Ataque à universidade do Quênia expõe duplo fracasso das políticas quenianas

Garissa, assim como as outras regiões na fronteira com a Somália, é palco de ataques crônicos, de amplitude variável, dos islamitas somalis shebabs
Da AFP
Publicado em 06/04/2015 às 12:03
Garissa, assim como as outras regiões na fronteira com a Somália, é palco de ataques crônicos, de amplitude variável, dos islamitas somalis shebabs Foto: Foto: AFP


Marginalização histórica das populações somalis e mais amplamente muçulmanas, a incapacidade mais recente de manter a segurança do país: para os analistas, o massacre ocorrido na Universidade de Garissa (148 mortos) se deve aos sucessivos fracassos políticos no Quênia.

Garissa, assim como as outras regiões na fronteira com a Somália, como Mandera, Wajir ou a costa queniana - do arquipélago de Lamu ao porto de Mombasa - é palco de ataques crônicos, de amplitude variável, dos islamitas somalis shebabs. 

Vizinhas de uma Somália mergulhada no caos há mais de duas décadas, separadas por 700 km de uma fronteira porosa, essas regiões pobres, por muito tempo negligenciadas e cuja população é formada majoritariamente por somalis e swahilis muçulmanos estigmatizados, tornaram-se alvos privilegiados dos islamitas: um terreno fértil para suas atividades e para a radicalização, e onde o aparelho de segurança é extremamente falho. 

Transformados em centros de radicalização, o norte, o leste e a costa do Quênia foram por muito tempo excluídos do desenvolvimento do país e acumulam problemas: atrasos de infraestrutura, desemprego em massa - especialmente entre os jovens - e taxas de escolarização entre as mais baixas do país.

"Desde a independência, o Quênia foi construído sobre o princípio de uma divisão do país. De um lado, o norte, com populações somalis-quenianas e do outro a base multiétnica queniana, composto por kikuyu e luo", explica Benoit Hazard, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) francês.

Recentemente, com a descoberta de recursos petrolíferos e energia geotérmica, as autoridades começaram a desenvolver a região.

Mas a marginalização deixou marcas, especialmente uma vez que o desenvolvimento foi acompanhado pela chegada de uma "população kikuyu e mais largamente multiétnica" vindo do resto do país para representar o Estado, deixando a população local "completamente fora do processo de inclusão econômica", ressalta o pesquisador francês.

Discriminações

Durante décadas, essa marginalização territorial foi acompanhada pela discriminação e desconfiança respectiva: desde a independência em 1963, a história da região é marcada por conflitos, tendências separatistas, repressões.

Durante a independência, as populações do nordeste lutaram por uma união com a Somália, enquanto Nairóbi reprimiu ferozmente esses impulsos separatistas. Outros massacres se seguiram, muitas vezes sob o pretexto de acabar com conflitos locais, incluindo o de Wagalla em 1984, quando o exército matou muitos somalis - oficialmente menos de 100, mas algumas ONGs evocam mais de 5.000 mortos.

"As forças de segurança do Quênia tiveram uma presença muito violenta e preocupante no nordeste desde os anos 60: assassinatos, detenções ilegais, torturas, estupros e violências sexuais", resume Leslie Lefkow, da Human Rights Watch. Antigamente como hoje, "punir comunidades inteiras é a resposta habitual à insegurança".

Cada um dos recentes ataques reivindicados pelos shebabs levou a uma repressão contra a população muçulmana somali e, mais geralmente, muçulmana em um país predominantemente cristão: no norte e no leste, mas também em Mombasa, onde ??mesquitas são acusadas de ligações com os islamitas, têm sido alvo de ataques brutais, e em Nairóbi, onde o bairro somali de Eastleigh foi palco de invasões. Os shebabs, que está solidamente estabelecido no país, não têm dificuldade em recrutar jovens.

Um dos agressores de Garissa, identificado pelo nome de Abdirahim Abdullahi, era um jovem queniano de Mandera, graduado em Direito pela Universidade de Nairóbi e, aparentemente, tinha um futuro brilhante. Ele, com certeza, tinha um futuro, mas devia "ser controlado o tempo todo pela polícia na rua", aponta Abdullahi Boru Halakhe, pesquisador em segurança.

Desde o ataque em Garissa, muitas são as críticas contra as forças de segurança do Quênia, consideradas incompetente e altamente corruptas.

Também visam o governo, acusado de não ter levado a sério os recentes alertas - as autoridades locais e professores denunciam há meses a insegurança insustentável no norte e leste do país - e por não aprender as lições de ataques anteriores - como os ataques sangrentos em 2014 em Mandera e Lamu (mais de 160 mortos) ou o atentado contra o shopping Westgate em Nairobi (pelo menos 67 mortes) em setembro de 2013.

"Embora não haja prevenção irrefutável aos ataques terroristas, a escala do ocorrido em Garissa, as advertências precedentes e a regularidade desses ataques mostram o fracasso do Estado como um todo", resume Abdullahi Boru Halakhe.

Como outros, ele defende uma retirada das tropas quenianas da Somália, ações contra a corrupção das forças de segurança e medidas "contra o terrorismo" que respeitem os direitos humanos, tudo acompanhado por uma política de "antirradicalização".

As autoridades "têm de preencher a lacuna entre o Estado e a comunidade somali (...) Considerar cada somali como um terrorista só reforçará a desconfiança e irritará ainda mais" essas populações.

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