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Crítica: Uma Casa à Beira-Mar, de Robert Guédiguian

12 / jul
Publicado por Ernesto Barros às 19:17

Gérard Meylan, Ana Ascaride, e Jean-Pierre Darroussin. Foto: Imovision/Divulgação

Não se pode dizer que o cinema do francês Robert Guédiguian seja minimalista, mas, em seu último longa-metragem, ele atinge aquela leveza em que o menos é realmente mais. Sem alarido e com a melancolia que só os diretores na maturidade conseguem alcançar, ele eleva ainda mais seu humanismo em Uma Casa à Beira-Mar, que estreia nesta quinta-feira (12/7) no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte.

Tanto despojamento e olhar compreensivo não são fáceis de serem atingidos. Requerem anos de aprendizado e de vivência pessoal e artística. Guédiguian sempre esteve em alerta: da sua aldeia – Marselha e seus arredores –, vendo o que o França estava sentindo. No seu 20º filme, vemos em cada imagem, no ritmo das cenas e nos personagens, que sua personalidade já se incrustou no fazer cinematográfico e na maneira como sente o mundo.

Filmando na mesma cidade de sempre e com os mesmos atores que o acompanham há quase 40 anos – o trio formado por Ana Ascaride, Gérard Meylan e Jean-Pierre Darroussin –, o cineasta olha para o passado, não por pura nostalgia ou para tirar conclusões apressadas sobre o presente, porém com a certeza de algo bonito e de valor ficou para trás.

Três irmãos se reencontram na casa à beira-mar que o pai construiu e onde passaram os melhores anos de suas vidas. A atriz Angèle (Ana) passou 20 anos longe depois do acidente com a única filha. O combativo Joseph (Darroussian), agora casado com uma jovem mulher que já não o deseja, sente que os anos passaram. E Armand (Meylan), o mais velho, que permaneceu ao lado do pai, cuidando do pequeno restaurante a preços módicos da família.

Esta crônica familiar, essencialmente tchecoviana, ganha contornos políticos quando Armand encontra três crianças estrangeiras, que chegaram à costa da mediterrânea por meio de barcos. O olhar que Guédiguian lança à realidade europeia, a partir dos cuidados que os irmãos têm com os pequenos refugiados – caçados como inimigos perigosos pelo exército – comovem sem nenhuma nota em falso.

Uma Casa à Beira-Mar é belo não porque Guédiguian tenta nos seduzir com uma fotografia bonita, uma música plangente ou frases memoráveis. Ele sabe que não precisava de nada disso para atingir o coração do espectador, simplesmente deixou que seus personagens fossem gente.


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