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Empréstimo consignado: você ainda vai fazer um

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Publicado por Fernando Castilho em Notícias às 15:38

Foto: Marcos Santos/USP

 

O telefone toca e uma voz certifica-se do nome do destinatário. Ela já sabe quase tudo sobre o perfil do ouvinte – especialmente se for segurado do INSS – e antes que ele possa esboçar qualquer gesto, vem a oferta: temos um crédito para o senhor que podemos depositar na conta de seu banco em até 48 horas.

Como assim? Pergunta o segurando assustado. Como você sabe que tenho essa capacidade de crédito? E aí nova surpresa. O representante do banco não só sabe todos os detalhes sobre o benefício do segurado como a margem que ele dispõe, inclusive, a taxa que está pagando se ele já tiver feito um empréstimo noutro banco. Pois é. A vida de quem tem um benefício do INSS não é fácil. Todos os dias tem sempre alguém ligando para oferecer crédito consignado. Mesmo que o cliente não deseje o dinheiro e até se irrite com a oferta intempestiva.

Criado para substituir a figura clássica do agiota (aquele sujeito que estava sempre por perto de uma repartição pública), para oferecer dinheiro a juros com taxa de até 10% ao mês, o crédito consignado tem hoje mais de um terço de todas as operações bancárias feitas por pessoa física no País. Além dos segurados do INSS, os servidores públicos representam metade de todo esse dinheiro tomado.

Virou um negócio extraordinário para os bancos. Por mês, apenas as operações de crédito consignado já representam R$ 335,1 bilhões dos R$ 447,5 bilhões de recursos livres emprestados até hoje pelos bancos à pessoa física no País. Isso num mercado que emprestou, em todas as modalidades de crédito, R$ 936,1 bilhões até novembro último.

Emprestar dinheiro (especialmente a clientes do setor público e segurados do INSS) já movimenta uma cadeia produtiva estimada em mais 50 mil pessoas espalhadas por todos os 5.500 municípios brasileiros, além de empresas de call center especializadas em oferta de crédito que, não raro, irritam potenciais clientes pela quantidade de chamadas feitas para seus telefones.

A queda da taxa Selic no governo Temer provocou impacto no setor, quando os bancos baixaram suas taxas e passaram a “perseguir” os clientes com empréstimos, oferecendo a portabilidade do crédito combinada com a possibilidade de um dinheiro adicional e aumentando o número de parcelas para até 72 meses.

O consignado é a modalidade de crédito mais baixa do mercado, pela garantia que o cliente dá ao banco, autorizando o desconto em folha. Deveria custar menos, já que o risco é praticamente zero. Mas depois de 15 anos, ele ainda é um dinheiro caro: cobra, em média, 24,5% ao ano para servidores públicos; 27,2% a.a. para segurados do INSS e absurdos 40% para empregados do setor privado.

A explicação para essas taxas está no fato de que o banco paga para captar do investidor e na taxa de inadimplência, que chega a 2,3% dos contratos, segundo relatório do BC. O relatório informa que a inadimplência chega a 4,2% no setor privado, que também é quem paga as maiores taxas. Esse fenômeno é explicado pelo risco do empregador – na hora da demissão – não descontar o débito na rescisão contratual do ex-funcionário.

É difícil imaginar como um servidor ou segurado do INSS pode ficar devendo a parcela do consignado. Mas a informação é que existem quadrilhas que burlam a segurança do sistema e fraudam contratos, o que deu a justificativa aos bancos para aumentar o spread bancário de uma operação que teoricamente tem risco zero.

De qualquer forma, o crédito consignado incorporou-se à vida do brasileiro de uma forma tão forte que hoje no setor público e entre os segurados do INSS é praticamente impossível achar alguém que não tenha um empréstimo descontado em folha, num contrato a perder de vista, uma vez que é possível, pelo INSS, contratar o dinheiro em até 72 meses.

Naturalmente, coberto por um seguro de crédito pago pelo tomador, que garante ao banco o valor do sinistro do contrato em caso de morte dele, geralmente pessoas com mais de 65 anos.


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