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Crítica: O Rei do Show, de Michael Gracey

21 / dez
Publicado por Ernesto Barros às 16:14

Hugh Jackman (no centro) numa cena de O Rei do Show. Foto: 20th Century Fox.

 

No cinema americano, o passado é sempre tratado como mito – nunca a verdade nua e crua. Da corrida do ouro à queda da bolsa, imprimiu-se a lenda. Um novo exemplo de como a história é burlada para servir a uma causa maior pode ser visto no musical O Rei do  Show , o primeiro longa-metragem do cineasta australiano Michael Gracey, que estreia hoje em circuito nacional. O filme foi indicado ao Globo de Ouro e também deve ser ao Oscar.

O Rei do Show conta a história do empresário e dono de circo P. T. Barnum, uma das mentes mais insanas do folclore americano. Consumado racista, explorou tipos exóticos e infligiu maus tratos aos animais que faziam parte dos espetáculos. O filme, ao contrário, faz dele uma figura que colocou, sob o mesmo pedestal, seres humanos, perfeitos ou imperfeitos, dignos de atenção especial.

Sob a pele e o savoir faire do ator australiano Hugh Jackman, um mister simpatia em pessoa, P. T. Barnum é um personagem que parece saído de Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Ainda nos primeiros minutos, os roteiristas Jenny Bicks e Bill Condon não têm o mínimo pudor em mostrar Phineas Taylor Barnum como uma versão americana de Pip, com a diferença de ele ter direito a uma Estella – no caso, a rica Charity (Michelle William) – realmente apaixonada.

Esse prólogo, já apresentado sob o ponto de vista encantatório da música, é lírico, engraçado, triste e esperançoso – com todos os sentimentos de quem não tem nada a perder, de quem tem propósitos maiores que a vida. As primeiras letras das canções de Benj Pasek e Justin Paul, a dupla de La La Land – Cantando Estações, já fisgam ouvidos e olhos.

Sendo um musical original, escrito para o cinema, O Rei do Show é apresentado como um espetáculo espantoso, em que o feio, o diferente e o repulsivo são filtrados pelo prisma da beleza. Cada plano, movimento de câmera, motivo musical ou rítmico são expressados com o requinte de quem tem o cinema como a mais bela das artes – o mesmo olhar que o também australiano Baz Luhrmann expressou em Moulin Rouge: Amor em Vermelho.

Os críticos amam odiar qualquer filme que se embriague de som, música, luz, movimento, fogo, tristeza, dor e alegria. Michael Gracey, longe de sentir medo de quem ver o cinema como imitação da realidade, se comporta como um mágico: com uma varinha mágica, faz com que seus personagens lute contra tudo e contra todos para o show continuar.

Embora se passe na metade do século 19, notadamente dentro de uma velho prédio de Nova York, com seu séquito de monstros circenses (uma mulher barbuda, um homem cão, outro gigante, outro menor que um anão, irmãos siameses, acrobatas negros, etc.), o filme rescende às ideias inclusivas do aqui e do agora, mesmo que o romance entre um rapaz branco (Brad Efron) e um jovem negra (Zendaya) tome grande parte do filme.

Se Michael Gracey nos põe a olhar para as diferenças e a falta de aceitação, é verdade também que ele nos enfeitiça: quando bota a cantora Jenny Lind (Rebecca Fergusson, fantasmagórica, dublando a voz de Loren Allred) para cantar, o mundo todo para para ouvi-la. Essa suspensão, experimentada pelo espectador, circula por quase todo o filme, inclusive em cenas grandiosas, quando todo o elenco é posto para cantar, quando dizem que “não vão mais cair, só ascender.”

Além de todo o elenco cantar bem – Hugh Jackman, Zac Efron e Zendaya, principalmente –, O Rei do Show tem entre seus técnicos um dos mais refinados diretores de fotografia do momento, o irlandês Seamus McGarvey. Em plena corrida pelos prêmios, o filme concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme (Comédia ou Musical), Melhor Ator em Comédia e Musical (Hugh Jackman) e Melhor Canção (This is Me).


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