Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Coluna JC Negócios

Saída da Ford é aviso ao Brasil que mercado mudou

O mundo hoje tem fábrica demais para consumidor de menos. O Brasil ainda incentiva apenas as indústrias com motores a combustão, sem incentivar os carros elétricos

Fernando Castilho
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Fernando Castilho
Publicado em 12/01/2021 às 2:00 | Atualizado em 12/01/2021 às 18:52
MIGUEL SCHINCARIOL / AFP
INDÚSTRIA Saída do Brasil da centenária Ford reacendeu o debate sobre a urgência de uma reforma tributária - FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL / AFP
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Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios, do Jornal do Commercio

A gigante Ford está avisando ao mundo, Brasil no meio, que chegou a hora de focar nos negócios rentáveis que as tecnologias impuseram. Não é uma escolha da companhia, é uma imposição do mercado.

Se a gente olhar no quintal da Ford, a Chrysler já se juntou com a Fiat e agora com Peugeot Citroën que terão marcas como Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën, Dodge, Alfa Romeo e Opel.

Como ficam os proprietários de carros da Ford no Brasil?

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A outra vizinha Chevrolet também aposta em novas parcerias. Os japoneses? Bom, os japoneses são diferentes. Eles já estão nessa “vibe” há muito tempo, depois que viram que só poderiam ser fortes nos Estados Unidos com alta tecnologia.

Nada mais americano que a Ford. Mas se ela não focar no novo mercado, corre o risco de ficar para trás. E é isso que ela está fazendo. E o Brasil não é um mercado especial para ela.

Na verdade, o mundo hoje tem fábrica demais para consumidor de menos. O sonho de jovens de ter o seu carro novo já não é tão forte.

Depois dos aplicativos, ter carro em países como o Brasil virou um problema, já que não se pode beber e dirigir. O mercado mudou e pronto.

E mesmo quem está pensando em carro, agora pensa em carro elétrico. E se possível, abastecido por energia renovável. Dito de outra forma: o mundo vai comprar menos carro no futuro.

E como fica o Brasil neste caso? Bom, o Brasil ainda roda na plataforma de carro com motor a combustão. Na contramão do mundo, ele dificulta a entrada de carro elétrico no País, enquanto outros países brigam por esse tipo de fábrica.

Por exemplo, o Brasil fez, em 2018, um programa de apoio à indústria automobilística. Chama-se Rota 2030 e prevê a concessão de três benefícios: a aplicação diferenciada do IPI, o regime de autopeças não produzidas e o incentivo referente à aplicação em projetos de P&D. Carro a gasolina.

Segundo projeções da Receita Federal, estava prevista uma renúncia fiscal de R$ 2,11 bilhões para 2019 e R$ 1,64 bilhão para 2020.

Isso graças à redução das alíquotas do IPI, em até 2%, para veículos que atenderem os requisitos do programa, podendo o benefício ser estendido para os veículos híbridos equipados com motor que utilize, alternativa ou simultaneamente, gasolina e álcool.

E valerá a partir de 01/01/2022. Ah, tem uma redução de até 15,3% do valor gasto em P&D no IRPJ e na CSLL.

Note que não tem uma linha sobre carro elétrico. Porque o projeto foi desenhado pelas grandes montadoras era para carro com motor a combustão.

Não tem no Brasil nenhum incentivo à produção de carro elétrico. E isso acontece porque a indústria automobilística tem 20% da produção industrial no Brasil. E ela não está interessada na produção de carro elétrico.

Então, é preciso entender que a decisão da Ford tem a ver com o seu negócio no mundo, mas tem a ver com suas dificuldades no Brasil. A Ford não está na vanguarda das novas tecnologias do setor.

Ela vem perdendo mercado porque com as fábricas que tem, está ficando caro produzir carro no Brasil.
A companhia pode fazer esses carros mais barato noutros países. E quando isso acontece, importa pouco se ela recebeu incentivos de R$ 20 bilhões. Ela vai embora porque a conta não fecha.

O tal do custo Brasil que ela já viu que não vai cair tão cedo. Ela não tem o mercado nem as condições das outras concorrentes no Brasil. Então, ela disse: Fui!

Certo, mas e as cidades que apostaram nisso? Bom, vai ser uma tristeza.

Uma montadora é uma espécie de microcosmo. Funciona como um farol, sob a luz gravitam milhares de empregos.

Não é só a fábrica. É o pessoal das autopeças, o messo das transportadoras, dos serviços de apoio, do comércio e até da revenda de carro que fica na cidade. Tudo isso vai bater no comércio. Quando a fábrica fecha, fecha uma cadeia inteira.

Cria problema para a prefeitura e para o governador, porque o comércio decorrente dessa renda acaba ajudando na arrecadação de ICMS.

Claro que o ministério da Economia vai dizer que é uma questão global, e é. Mas também é verdade que quando o bicho pega, as empresas saem primeiro dos lugares mais frágeis e onde o governo não ajuda.

É preciso não esquecer. O Brasil é um mercado de 2,5 milhões de automóveis. É muita coisa. Mas não é nada de extraordinário no futuro mercado. E outras montadoras vão analisar a saída da Ford.

Num governo atabalhoado como o de Bolsonaro, as empresas só precisam de uma justificativa para ir embora. Até porque nenhuma delas é obrigada a devolver incentivo quando fecha. O medo é a moda pegar.

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