R&B

Tinashe continua a brilhar nas sombras no ótimo 'Joyride'

Cantora é uma das melhores artistas de sua geração, mas falta reconhecimento
Márcio Bastos
Publicado em 01/05/2018 às 19:46
Cantora é uma das melhores artistas de sua geração, mas falta reconhecimento Foto: Reprodução


O caminho de Tinashe para lançar Joyride, seu segundo álbum oficial de estúdio, foi tortuoso. Anunciado em 2015, pouco depois da aclamação de sua estreia, Aquarius (2014), o trabalho só chegou às plataformas digitais no início deste mês, após uma série de cancelamentos e manifestações públicas de insatisfação da artista com sua gravadora. Esses percalços estão impressos na obra, que por vezes parece perder o rumo, mas que, como um todo, não deixa de expressar onde sua criadora quer chegar.
Antes de avançarmos, uma olhada no retrovisor para entender o percurso de Tinashe. A americana de 25 anos cresceu em frente às câmeras, participando de programas infantis e de competições de dança. Ainda adolescente, integrou o grupo Stunners, do qual também participou Hayley Kiyoko (ler vinculada), abrindo shows para Justin Bieber, mas o coletivo se desfez antes de lançar o primeiro álbum.

Foi então que Tinashe passou a se dedicar a compor e produzir canções em um estúdio improvisado em sua casa. Dessas sessões, saíram duas mixtapes, as ótimas In Case We Die e Reverie, ambas em 2012. Com contrato assinado com a RCA, ela conquistou a crítica com o álbum Aquarius. O trabalho ressaltava sua natureza ousada, ligada ao r&b alternativo, e sua sensibilidade para refrões pegajosos, como no caso do hit dançante 2 On e da empolgante All Hands on Deck, cujo clipe colheu elogios de artistas como Kanye West. O disco ficou entre os melhores daquele ano em listas prestigiadas de publicações como Pitchfork e The Guardian, mas não foi um sucesso comercial.

Prolífica, ela anunciou, com um trailer, o lançamento de Joyride, em 2015. Meses depois, no entanto, nada do álbum. Ela, inclusive, confessou aos fãs que a gravadora deixou o projeto de lado para se concentrar no disco solo de Zayn Malik, ex-One Direction. Como uma forma de pressionar a empresa, ela vazou o single Party Favors. Depois dele, saíram outros tantos, como Superlove e Flame (esta imposta pela gravadora), mas nada do disco.

Frustrada, ela lançou a mixtape Nightride com várias canções que seriam do Joyride, pagando ela mesma pela divulgação e gravação dos clipes. Como sugere o título, as canções são soturnas e não se encaixam em um só gênero, se aproximando das experimentações de Frank Ocean, Kelela e Dawn Richard.

DADA A LARGADA

Tudo parecia finalmente no lugar quando Tinashe anunciou que o álbum chegaria às plataformas digitais em abril deste ano. Nesse meio tempo, lançou No Drama, com Offset, e a ótima Faded Love, que já figura entre seus melhores trabalhos, com o rapper Future. De fato, não houve mais adiamentos, mas, tirando os fãs, o trabalho teve pouco impacto. Tanto que, na primeira semana, vendeu menos de 10 mil cópias nos EUA (contando os streamings). É uma pena.

Tinashe é uma artista talentosa, inteligente e multifacetada. Compõe bem, dança com a precisão, sua voz é potente, tem presença de palco e seus discos mantêm um alto nível de qualidade. Sobre o fato de estar quase lá, mas não cruzar a “linha de chegada” do sucesso, ela chegou a atribuir ao machismo e ao racismo, afirmando que a indústria limitava a ascensão de afrodescendentes, só permitindo “uma Beyoncé e uma Rihanna por vez”.

De fato, é impossível não pensar que, nas vozes das artistas citadas acima, várias da canções da cantora seriam sucessos absolutos. A própria faixa-título do disco chegou a ser comprada por Rihanna para o álbum Anti (Tinashe escreve para vários artistas, como Fifth Harmony, Katy Perry) e não soaria descontextualizada na obra-prima da superstar caribenha. É uma música experimental, com vocais distorcidos e sobrepostos, que casa com a abertura com ares cinematográficos de Keep Your Eyes on The Road. Com essas duas primeiras faixas, fica a impressão de que estaremos diante de um trabalho conceitual, mas a impressão é que Nightride atinge mais o objetivo do que Joyride.

Em alguns momentos, se aproxima das tendências musicais, a exemplo de Me So Bad, um tropical house com French Montana e Ty Dolla Sign, e Stuck With Me, mas é quando constrói uma atmosfera minimalista e com um quê de melancolia que Tinashe atinge seu ápice criativo. Em entrevistas, ela já afirmou que a maioria de suas canções é escritas e produzida por ela em seu quarto e em casos como Don’t Want It, Ooh La La, em que as batidas são completadas por sons de molas de colchão, é para este reduto que o ouvinte é transportado.

A voz de Tinashe brilha em faixas como Salt e Fire and Flames, r&b mais tradicional, conduzida por um piano, que fecha o disco, e uma das únicas faixas que estariam na versão inicial do álbum (ela afirma que, ao longo dos últimos três anos gravou cerca de 200 canções). Outro momento de destaque é No Contest, com suas mudanças de tempo, oscilando entre o trap, r&b e pop.

Talvez pela expectativa gerada por conta dos vários cancelamentos, Joyride não alcança a coesão de seus antecessores, mas tem momentos de brilhantismo e é mais uma prova do talento e da versatilidade de Tinashe. Talvez por não se encaixar em nenhum gênero específico e não comprometer sua experimentação ou porque o mercado, de fato, não abre espaço suficiente para jovens negras, Tinashe ainda demore para atingir o grande público com o seu trabalho. Mas, enquanto isso não acontece, podemos ficar certos de que ela vai continuar surpreendendo, mesmo que nas sombras.

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