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Transporte público perde 3,6 milhões de passageiros por dia no Brasil. Até quando?

02 / ago
Publicado por Roberta Soares às 9:00

Sistema de ônibus do Grande Recife perdeu 160 mil passageiros por dia em 2016 e 110 mil em 2017. Foto: Diego Nigro/JC Imagem

 

A situação do transporte público no Brasil não poderia ser pior. A cada dia, mais e mais pessoas estão deixando de andar de ônibus. Levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transporte de Passageiros (NTU) revelou que o setor está perdendo 3,6 milhões de passageiros por dia no País. A queda em 2017 chegou a 9,5%, a terceira maior redução de demanda dos últimos 25 anos. Na Região Metropolitana do Recife, o cenário preocupante se repete: 160 mil passageiros a menos por dia de 2016 para 2017 e 110 mil a menos comparando 2017 com 2018.

 

 

A queda, inclusive, vem sendo verificada consecutivamente nos últimos quatro anos. Os dados foram apresentados durante o Seminário Nacional de Transporte Público, que acontece em São Paulo, e colocados pelo setor como provocação para o poder público e os pré-candidatos à Presidência da República, que participaram de um dos paineis. O objetivo era fazer com que o transporte coletivo urbano fosse inclçuído como prioridade dos programas de governo.

O transporte público por ônibus perdeu 35,6% dos passageiros pagantes em pouco mais de 20 anos. Isso ajuda a explicar, por exemplo, o aumento das tarifas, já que agora há menos usuários dividindo os custos da operação. Outro agravante da situação é a sobrecarga das gratuidades concedidas a estudantes, idosos e outros passageiros definidos em lei, que em um ano passou de 17% para 20,9%. Isso significa que um em cada cinco passageiros viaja de graça atualmente. E quem paga esse custo é única e exclusivamente a tarifa. Ou seja, o passageiro que paga a passagem integral e que geralmente é o mais necessitado”,

Otávio Vieira de Melo, da NTU.

 

No sistema de transporte público do Grande Recife a queda no número de passageiros foi de 9% de 2016 para 2017 e, comparando com o ano passado com esse ano, já chega a 6%. Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Pernambuco (Urbana-PE), o sistema por ônibus da RMR está transportando 1,3 milhão de passageiros por dia, bem menos do que os 1,8 milhão de dois anos atrás.

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“O transporte público por ônibus perdeu 35,6% dos passageiros pagantes em pouco mais de 20 anos. Isso ajuda a explicar, por exemplo, o aumento das tarifas, já que agora há menos usuários dividindo os custos da operação. Outro agravante da situação é a sobrecarga das gratuidades concedidas a estudantes, idosos e outros passageiros definidos em lei, que em um ano passou de 17% para 20,9%. Isso significa que um em cada cinco passageiros viaja de graça atualmente. E quem paga esse custo é única e exclusivamente a tarifa. Ou seja, o passageiro que paga a passagem integral e que geralmente é o mais necessitado”, alerta o presidente da NTU, Otávio Vieira de Melo.

A diminuição da demanda se agravou, principalmente, nos últimos cinco anos (a partir de 2014), chegando a uma perda de média acumulada de 25,9% dos usuários pagantes. No sistema do Grande Recife, também segundo a Urbana-PE, a perda acumulada de 2015 até agora já alcança 22%. O estudo da NTU foi feito com base em nove capitais analisadas na série histórica: Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O levantamento compara o desempenho do setor levando em consideração os meses de abril e outubro de cada ano.

O congelamento dos projetos de mobilidade urbana, particularmente os de priorização do transporte público por ônibus (Sistemas BRT, corredores e faixas exclusivas), piora a situação. Segundo a NTU, existem atualmente um total de 685 projetos de mobilidade em andamento no País. Desse total, 283 estão em operação, 121 ainda não finalizaram as obras e 281 encontram-se no nível de projeto. “Sem prioridade viária o ônibus não é eficiente nem confortável, afastando ainda mais os passageiros. A infraestrutura é fundamental. Vejam os ganhos de velocidade que são obtidos com os corredores e as faixas exclusivas”, acrescenta Otávio Vieira de Melo.

 

 

PROPOSTAS PARA OS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA

Na tentativa de fazer com que o transporte público seja transformado em política de governo, com orçamento e fundos de financiamento próprios, o setor apresentou um documento, intitulado “Construindo hoje o novo amanhã”, com propostas para a mobilidade urbana sustentável no Brasil. O documento foi entregue aos pré-candidatos à Presidência da República, que tiveram alguns de seus representantes discutindo o futuro do setor durante o Seminário Nacional de Transportes.

São basicamente seis propostas de programas para alavancar o transporte público por ônibus, resgatando a demanda de passageiros e usando os sistemas como solução para a mobilidade sustentável das cidades. E que têm, como fundamento, o fato de o transporte público ser um direito social, assegurado na Constituição, e ser utilizado diariamente por 50 milhões de pessoas no Brasil. E, desse total, 86% fazem seus deslocamentos diários de ônibus.

As propostas da NTU aos pré-candidatos são a criação do Programa Emergencial de Qualificação da Infraestrutura para o Transporte por Ônibus, com a meta de investir R$ 3 bilhões na implantação de 10 mil quilômetros de corredores ou faixas exclusivas nas cidades com mais de 250 mil habitantes; Programa de Padrões de Qualidade para reduzir o tempo das viagens, investindo em pesquisas periódicas e qualificação dos operadores; Programa do Transporte Público como Desenvolvimento Social, reduzindo a tarifa para universalizar o acesso da população ao ônibus; Programa de Transparência, disponibilizando informações sobre a operação para a sociedade; Programa de Financiamento do Custeio do Transporte, oferecendo fontes de financiamento para o setor além da tarifa; e Programa de Segurança Jurídica dos Contratos.


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