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Luzes e sombras de Milo Manara na biografia de Caravaggio

06 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 14:32

caravaggio
Detalhe da graphic novel A Morte de Caravaggio

Considerado um “mestre do erotismo”, o quadrinista italiano Milo Manara dá um tempo em suas diatribes sexuais e empresta seu talento de desenhista e escritor para contar a história do pintor barroco Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio (1571-1610). Em Caravaggio – A Morte da Virgem (Editora Vêneta, 64 páginas, R$ 59,90), primeiro volume dedicado à biografia do genial e genioso artista italiano (o segundo ainda não foi publicado), Manara conta os anos em que Caravaggio viveu em Roma.

Ele tinha 21 anos quando chegou à cidade, vindo de Milão, onde a família morava. Foi adotado pelos boêmios e artistas quando seus primeiros quadros, em que luzes e trevas se digladiavam para representar um reflexo poético da realidade, fascinaram cardeais e papas, que viram no seu estilo dramático o ideal para adornar paredes de igrejas e catedrais.

Manara estudou a fundo a obra e o estilo de Caravaggio, como também tudo o que se escreveu sobre ele. Por isso, para contar a história do pintor, teve que emular a arte do biografado, o que faz com grande maestria. O realismo das edificações e das figuras humanas – – uma marca registrada de Caravaggio –- salta das páginas do livro, que recebeu um tratamento editorial de alta qualidade.

Como já era de se esperar, Manara não apenas ressalta a criatividade de Caravaggio, mas também sua vida violenta. Defensor de pobres e prostitutas, que costumava retratar como santos e nobres, ele manteve rixas com vários dos seus contemporâneos. Ao contrário do cineasta Derek Jarman, que retratou a homossexualidade enrustida do pintor, pelo menos neste volume Manara não toca na questão.

Na verdade, nem mesmo as prostitutas, especialmente a ruiva Annuccia, são objetos do seu desejo. Ao contrário, ele mantém por elas um respeito e um amor que vão além do sexo. Annuccia, vitimizada pelo cafetão Ranuccio Tomassoni, é a modelo do quadro A Morte da Virgem, que está exposta no Louvre. Recusada pelo clero, a obra foi salva graças ao apelo do pintor holandês Peter Paul Rubens, que intercedeu para a obra ser vendida, mas não destruída.

Manara conclui a primeira parte do livro com Caravaggio fugindo de Roma após assassinar Ranuccio em um duelo. No próximo capítulo, ele se dedicará aos quatro últimos anos de vida do pintor. Só nos resta esperar.

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Cappa da graphic novel Caravaggio, da Editora Vêneta

 


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