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Sérgio Sampaio, 70 anos

13 / abr
Publicado por José Teles às 17:28

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Quando estourou com Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, no Festival Internacional da Canção, de 1972, o capixaba Sérgio Sampaio, foi encaixado na crescente “legião dos filhos de Caetano”, conforme classificação do crítico Tárik de Souza. Sampaio, no entanto, foi um personagem mais complexo, do que apenas mais um na leva de jovens autores influenciados pelo, como cantaria Belchior, “velho compositor baiano”.

Sérgio Moraes Sampaio, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim há exatos 70 anos. A cidade, cujo filho mais famoso é Roberto Carlos, celebra hoje a data redonda com o XI Festival Sérgio Sampaio, com debates, filmes, shows.

Foi um dos “malditos” de uma geração de outros “malditos”, entre estes, Raul Seixas e Luiz Melodia. Tiveram de enfrentar a feroz censura da época, ao mesmo tempo atender os ditames comerciais das gravadoras. Não por acaso, os três eram contratados da Phillips, então a mais importante do país, comandada por André Midani, que recebera a tarefa de levar a multinacional a dar lucro, para não encerrar suas atividades no Brasil. Precisavam vender discos.

Antes de Eu Quero É Botar O Meu Bloco na Rua, Sérgio Sampaio foi um dos participantes do álbum Sociedade da Grã -Ordem Kavernista, Apresenta Sessão das 10 – Raul Seixas, Sergio Sampaio, Míriam Batucada e Edy Star, um disco, não por acaso, “maldito”, idealizado por Raul Seixas, gravado na CBS, e que seria reavaliado depois do sucesso popular do Maluco Beleza que se tornara um dos maiores vendedores da Phillips.

Mas enquanto Raul balanceava sua “maluquês” com acessível, e Luiz Melodia teve o aval de Caetano Veloso, foi gravado por Gal Costa, Sérgio Sampaio corria por fora. Seu primeiro, e único álbum pela Phillips, de 1973, não é fácil. A marcha rancho Eu Quero É Botar o Meu Bloco na Rua , um dos hits do carnaval de 1973, é uma exceção ao claustrofóbico e angustiado repertório do LP.

Sergio Sampaio era primo do compositor Raul Sampaio, que conseguia compor para os mais diversos estratos musicais (foi cantada por nomes como Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Erasmo Carlos, Elizeth Cardoso). Aos 17 anos, certamente influenciado pelo parente, ele já compunha sambas e boleros, e trabalhava na técnica da rádio da cidade natal, onde já era visto como um outsider, pelo comportamento arredio.

Em 1967, mudou-se para o Rio, trabalhou em algumas rádios, chegou a locutor, mas não gostava do oficio. Tocou em barzinho, até que encontrou Raul Seixas, que gostou da música do capixaba. Raul promoveu a estreia de Sérgio Sampaio em disco, na CBS, com um compacto simples, com Coco Verde e Ana Juan, as duas de Sampaio (a segunda em parceria com Odibar).

Em em 1973, em entrevista ao jornal alternativo Opinião, numa longa matéria de Tárik de Souza sobre a geração que entrava em cena na MPB, Sérgio Sampaio comentou sobre o material que criava para o segundo disco:

“O que estou compondo agora procura dar continuidade ao meu trabalho, mas não é a mesma coisa. É um negócio mais consistente porque abrange, tudo inclusive minha vida”. Dispensado pela Philips, só voltaria ao estúdio três anos mais tarde, para lançar, pela Continental, o álbum Tem Que Acontecer. O disco não aconteceu.

Completaria dez anos de carreira, com o terceiro álbum, o independente Sinceramente, ultimo que lançou em vida, e que teve participação, numa faixa (Doce Melodia),  do companheiro de geração, de gravadora e de “maldição”, Luiz Melodia. Este mais tarde agregaria ao seu repertório uma composição de Sérgio Sampaio, Que Loucura, dos versos: “Fui internado ontem/na cabine 103/do hospício do Engenho de Dentro/só comigo tinham dez”.

Em 1994, Sérgio Sampaio gravou músicas para o que seria sua volta ao disco, pelo selo Baratos & Afins. No entanto, faleceu, aos 47 anos, em 15 de maio de 1994, em consequência de uma pancreatite, no hospital Quarto Centenário, em Santa Teresa.

A demo que gravou em 1994, permaneceu inédita até 2006, quando foi lançada em CD, com o título de Cruel, pelo selo Saravá Discos, de Zeca Baleiro.

Confiram áudio de Sérgio Sampaio, em Que Loucura:


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