Vamos pagar o preço da guerra, diz economista sobre defasagem no preço da gasolina e do diesel

De acordo com a associação de importadores de combustível, diesel e gasolina têm 25% de defasagem, maior nível em cerca de 10 anos
Agência Brasil
Cássio Oliveira
Publicado em 03/03/2022 às 12:03
Projeto que facilita redução de preços dos combustíveis segue para sanção Foto: GUGA MATOS / JC IMAGEM


A invasão da Ucrânia por tropas russas pode produzir impactos econômicos a mais de 10 mil quilômetros de distância. O Brasil pode sentir os efeitos do conflito por meio de pelo menos três canais: combustíveis, alimentos e câmbio. 

No quesito combustíveis, a disparada na cotação do petróleo no mercado internacional deve levar a um novo aumento do preço no Brasil, elevando a pressão por reajuste.

De acordo com cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), os valores médios de diesel e gasolina da Petrobras nas refinarias atingiram 25% de defasagem ante a paridade de importação, um nível não visto há cerca de 10 anos. O chamado preço de paridade de importação (PPI) é o custo do produto importado trazido ao país. Já a União Nacional da Bioenergia aponta que esta defasagem pode estar em 27%.

"Sem dúvida (pagaremos o preço da guerra). Toda vez que a gente tem um país autocrático, como é o caso da Rússia e outros produtores de petróleo, que querem se aventurar numa guerra, isso vai gerar instabilidade no mundo como um todo, gera aumento no preço do barril do petróleo e, consequentemente, quando esse preço bate aqui no Brasil, é bom para a Petrobras, se ela repassar o preço ao consumidor. Se ela não fizer isso, começa a ter prejuízo, começa a deixar de ter os lucros que poderia ter", disse a economista e coordenadora de políticas públicas do Livres, Deborah Bizarria, em entrevista à Rádio Jornal, na manhã desta quinta-feira (3).

Segundo a especialista, outra consequência pode ser gerada se a Petrobras não repassar o preço ao consumidor. "As refinarias brasileiras não conseguem dar conta do volume que a gente consume de gasolina e diesel no Brasil. Então, a gente precisa de outras empresas importando esse petróleo. Mas, se a Petrobras fica com esse preço abaixo do valor de mercado, esses outros importadores não conseguem competir e isso gera escassez de gasolina, o que pressiona ainda o mais o preço para cima, gera um ciclo vicioso difícil de manter por muito tempo", explicou Deborah.

Segundo Sergio Araujo, presidente da Abicom, seria necessário um reajuste de R$ 1,11 no litro do diesel e de R$ 0,87 na gasolina. "Há uma pressão altíssima com o cenário de guerra. O déficit será maior e haverá pressão para elevar os preços dos combustíveis aqui", afirmou Araujo em entrevista ao O Globo.

Refino

Apesar de o Brasil ser superavitário em petróleo, possui déficit em refino e, por isso, o consumo interno é coberto também com importação. De acordo com a economista Bizarria, não será fácil para a Petrobras aumentar o refino de petróleo de um dia para o outro.

"Acredito que a Petrobras, como empresa muito séria, opera da melhor maneira possível, mas a curto prazo é difícil aumentar a produção e refino de petróleo. Além disso, participar do mercado global tem suas vantagens, apesar de em momento de crise o preço aumentar rapidamente. É importante ter em mente que, além desse problema da gasolina, em curto prazo, precisa pensar em fontes alternativas de energia e combustível para não ficar dependente de autocratas como Vladimir Putin e outros grandes produtores de petróleo, que não são democracias. E tem a questão ambiental cada vez mais urgente, o Brasil é signatário de vários tratados, tem metas a cumprir, é importante aproveitar momentos de crise para repensar que tipo de país e economia a gente quer. Pensar em fontes de energia limpa e viável", comentou.

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O Brasil também tem dependência de outros países no caso do diesel e chega a 25%. Como os preços da Petrobras se mantêm inalterados desde o início do ano, a concorrência, sem capacidade de competir, não vem fornecendo gasolina ou diesel como deveriam. Em contrapartida, a demanda continua crescendo, como acontece desde 2020. Mas, a importação por terceiros está inviabilizada, segundo o presidente da Abicom, Sérgio Araújo. Na prática, isso significa que quase toda responsabilidade de fornecimento de combustíveis está com a Petrobras e que, se alguém tiver que pagar a conta pela alta do petróleo no Brasil, será a empresa e o tamanho da conta vai depender do reajuste que ela pode anunciar, que, no fim das contas, bate no bolso do consumidor.

Petróleo

Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), existem diversos canais pelos quais a crise entre Rússia e Ucrânia pode chegar à economia brasileira. O principal é o preço internacional do petróleo, cujo barril do tipo Brent encerrou a semana passada em US$ 105, no maior nível desde 2014. O mesmo ocorre com o gás natural, produto do qual a Rússia é a maior produtora global, cujo BTU, tipo de medida de energia, pode chegar a US$ 30, segundo disse nesta semana em entrevista coletiva o diretor de Refino e Gás Natural da Petrobras, Rodrigo Costa.

O Brasil usa o gás natural para abastecimento das termelétricas. Para o diretor da estatal, a perspectiva é que a elevação dos reservatórios das usinas hidrelétricas no início do ano possa compensar, pelo menos nesta fase de início de conflito. Em relação à gasolina, a recuperação da safra de cana-de-açúcar está reduzindo o preço do álcool anidro, o que também ajuda a segurar a pressão do barril de petróleo num primeiro momento.

As maiores pressões sobre combustíveis estão ocorrendo sobre o diesel, que não tem a adição de etanol e subiu 3,78% em janeiro, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), que funciona como prévia da inflação oficial.

Alimentos

Outro canal pelo qual a guerra no Leste europeu pode afetar a economia brasileira são os alimentos. A Rússia é a maior produtora mundial de trigo. A Ucrânia ocupa a quarta posição. Nesse caso, o Brasil não pode contar com outros mercados porque a seca na Argentina, tradicionalmente maior exportador do grão para o Brasil, está comprometendo a safra local.

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A crise no mercado de petróleo também pressiona os alimentos. Isso porque a Rússia é o maior produtor mundial de fertilizantes, que também são afetados pelo petróleo mais caro. Atualmente, o Brasil compra 20% dos fertilizantes do mercado russo. O aumento do diesel também interfere indiretamente no preço da comida, ao ser repassado por meio de fretes mais caros.

Durante a entrevista à Rádio Jornal, Deborah Bizarria falou sobre a compra de fertilizantes. "É importante entender que quando a gente vive em um mundo globalizado acaba sendo mais vantajoso para um ou outro país acabar produzindo insumos, seja fertilizante ou outra coisa. No Brasil, pesquisas precisam ser não só realizadas, mas viáveis em ponto de vista do mercado, para entender porque o agronegócio prefere comprar na Rússia do que daqui (o fertilizante). Mas, isso retoma o ponto que falei, sempre que um autocrata quiser brincar de superpoderoso dominando na Europa isso vai acontecer. Por isso, na prática, a guerra é a maior fonte de destruição de riqueza de todo o mundo. Sem fertilizante, a gente não consegue produzir nossos alimentos e o alimento que o Brasil fornece ao resto do mundo, isso acaba gerando problema para o mundo inteiro", comentou.

Dólar e juros

O terceiro fator pelo qual a crise entre Rússia e Ucrânia pode impactar a economia brasileira será por meio do câmbio. Por enquanto, os efeitos no câmbio são relativamente pequenos porque o Brasil se beneficiou de uma queda de quase 10% da moeda norte-americana no acumulado de 2022. O prolongamento do conflito, no entanto, pode anular a baixa do dólar no início do ano.

Nesta semana, o secretário do Tesouro Nacional, Paulo Valle, disse que o Brasil está preparado para os impactos econômicos da guerra. Segundo ele, o país tem grandes reservas internacionais e baixa participação de estrangeiros na dívida pública, o que ajudaria a enfrentar os riscos de uma turbulência externa prolongada.

No entanto, caso o dólar continue a subir e a inflação não ceder, o Banco Central pode ver-se obrigado a aumentar a taxa Selic (juros básicos da economia) mais que o previsto. Nesse caso, o crescimento econômico para este ano ficaria ainda mais prejudicado. Na última edição do boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo Banco Central, os analistas de mercado elevaram a projeção anual de inflação oficial para 5,56% em 2022. Essa foi a sexta semana seguida de alta na estimativa. A previsão de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB) foi mantida em apenas 0,3% neste ano.

América latina

A instabilidade no Leste europeu pode não apenas impactar a inflação como pode resultar em aumentos adicionais nos juros, comprometendo o crescimento econômico para este ano ao reduzir o espaço para a melhoria dos preços e do consumo. Segundo a pesquisa Sondagem da América Latina, divulgada pela FGV, as turbulências na Ucrânia devem agravar as incertezas que pairam sobre a economia global nos últimos meses.

No Brasil, os impactos deverão ser ainda mais intensos. Uma das razões é a exposição maior aos fluxos financeiros globais que o restante da América Latina, com o dólar subindo e a bolsa caindo mais que na média do continente. A própria pesquisa constatou a deterioração do clima econômico. Na média da América Latina, o Índice de Clima Econômico caiu 1,6 ponto entre o quarto trimestre de 2021 e o primeiro trimestre deste ano, de 80,6 para 79 pontos. No Brasil, o indicador recuou 2,8 pontos, de 63,4 para 60,6 pontos, e apresentou a menor pontuação entre os países pesquisados.

Grande parte da queda atual deve-se ao Índice de Situação Atual, um dos componentes do indicador, que reflete o acirramento das tensões internacionais e o encarecimento do petróleo no início de 2022. O outro componente, o Índice de Expectativas, continuou crescendo, tanto no continente como no Brasil, mas a própria FGV adverte que o indicador que projeta o futuro também pode deteriorar-se caso o conflito entre Rússia e Ucrânia se prolongue.

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