TRANSPORTE PÚBLICO

Tentativa de moralização do Terminal Joana Bezerra, no Recife

Pela segunda vez em um ano, governo do Estado tenta impedir a invasão escancarada do sistema de transporte pelo TI, por onde quase três mil pessoas entravam sem pagar. A diferença agora é que a PM está presente

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 31/08/2020 às 22:05
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Quase três mil pessoas costumavam acessar o sistema de ônibus e metrô livremente, sem pagar a tarifa, pelos portões sempre escancarados do TI - FOTO: WELINGTON LIMA/ JC Imagem
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O Terminal Integrado Joana Bezerra, localizado na comunidade do Coque, área central da capital, e um dos mais problemáticos da Região Metropolitana do Recife, passa por mais uma tentativa de moralização do acesso de passageiros. Desde o sábado (29/8), a unidade está controlando - com a presença da Polícia Militar - a entrada de pessoas no local e impedindo o embarque sem o pagamento da passagem, hábito comum ao terminal mesmo antes de ser totalmente reconstruído, em 2013. Quase três mil pessoas costumavam acessar o sistema de ônibus e metrô livremente, sem pagar a tarifa, pelos portões sempre escancarados do TI. São os chamados passageiros invisíveis, que colaboram com a superlotação dos coletivos porque não são computados nas projeções de demanda para o dimensionamento da frota.

A operação está sendo feita numa parceria entre o governo de Pernambuco e o setor empresarial de ônibus. O Grande Recife Consórcio de Transportes Metropolitano (CTM) está viabilizando o pagamento de dois porteiros, enquanto a empresa de ônibus Borborema banca outros quatro profissionais, além de bilheteiros e de ter recuperado a estrutura dos portões e da bilheteria, abandonados desde outubro do ano passado, quando a unidade ficou completamente aberta à evasão de receita. É a segunda tentativa de organizar e evitar as invasões do local.

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No sábado (28/8), quando os portões passaram a ser controlados, 900 passageiros pagaram a passagem na catraca do terminal, 760 o fizeram no domingo, e até às 12h desta segunda-feira (31/8), 702 tinham feito o pagamento da tarifa - WELINGTON LIMA/ JC Imagem

Em 2019, o Estado tentou, também com a Borborema, colocar ordem no TI, mas não deu certo. Agora, a diferença é a presença de PMs no terminal, pagos pelo Programa de Jornada Extra (PJEs), num convênio com a Secretaria de Defesa Social (SDS). “E tem dado certo por isso. Porque os policiais militares estão lá. A presença da PM é fundamental. Se ela não ficar presente, não conseguimos impedir as invasões. Tudo vai por água abaixo. Isso precisa estar muito claro para o governo do Estado, gestor do transporte na RMR. Nossos funcionários, sozinhos, não conseguem evitar as intimidações, muito comuns na região”, ressalta Geraldo Magela, diretor de Operações da Borborema e que vivencia os problemas do TI na pele.

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A presença da PM é fundamental. Se ela não ficar presente, não conseguimos impedir as invasões. Tudo vai por água abaixo. Isso precisa estar muito claro para o governo do Estado, gestor do transporte na RMR. Nossos funcionários, sozinhos, não conseguem evitar as intimidações, muito comuns na região
Geraldo Magela, diretor de Operações da Borborema

Para se ter ideia do que o operador diz, levantamento recente do CTM apontou que, em dois dias de movimento antes da pandemia, 2.800 e 3 mil pessoas foram contabilizadas entrando na unidade sem pagar entre as 6h e às 18h. No sábado (28/8), quando os portões passaram a ser controlados, 900 passageiros pagaram a passagem na catraca do terminal, 760 o fizeram no domingo - dia em que a evasão era ainda maior -, e nesta segunda-feira (31/8), 1.200 tinham feito o pagamento da tarifa. Pela unidade circulam mais de 40 mil passageiros. Havia dias em que apenas de cinco a 12 pessoas pagavam a passagem para acessar os ônibus ou o metrô pelo terminal.

O passageiro que entra sem pagar é o que chamamos de fantasma, invisível, e ele é extremamente danoso para todo o sistema porque ele superlota os coletivos. Se não o enxergamos, não temos como projetar uma oferta de serviço suficiente. Ainda mais agora, na pandemia, quando temos trabalhado com uma média de quatro passageiros por metro quadrado
André Melibeu, diretor de Operações do CTM

Na prática, a operação deflagrada pelo Estado e Borborema nada mais é do que manter os portões do terminal fechados, com acesso apenas para os coletivos, e a reativação da bilheteria, que estava fechada desde outubro do ano passado. “Sabemos que a presença da PM é fundamental e temos a garantia do governo de que ela vai estar sempre presente. Não na linha de frente, mas estará na unidade para atuar no que for preciso. É a primeira vez que tentamos uma ação dessas com a PM. Esse controle é fundamental para o planejamento da operação. O passageiro que entra sem pagar é o que chamamos de fantasma, invisível, e ele é extremamente danoso para todo o sistema porque ele superlota os coletivos. Se não o enxergamos, não temos como projetar uma oferta de serviço suficiente. Ainda mais agora, na pandemia, quando temos trabalhado com uma média de quatro passageiros por metro quadrado”, explica o diretor de Operações do CTM, André Melibeu.

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Os chamados passageiros invisíveis colaboram com a superlotação dos coletivos porque não são computados nas projeções de demanda para o dimensionamento da frota - WELINGTON LIMA/ JC Imagem

Quem frequenta o TI Joana Bezerra e paga a passagem corretamente aprovou a iniciativa. “Venho de Nova Descoberta e desço do lado de fora do terminal. Ou seja, preciso pagar uma diferença para pegar o metrô. Sempre via as pessoas entrando sem pagar e sentia uma revolta porque eu não acho certo e sempre paguei. O governo já devia fazer isso há mais tempo. E só espero que mantenha porque essas ações nos TIs começam e depois param”, afirmou a diarista Maria José da Silva, que passa pelo menos quatro vezes da semana pelo TI.

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