam em associar a uma ideia de cinema new age. Nas artes japonesas, decerto que há uma certa divisão entre o sândalo (a árvore que perfuma o machado que o corta) e o sabre (a violência que adoramos tanto no cinema).

Certamente por pensar numa arte que expresse uma preocupação mais humana com o outro, Naomie faz filmes para o espectador pensar e sentir. Esplendor, além de outras coisas, é bem isso, olhar para o outro.

Hikari, o som do título do filme em japonês, significa luz. E luz é cinema. Assim, Esplendor é um filme sobre a importância do cinema na vida das pessoas. Misako (Ayame Misaki), a personagem principal, é uma audiodescritora de películas para deficientes visuais.

Para fazer seu trabalho melhor, Misako tem uma conversa com o diretor do filme em que está trabalhando. O veterano ator Tatsuya Fuji (de O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima), faz o diretor Kitabayashi e também Juzo, o personagem do longa dentro do longa. Ele quer ter certeza se o final do seu trabalho se coaduna com a audiodescrição de Misako.

Um dos temas do trabalho de Kitabayashi é a morte. Seu personagem é um escultor idoso, que diz uma frase que ressoa durante todo o percurso do filme: “Nada é mais bonito do que algo que desaparece diante dos nossos olhos”, exemplificado numa escultura de areia que se desmancha pela ação do vento.

Durante o seu trabalho, Misako tem alguns desentendimentos, sendo o mais forte com Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo que está perdendo a visão. A partir desse encontro, Naomie aponta o filme para a direção da relação amorosa, uma pulsão que alimenta a vida dos seus personagens.


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