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"O liberal é o maior otário no mercado político brasileiro", diz Renan Santos, líder do MBL

O Movimento Brasil Livre (MBL) iniciou durante a semana suas ações que têm como objetivo final derrubar o governo de Jair Bolsonaro

Leonardo Spinelli
Leonardo Spinelli
Publicado em 13/06/2020 às 11:37
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Bolsonaro tem que cair por crimes cometidos dentro do contexto do coronavírus, diz Renan Santos, coordenador do MBL - FOTO: DIVULGAÇÃO
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O Movimento Brasil Livre (MBL) iniciou durante a semana suas ações que têm como objetivo final derrubar o governo de Jair Bolsonaro. O primeiro passo em direção aos movimentos de rua que o líder o do grupo, Renan Santos, 36, planeja iniciar em agosto, começou com uma atriz provocando o presidente na saída do Alvorada, sobre os números recordes de morte da covid-19. A tática de irritar o inimigo foi usada com sucesso durante as manifestações do impeachment de Dilma Rousseff.

Na entrevista a Leonardo Spinelli, Santos mostra que a semelhança com a campanha anti PT não ficará apenas na estratégia. A tentativa de maquiar os dados do coronavírus será o mote contra o bolsonarismo. “Bolsonaro tem que cair por crimes cometidos dentro do contexto do coronavírus. Então, a pedalada funerária vai ser a arma que a gente vai usar para derrubar ele”. O coordenador do MBL fala de sua preocupação com a tentativa de Bolsonaro conquistar “um público muito semelhante ao que apoiava o PT”. “O Centrão não é apenas para salvá-lo do impeachment.”

O Movimento Brasil Livre (MBL) despontou politicamente através do sentimento do antipetismo a partir das jornadas de junho de 2013, se consolidando com a movimentação pelo impeachment de Dilma. Em 2018, conseguiu eleger Kim kataguiri (DEM) deputado federal e Arthur do Val (Patriota) deputado estadual em São Paulo. Dois anos antes elegeu Fernando Holiday (Patriota) vereador na capital paulista. Este ano, o movimento quer ampliar a bancada nas capitais, inclusive no Recife, onde vai lançar a candidatura do advogado Pedro Jácome, que também participa dessa conversa com o JC e fala dos desafios do grupo para levar o discurso liberal ao Nordeste.

Para o ano que vem, a ideia do grupo é começar a fazer campanhas propositivas para não ficar apenas no “qual é o inimigo da vez”. Mas para isso, diz Renan, primeiro é necessário derrubar Bolsonaro. Ele não esconde seu ressentimento em relação ao que o presidente fez ao campo liberal brasileiro e vê a derrota do bolsonarismo como a chance para retomar o plano de uma “direita republicana que trabalhe dentro do sistema, tentando alterá-lo de forma gradual, bacana, jovem e provocativa”. Bolsonaro, diz ele, “trouxe tudo em forma de caricatura, piada e farsa... A direita hoje são escombros.”

Para Renan, Bolsonaro quer dar um golpe de Estado “para mamar”, enquanto cumpre o desejo de revolução do guru Olavo de Carvalho. Neste sentido, ele chama os liberais brasileiros de os maiores “otários” do mercado político brasileiro por não perceberem que o discurso do presidente em relação às armas tem muito pouco de Thomas Jefferson (um dos Pais Fundadores dos EUA) e muito de Hugo Chaves. “Bolsonaro quer armar as milícias urbanas dele”.

Renan também é crítico dos protestos da esquerda brasileira, que tentam emular o que está acontecendo nos EUA em relação ao racismo, ou no embate com a polícia através dos antifas. Também vê com ceticismo o chamado movimento “Somos 70%”. “Uma coisa tem que ficar Clara: a queda de Bolsonaro não será a reabilitação do PT.” Confira a entrevista de Renan Santos com a participação de Pedro Jácome.

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JORNAL DO COMMERCIO - O que é a nova operação que vocês estão planejando? Essa é a hora certa de entrar em manifestações dentro desse contexto de pandemia?
RENAN SANTOS - Nos últimos dois meses a gente lançou inúmeras hashtags que foram trend topics, gravamos vídeos, nos bastidores conversamos com muitos influenciadores. Só que isso não basta, houve uma precipitação, um erro ao meu ver, de precipitar o início dessas manifestações, advindas do campo da esquerda, tentando emular – e isso eu considero um erro – o que está acontecendo nos Estados Unidos. Ao longo das últimas semanas a gente começou a conversar sobre ações que podemos adotar durante a pandemia, não vamos aqui também ser parceiro do vírus, se descuidar, mas vamos mobilizar pessoas, começar a fazer as pessoas participarem do processo de queda de Bolsonaro. Sempre nesse meio termo entre não poder ter um monte de gente na rua e, ao mesmo tempo, não ficar em casa levantando hashtag, que é uma coisa importante, mas já teve a sua função. Então, a gente vai ter ações mais incisivas. Uma das ações é rua, com cara de manifestação, e outra é uma operação, do tipo que a gente também fazia na época do impeachment, para irritar o adversário que trabalha com efeito surpresa. Eles estão muito expostos em várias coisas, então a gente vai começar a atuar. E vamos começar a trazer também, dentro disso, a ideia do combate dentro do próprio campo da direita, porque o Bolsonaro quer polarizar com PT. Boa parte das pessoas que estavam insatisfeitas com Bolsonaro ficaram no impasse por conta dessa coisa de Black Lives Matter, antifa, torcida organizada. O público que é eleitor do Bolsonaro, sobretudo do segundo turno, é quem a gente precisa virar. Esse cara não gosta do tipo de linguagem política que afasta. Em São Paulo eles listaram 11 estátuas racistas para você derrubar. Aí desculpa, t********** velho, é pra derrubar o Bolsonaro ou a estátua de Borba Gato? É uma coisa completamente non sense, a população não vai, a classe média que se manifesta politicamente não vai aderir a isso.

JC - Além da questão dos antifas, nós também temos um movimento que veio agora que é o Somos 70%. O MBL vai se juntar a esse movimento, acredita nessa mobilização mais ampla?
RS - Essa pergunta é mais complexa porque o campo da esquerda está todo dividido, todo fraturado. Estão se matando entre si, e é bom que se matem, porque ninguém vai sair do campo da centro-direita, nem da direita, para sair junto com PT na rua. Isso tem que ficar claro. Os limites têm que ser impostos e o que eu vejo no campo da esquerda é a tentativa de retomar o diálogo com a classe média que ela perdeu por conta do antipetismo nos últimos anos, usando o discurso dos 70%, só que repetindo os clichês da esquerda. Saiu o vídeo promocional dos Nós somos 70% narrado por aquele Eduardo Moreira, que é um economista cirista. Xinga todo mundo do campo da direita. É agressivo, estilo Ciro Gomes mesmo, falando que quem não está com eles é terraplanista, é 30%, usam imagem de campanha do PT, imagem de arquivo, provavelmente alguém cedeu da campanha do Lula a pré-candidato em 2018. É um negócio assim, que não não vai colar. Eles agora estão no tesão anti-bolsonarista, que é um fenômeno. “Vamos então liderar um processo amplo”. Mas nós não vamos ser liderado por ninguém dessa turma, a gente pode sentar altivo e conversar, construir uma agenda de frente ampla. Legal porque todo mundo quer derrubar bolsonaro, então a gente coloca a diferença de lado, mas uma coisa tem que ficar clara: a queda de Bolsonaro não será a reabilitação do PT, não será a reabilitação de que Dilma sofreu um golpe e de que Lula foi preso de forma injusta. A queda do Bolsonaro tem que ser a queda do Bolsonaro. Um homem maluco que está tentando dar um golpe de estado e aparelhando a máquina do Estado, tratando uma pandemia como se fosse brincadeira. Esse homem tem que ser afastado, enxotado e, se possível, preso pelos crimes que todo mundo acha que ele cometeu, caso sejam provados. De resto, se eles querem contar conosco para reabilitar narrativa deles, aí é cada um por si e Deus por todos.

A queda de Bolsonaro não será a reabilitação do PT, não será a reabilitação de que Dilma sofreu um golpe e de que Lula foi preso de forma injusta. A queda do Bolsonaro tem que ser a queda do Bolsonaro. Um homem maluco que está tentando dar um golpe de estado
Renan Santos

JC - A gente tem os 30% do PT, os 30% de apoio a Bolsonaro. O MBL estaria em que percentual?
RS - Eu gosto de ver quem votou na última eleição. Em Bolsonaro, 25% dos 57 milhões de brasileiros que votaram nele já consideram o consideram ruim ou péssimo. Quando a gente faz o recorte desses 25%, são pessoas que moram nos grandes centros urbanos, em geral têm uma escolaridade maior e são de renda média. Ou seja, é a classe média escolarizada que basicamente participou das manifestações contra o PT e tem uma agenda anticorrupção. Esse é, em essência, o público que a gente trabalha. Você pega influenciadores desse campo da direita, tem muitos youtubers e tal. É um público que a gente vem operando, que começou a ver as contradições do Bolsonaro. Desde o ano passado, é um público que já foi derretendo. Então, você tem esse público que faz ali próximo de 15 milhões de pessoas. Você também tem as pessoas que consideram o governo dele regular, completando a metade de seus eleitores que o consideram de ruim a regular. Esse regular é que a gente precisa pegar. Eles, eventualmente, podem até voltar a gostar de Bolsonaro, mas a gente precisa da porta de saída para esses caras. Não chamá-los de terraplanistas ou que são os 30% que não prestam no Brasil. Então, a conta que os outros estão fazendo (a esquerda), está totalmente errada. A gente tem que saber qual é a linguagem para pegar esses caras. O discurso de Bolsonaro ainda pode funcionar para esse cara que tem expectativa de combate à criminalidade, uma parte disso aí acha que a bolsa de R$ 600 fez bem, então a gente tem que entender quem a gente quer abordar e a gente tem que levar a mensagem...

JC - O coronavoucher já trouxe um novo grupo de apoio a Bolsonaro...
RS - Exato. O Bolsonaro começou a crescer no Nordeste, coisa que era impensável. Por que está pegando um eleitorado que o Lula tinha. Saiu uma pesquisa do Big Data, não foi divulgada mas eu tive acesso à ela, e esse crescimento que o Bolsonaro está tendo nas camadas mais populares, e também no Nordeste, é porque essas pessoas acham que o coronavoucher é um benefício que vai continuar, passam a achar Bolsonaro um cara legal, que ainda faz piada e é temente a Deus. A gente sabe o caminho que Bolsonaro está adotando, não vai ser tão fácil essa virada como as pessoas imaginam. Isso sempre tem que estar em perspectiva.

JC - Vocês lançaram recentemente o Centrômetro, dedicado às indicações políticas de Bolsonaro ao Centrão. Qual o objetivo?
RS - O plano de Bolsonaro é mudar de público. Ele sabe que perdeu a classe média mais escolarizada que, basicamente, o elegeu. Ele quer ir para um público muito similar ao que o PT tinha. Então, você ter o Centrão operando com você, especialmente nos rincões, com prefeito, vereadores… Essa base de apoio ali no Congresso não é só para evitar o impeachment, é fundamental porque você cria políticas públicas voltadas para isso. Você tem um Pro Brasil, o plano que eles estão montando para obras, é tipo o PAC do PT. Acaba criando uma parceria com essas lideranças regionais. Então, o Centrão tem que ser encarado não apenas como cooptação para salvar o Bolsonaro do impeachment, mas também como um novo modelo de governo, que Bolsonaro quer adotar daqui para frente para a reeleição. Algo confirmado pelo Paulo Guedes, inclusive, naquela reunião do dia 22 de abril. Então, a gente tem esse novo desenho de governo baseado na cooptação dessas lideranças, coronéis, líderes regionais. E se a gente não começar a denunciar e tornar isso público, de forma diferente como aconteceu na época do PT, que as coisas iam acontecendo, e com Temer também, isso vai rolar. Então o Centrômero foi muito bom porque agora está ficando claro e a gente está atualizando e estamos recebendo muitas denúncias. A gente está fazendo parceria com site jornalísticos, se a gente recebe as denúncias, joga para um veículo de imprensa, checa e solta a notícia. A gente vem recebendo ligação do pessoal da Eletrobras, já recebeu ligação do pessoal do MDB, tem deputado enchendo o saco do Kim Kataguiri (DEM-SP) para que isso vire um objeto de pesquisa. A gente ainda vai melhorar o centrômero, vai virar um perfil no Twitter. O Centrômero está funcionando legal, está gerando uma coisa para o Kim que é maravilhosa. Deputados do Centrão que ficam com ciúmes das nomeações falam dos colegas, querendo furar o olho deles.

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Renan Santos, coordenador do MBL - DIVULGAÇÃO

JC - O MBL hoje é diferente de antes da eleição, vocês agora têm uma bancada e romperam com Bolsonaro. O que é hoje o MBL, qual a pauta do movimento? Vocês vão defender Sergio Moro, vão ser moristas?
RS - Não. O MBL vai ser MBL. A gente tem erros cometidos, ainda que desse mal bolsonarista a gente não padeça. A gente nunca foi bolsonarista. A gente vai ter um papel, não só de não virar morista, até porque não é natural para a gente essa opção, apoiar candidatura de Moro, como vamos combater quem começar com esse puxa-saquismo. A gente viu várias pessoas, deputados inclusive do PSL, que estavam abandonados por bolsonaro e agora encontraram uma tábua de salvação, “agora sou Moro”, como macaco pulando de galho em galho. A gente tem um trânsito bom com uma boa parte dos candidatos. Não sei se Mandetta vai ser candidato, mas a gente tem um trânsito bom com o ex-ministro, com Sérgio Moro também, com Amoêdo. A gente já sabe da função que vamos ter no ano que vem, vamos organizar prévias no campo da direita, fazer eventos ao redor do Brasil com todo mundo que é pré-candidato a presidente. Chamar gente dentro desse campo, fora os malucos do bolsonarismo, o Coronel não sei das quantas, o tenente fulano. Vamos debater, Mandetta, Moro tem até o João Dória. Vamos fazer um ciclo de palestras e debates, sabatinas com a imprensa, dentro dos valores que a gente acredita, que são mais ou menos os mesmos valores que essas pessoas acreditam. Um vai ser mais conservador, outro vai ser mais agenda anticorrupção, outro vai ser mais liberal. E aí a gente debate numa forma propositiva, fazendo um espetáculo bom e não ficar sempre assim no “qual é o inimigo da vez?”. O imperativo Bolsonaro dentro do campo que a gente trabalha tem que ser superado. Ele fez um mau gigante, ele acabou com toda a agenda que a gente defendeu durante todos esses anos, absolutamente toda. Trouxe tudo em forma de caricatura, piada e farsa. Então, é uma desgraça. A gente vai ter um trabalho de reconstrução gigante. Então, esse MBL hoje que tem deputados, a gente acha que vai ter um bom desempenho nessa eleição de 2020, vamos ter vários candidatos a vereador. Membros do MBL vão sair candidatos a vereador…

JC - Você vai se candidatar?
RS - Não, minha função não é essa. Minha função é isso aqui que eu estou fazendo.

JC - O que é a direita brasileira, como o MBL enxerga a direita?
RS - A direita hoje são escombros. É um prédio demolido, com algumas boas pessoas que sobreviveram à implosão e que estão dispostas hoje a construir. No nosso filme, Não vai ter Golpe, tem um livro também, a gente queria que o impeachment da Dilma fosse o marco inicial de uma direita republicana, que deixasse para trás todo esse discurso da época do período da ditadura, que entendesse o processo político e fosse espetaculosa, combativa, agressiva quando necessário, porque a direita no mundo inteiro ficava apanhando calada da esquerda. Esse é um fenômeno que já parou. O populismo, inclusive, virou o jogo e até exagerou na dose. Mas a gente queria criar essa direita, republicana, muito mais liberal, que tenha um diálogo com os conservadores e liberais progressistas também, ou seja, fazer esse meio campo que dialogue, que saiba conversar numa boa. De um Daniel Coelho (Cidadania-PE), que está num campo bem mais progressista em muitos sentidos, prum Marcel Van Hattem, do Partido Novo, que é um cara mais conservador, às vezes até com uns flertes bolsonaristas. A gente quer uma direita republicana que trabalhe dentro do sistema, tentando alterá-lo de forma gradual, bacana, jovem, provocativa… Essa é a direita que a gente tenta construir e acho que a implosão do bolsonarismo é boa para isso.

A direita hoje são escombros. É um prédio demolido, com algumas boas pessoas que sobreviveram à implosão e que estão dispostas hoje a construir
Renan Santos

JC - Quanto liberal você é nos costumes, em relação às drogas, aborto…
RS - Eu não compro o pacote fechado. Eu tendo a ser favorável à legalização de drogas leves. Aborto acho que a nossa legislação é boa. É permitido em três casos essenciais: bebês anencéfalos, risco à vida da mãe e estupro. A sociedade, 80% da população, considera isso um assassinato e talvez não ache válido financiar, via impostos, algo que ela considera absolutamente imoral. Eu acho a legislação atual boa. Não acho que tem que recrudescer, como conservadores querem e Damaraes (Alves, ministra) imagina. Mas também não sou do libera geral, que as pessoas vão financiar, via SUS, algo que elas consideram assassinato.

JC - E armamento?
RS - Eu acho que é muito similar ao que eu penso sobre drogas. Você tem que ter uma legislação que tem que ser minimamente restritiva. Acho que o cidadão tem que ter autonomia para comprar um equipamento, arma para ter na casa dele. Eu só tenho restrição ao porte. Mas a posse eu acho que é essencial, é extensão de um direito fundamental.

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Para Renan, Bolsonaro quer dar um golpe de Estado <aspas>para mamar<aspas>, enquanto cumpre o desejo de revolução do guru Olavo de Carvalho - EVARISTO SA / AFP

JC - E o que você acha da declaração de Bolsonaro sobre armar a população para protegê-la da tirania? Naquela declaração você vê a segunda emenda da constituição americana ou vê Hugo Chaves e suas milícias?
RS - Boa parte do movimento liberal brasileiro, que eu tenho vergonha de ter feito parte disso, acha lindo. Vêem o Thomas Jefferson ali, vendo Bolsonaro falando, ”Ah! Como Bolsonaro é incrível, o cidadão armado contra um tirano”... Bolsonaro quer armar as milícias urbanas dele, com esse pseudo-movimento de ir pra cima de guarda civil metropolitano, policial militar, quando não com apoio de PMs cooptados por eles, que acontece em todos os Estados. Eu converso com governadores e muitos me relatam que têm problemas no baixo oficialato, sim. Conseguem controlar, mas se fosse depender do coração dos caras, estavam pequenos setores da polícia nas manifestações. A gente nunca pode tirar de perspectiva: Bolsonaro quer um golpe de estado, não tanto quanto o Olavo, porque o Bolsonaro quer mesmo é mamar. Bolsonaro quer ser bajulado, quer mamar, reeleger os filhos dele e quer que as pessoas obedeçam as ordens dele. Ele quer que as pessoas abram a porta do carro dele. Ele adora isso. Eu conheço muito o Paulo Marinho, que denunciou ele agora. Paulo Marinho sabe desse lado pessoal dele. Mas o Olavo, não. Ele não está aqui pra isso. Ele quer revolução, sempre quis. Ele tentou cooptar o MBL para fazer revolução. Tem grandes brigas conosco porque ele queria que em 2015 se fechasse o Congresso. Em 2016, quando saiu o áudio do Lula, que Moro liberou, uma das coisa que fizemos foi ir pra Brasília. Ele queria que a gente fosse pra fazer quebra-quebra. O olavismo não tinha força, mas eu via e sentia que naquela época se a gente falasse, vamo invadir, clima de 2013, tinha o cenário perfeito que Olavo queria. A gente foi lá para segurar a onda para as pessoas não fazerem loucura. Olavo nunca nos perdoou. Nunca fomos amigos, mas ele nos vê como inimigos centrais, porque a gente não defendeu um golpe de estado em 2015, 2016. Ele está tentando isso agora. Ele vocaliza e é notório. Quando Bolsonaro fala isso das armas, ele está apenas obedecendo um plano central que é da turma que controla o governo dele. E o liberal otário vai cair. O liberal é o maior otário no mercado político brasileiro.

Quando Bolsonaro fala isso das armas, ele está apenas obedecendo um plano central que é da turma que controla o governo dele. E o liberal otário vai cair. O liberal é o maior otário no mercado político brasileiro
Renan Santos

JC - A manipulação dos dados de mortes da covid-19 lembra a contabilidade criativa, as pedaladas de Dilma, e já tem jurista falando que essa tentativa de maquiar dados pode ser enquadrada também como crime de responsabilidade. Quais são as semelhanças que você enxerga nos dois casos?
RS - Em certa medida é a mesma coisa. Tanto acho que o impeachment do Bolsonaro tem que ser construído em cima disso: sonegação de informações, manipulação de informações, uso de servidores públicos para trabalhar na sonegação da transparência e sabotagem no combate à covid-19 no Brasil. Todos os temas de impeachment que a gente entrou, que a esquerda entrou, são temas um tanto vagos para o cidadão comum. A pedalada fiscal era um tema complicado, mas ela aparecia como Dilma mexendo bilhões e juntava com roubalheira em estatal, aquilo se ligava com o escândalo. Isso que está acontecendo agora do coronavírus é muito emblemático para simbolizar. O Bolsonaro tem que cair por crimes cometidos dentro do contexto do coronavírus. Então, a pedalada funerária, inclusive esse termo foi colocado num artigo de um amigo nosso no Globo, Carlos Andreazza. Então eu também uso esse termo. A pedalada funerária vai ser a arma que a gente vai usar para derrubar ele. A gente está no MBL com uma equipe com uns 15 moleques e juristas, grandes mesmo, para operar o pedido de impeachment baseado nisso. E também vamos chamar o pessoal da esquerda para fazer um pedido definitivo, focado nessa questão do coronavírus e da pedalada funerária..

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Pedro Jácome, advogado integrante do MBL - DIVULGAÇÃO

JC - O primeiro pedido de impeachment de vocês foi com base em que argumento?
PEDRO JÁCOME - Interferência na Polícia Federal, a questão do artigo 142, interferência nos demais poderes e falsidade ideológica por usar a assinatura de Moro na demissão do delegado da PF a pedido, quando não foi a pedido. Não teve autorização de Moro.

JC - Então você acha que o argumento da pedalada funerária é mais forte que o da interferência na polícia federal e de outros pedidos que têm as fake news como argumento?
RS - Eu acho. Muitas pessoas na sociedade civil estão falando isso, vindo de focos diferentes. Agentes do campo da esquerda estão falando a mesma coisa. Num grupo nosso interno do MBL estávamos tratando disso. Não adianta, é esse o foco. Todo mundo está vindo com pequenos elementos, um é fake news, outro é Bolsonaro insuflando manifestações golpistas. Beleza, mas pedalada lembra Dilma, as mortes do coronavírus estão muito óbvias e a ação desumana de Bolsonaro neste processo também está muito óbvia.

JC - Mas para ter impeachment precisa de povo nas ruas e a gente não tem ideia de quando pode chegar uma vacina que efetivamente vai pode liberar as pessoas de casa. Como vai ser impeachment sem povo na rua?
RS - Acho que vai ter que ter povo na rua. Não agora, acho que vamos ter que, primeiro, fazer uma transição, com ações intermediárias. Mas a gente vai ter que organizar fórmulas de manifestação que sejam substanciais, que tratem da questão do coronavírus para os próximos meses. Estamos em junho, talvez agosto tenhamos que ter uma ação mais efetiva nas principais cidades onde o coronavírus começou a reduzir a mortalidade. A gente vai ter que ver uma transição. A questão é que estamos vivendo uma pandemia, uma peste, com um maluco no poder e causa mais mortes manter o Bolsonaro lá do que, eventualmente, aglomerar algumas pessoas. É um cálculo utilitário cruel, mas absolutamente verdadeiro. A maior parte das pessoas, quando fazem esse julgamento, tem que levar a sério, porque, na verdade, temos um psicopata no poder, que faz cálculo sobre qualquer coisa e o principal cálculo dele agora é se as mortes o atrapalham. “Eu sumo com alguns cadáveres, mas não com a doença.”

JC - Bolsonaro se coloca com apoio das forças militares e tem um suposto apoio dos PMs. Isso é um fator de risco nos protestos contra o presidente?
RS - Depende. Manifestações pacíficas que tenham forte presença daquelas mesmas pessoas que estiveram nas ruas a favor da prisão do Lula, da Lava Jato e do impeachment da Dilma, a PM não vai ter o que fazer, se ela realmente quiser tomar um lado. Vai ficar extremamente constrangedor. A gente sabe disso porque a gente já protocolou alguns atos em São Paulo e a PM gosta da gente. A questão é o acirramento que está sendo criado. Essas manifestações, e a gente tem que dar nomes aos bois, estão sendo colocadas pelo PSOL, com esses movimentos Antifas, que tem o conflito com a polícia como tônica. Essas vão dar problema, mesmo que o presidente não fosse o Bolsonaro. São dois problemas. Manifestações que tenham a polícia como adversária, tem vídeos rolando no Youtube de um cara contra a polícia, dizendo que a polícia é racista aqui, quando todo mundo é pardo na Polícia de São Paulo, fica repetindo esse discurso. Beleza. É a lógica que eles querem seguir para simular o Black Lives Matter, é uma coisa. A outra coisa são setores da polícia simpáticos ao Bolsonaro e que, eventualmente, tomariam parte nisso. Essas duas coisas poderiam se cruzar, você tem a polarização entre esses movimentos e o presidente. Mas essas coisas tendem a não operar no caso de a gente trazer manifestações pacíficas com as pessoas, e famílias nas ruas, com a PM não sendo tratada como adversária. Então, aí está neutralizado. Então a gente aí acaba com Bolsonaro, é o que falta. O público que basicamente é identificado como ex-eleitor de Bolsonaro se junta e fala. “A gente não quer esse vagabundo no poder. É xeque-mate e tchau!”

MARCELLO CASAL JR./AGÊNCIA BRASIL
Moro errou ao entrar no governo, erro estratégico crucial para a carreira dele e afundou a Lava Jato sim, avalia Renan - MARCELLO CASAL JR./AGÊNCIA BRASIL

JC - A ida de Moro para o governo terminou enfraquecendo a lava jato? E a entrada do Centrão no governo Bolsonaro, o Paulinho da Força foi condenado a 10 anos, isso termina reavivando a Lava Jato?
RS - Obviamente o Moro errou ao entrar no governo, erro estratégico crucial para a carreira dele e afundou a Lava Jato sim. O que o Bolsonaro gostaria de ter era a própria Lava Jato, vinculada a ele, servindo aos interesses dele. Que a gente não se iluda. Ele vai tentar operar isso. Essa substituição que ele fez na Polícia Federal foi isso, inclusive os influenciadores bolsonaristas, tão logo houve a interferência na PF, e teve a operação que pegou o Witzel, eles viram que poderiam ter a própria operação Lava Jato. Ou seja, uma Lava Jato bolsonarista. É uma operação para pegar ladrão também, mas é uma operação de Estado, de governo, para atender os interesses de Bolsonaro. Então, não vejo relação na condenação de Paulinho e, mesmo o PGR pegando o Artur Lira, eu não vejo relação com o retorno da Lava Jato. Essa história do Lira foi terrível para a articulação de Bolsonaro e também não vi isso com Paulinho, que também está na base do governo. Para Bolsonaro, tudo isso foi muito ruim. Então eu acho que, não sei se dá para dizer que são casos fortuitos, às vezes é o próprio STF punindo a turma hoje que está se juntando a Bolsonaro. Nós temos que nos lembrar que, se há um establishment, e esses agentes se conversam entre eles, representado na Câmara pelo Rodrigo Maia. Você pega Artur Lira e outros para se tornarem dissidentes desse establishment, para ir operar com Bolsonaro, eles também vão ser punidos, passam a não depender de eventuais bons acordos e boas parcerias que eles têm com esse establishment. Pelo menos é a leitura que eu faço. Eventualmente pode estar vindo aqui uma punição, por isso que estou falando aqui de um caráter meramente especulativo, com base no que eu conheço.

JC - Nordeste é uma base da esquerda, muito pelo Bolsa Família. Agora vem o coronavoucher e a tentativa de Bolsonaro de ampliar essa ajuda. Como vender a visão da direita, da lógica do mercado, para essas pessoas que ainda dependem muito da presença do Estado?
RS - A região é onde a direita mais cresce na opinião do eleitorado. O share era tão pequeno antigamente, que hoje a coisa prospera numa velocidade maior do que, por exemplo, em SP, onde a gente está até num refluxo, onde as classes médias vão flertar até mais com o progressismo. Agora é o momento de separar. Bolsonaro pra lá, a gente pra cá e criar um discurso divergente, competitivo. É dividir para crescer. Uma coisa para gente era clara de que, quanto mais a gente polarizasse com Bolsonaro, mais a gente ia perder seguidores bolsonarista que nos apoiavam, mas também ia fidelizar aqueles que viam os exageros do Bolsonaro, mas não tinham voz para representar. Hoje, por exemplo, a gente tem uma política de grupos de Whatsapp, a segunda maior rede, só perde para as redes bolsonaristas. No Nordeste ela está fervendo,. grupos e mais grupos.. Pessoal ativo e ávido por aprender. Esse trabalho vai ter que culminar como fizemos no Sudeste, com lideranças qualificadas como Jácome. As duas melhores cabeças do MBL é Jácome e Ricardo, que roubamos da Bahia. Mas Jácome vai continuar aí no Recife para levar a nossa mensagem nessa polarização com o Bolsonaro, buscando o público certo.

PEDRO JÁCOME - Eu acho a gente tem que ter noção das nossas armas. Achar que vai ter capilaridade no sertão do Piauí, que é uma região muito frágil economicamente. Temos que fazer um discurso gradual. Eu, por exemplo, tenho família em Itambé, e a grande parte do pessoal lá vive do Estado. Então, você não pode ter um discurso a cavaleiro, chegar de uma hora para outra. Mas estamos fazendo um bom trabalho, de debate com a classe média, jovens de 16 a 45 anos, a gente tem um boa penetração. E, sobretudo, é uma coisa que o Renan me iluminou. No Nordeste a esquerda está muito ligada ao coronelismo, como é a questão das famílias Arraes Campos. Acho que essa tradição coronelista vai de encontro à própria vocação libertária do povo Nordestino, e eu falo muito em especial ao pernambucano e recifense. Quando a gente se coloca, não só contra o estatismo, mas contra o familismo, o patrimonialismo, a gente corre bem nisso. As classes médias estão cansadas, especialmente as urbanas das capitais, de serem tratadas como uma ocupação a ser liderada por gerações de um determinado grupo político. Acho que, sobretudo, vai ser a marca da da nossa campanha, a luta contra o familismo e patrimonialismo. Quando a gente vê no Recife que o que se coloca é uma disputa entre um Arraes e um Campos, é melhor esquecer o TSE e decidir a sucessão na vara de família, virou briga de família.

 

Bobby Fabisak
Se Daniel Coelho sair candidato, nós vamos dar o nosso apoio a ele, diz Pedro Jácome, pré-candidato a vereador no Recife - Bobby Fabisak

JC - Vocês já têm candidato aqui?
JÁCOME - Sou pré candidato a vereador pelo Cidadania e, teoricamente, se Daniel Coelho sair candidato na prefeitura, vamos dar o nosso apoio. Temos uma relação ótima com Daniel, Priscila Krause, Mendonça Filho. E a busca do recife, é a busca da unidade da oposição, para tirar a esquerda do poder. Não só pelo conflito ideológico, mas são 20 anos. Dá fadiga de material, você cansa. Então vamos estar com alguém da oposição, mas nosso papel não será o de estar a reboque de uma liderança política. Vamos estar amplamente construindo o caminho de oposição e enfrentamento combativo à oligarquia Arraes Campos e contra essa parceria PT/PSB, muito mais incisiva do que nas candidaturas oficiais. É nosso estilo. A gente entra na política sem ter cargos. famílias, grandes rendimentos. A gente entra porque gosta. Sou profissional liberal, sou advogado. A gente entra porque a gente acredita que precisa fazer sentido. Entramos com vontade de fazer gol.

JC - O que vocês acham do bolsa família?
RS - Eu gosto. A gente tem que ter um horizonte de porta de saída que não foi resolvido. desde 2004. Tem gerações vivendo do Bolsa Família, mas, como programa é melhor do que os programas focados, específicos numa máquina pública gastando. As pessoas gastam melhor é um princípio liberal. Guedes percebeu isso e quer tornar o coronavoucher em política permanente, de olho na questão eleitoral.. Mas como movimento, somos favoráveis..


JÁCOME - Eu inclusive acho que, se houvesse redução nos gastos do estado, o bolsa família poderia até ser ampliado.. Acho que deveria ser colocado com uma legislação constitucional para evitar ser usado como base de governo. Ter uma base de estado. O cara que está Faria Lima não imagina o Sertão do Seridó. É preciso ter essa compreensão de Brasil. É melhor assim do que botar na mão de um gestor público que vai gastar muito mais do que 300 por pessoa e não vai resolver.


RS - A gente tem uns liberbobos.. Sem o básico do básico, não tem liberdade de escolha. Hoje a gente tem pessoas que estão completamente alijadas, não têm o menor poder decisório sobre a vida deles. É um negócio arcaico e desumano que o bolsa família foi , gostem ou não. Veio do lula, do FHC? Não importa. A questão é que tem que ser política de estado.

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Quando a gente vê no Recife que o que se coloca é uma disputa entre um Arraes e um Campos, é melhor esquecer o TSE e decidir a sucessão na vara de família, virou briga de família, diz Pedro Jácome, advogado integrante do MBL - FOTO:DIVULGAÇÃO
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"O plano de Bolsonaro é mudar de público. Ele sabe que perdeu a classe média mais escolarizada que, basicamente, o elegeu. Ele quer ir para um público muito similar ao que o PT tinha" - FOTO:DIVULGAÇÃO
EVARISTO SA / AFP
Para Renan, Bolsonaro quer dar um golpe de Estado para mamar, enquanto cumpre o desejo de revolução do guru Olavo de Carvalho - FOTO:EVARISTO SA / AFP
MARCELLO CASAL JR./AGÊNCIA BRASIL
Moro errou ao entrar no governo, erro estratégico crucial para a carreira dele e afundou a Lava Jato sim, avalia Renan - FOTO:MARCELLO CASAL JR./AGÊNCIA BRASIL

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