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Felipe Carreras e Tulio Gadelha explicam suas divergências com PSB e PDT

Os dois são exemplos de personagens que protagonizaram embates internos que esgarçaram a relação partidária, mas não se traduziram em elementos suficientes para provocar um rompimento definitivo

Luisa Farias
Luisa Farias
Publicado em 22/01/2021 às 22:10
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Deputados federais Felipe Carreras (PSB) e Túlio Gadêlha (PDT) - FOTO: Reprodução
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Os deputados federais Felipe Carreras (PSB) e Túlio Gadêlha (PDT) são exemplos de personagens que protagonizaram embates internos que esgarçaram a relação partidária, mas não se traduziram em elementos suficientes para provocar um rompimento definitivo, pelo menos até então. 

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Para a cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (Facho) Priscila Lapa, o principal motivo para garantir a permanência de um ator político a o partido é o nível de intervenção que essa pessoa julga ter nas decisões partidárias ou quando o partido dá liberdade para que ele atue sem que sofra intervenções. 

"Apesar de divergências, de em alguns momentos, a pessoa ter suas percepções divergentes daquelas do partido, se ela permanece, é porque ela ainda enxerga que naquele estrutura de legenda tem espaço para o exercício da sua carreira política. Nesse cálculo, as vezes a permanência é mais vantajosa apesar dessas divergências. Mas isso por quê? Ou por simpatia que o eleitor já tem com o partido, por causa de diretórios de outros municípios que esse político já tem uma interlocução, seja porque nacionalmente ele tem uma ascendência dentro da legenda que as vezes localmente ele não tem. São uma série de pequenos cálculos que são feitos", explica. 

Felipe Carreras

Desde o voto favorável à reforma da previdência na Câmara dos Deputados, em 2019, onde o PSB fechou questão para que a bancada votasse pela reprovação do projeto, o deputado federal Felipe Carreras continua adotando um tom divergente de seu partido sobre alguns temas.

O socialista, que teve suas prerrogativas como parlamentar suspensas por seis meses, como punição do partido, fora os embates públicos com o presidente nacional do PSB Carlos Siqueira, agora aponta diversas incoerências no discurso adotado pelo Diretório Nacional sobre a votação para à presidência da Câmara. De acordo com a recomendação, nenhum dos deputados do partido deve votar “em hipótese alguma” em um candidato do governo federal. O PSB declarou apoio ao deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), no entanto não há consenso, e alguns parlamentares socialistas votarão no deputado Arthur Lira (PP-AL), candidato preferido pelo Palácio do Planalto.

Mais uma vez, Felipe Carreras defende uma ideia contrária ao comando do partido, e tem expressado esse posicionamento de forma pública, nas redes sociais. Ele afirma que permanece sendo oposição, mas que o candidato indicado pelo presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) também tem uma atuação alinhada com a bancada governista, além de ressaltar que essa é uma questão que deve ser restringida aos deputados e não às lideranças partidárias.

Recentemente, o PSB, PT, PDT e PCdoB, apresentaram um novo pedido de impeachment contra o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido). Carreras, novamente por meio de suas redes sociais, se posicionou contrário à introdução dessa discussão neste momento. “Respeito quem pensa diferente, mas falar sobre impeachment num momento que o país se prepara para iniciar um momento histórico da vacinação é um desserviço. O foco total agora é na vacinação e salvar vidas. Vou cobrar do governo federal a distribuição e a imunização do povo”

Nos bastidores, há quem enxergue essa postura divergente como uma forma de ampliar as negociações internas de poder dentro do partido. Antes de se eleger deputado federal, Felipe Carreras foi secretário de Turismo e Lazer, no primeiro mandato do ex-prefeito Geraldo Julio (PSB), depois assumiu a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Estado, na gestão do governador Paulo Câmara (PSB). Com a vitória de João Campos para Prefeitura do Recife, havia uma expectativa que nomes ligados ao ex-secretário pudessem ser contemplados nas pastas de Turismo e Esportes, o que não ocorreu, e os espaços foram indicados pelo PSD e Solidariedade, respectivamente.

Outros socialistas afirmam que Felipe Carreras tem um histórico orgânico dentro do partido e que é natural o parlamentar “ter uma liberdade de manifestação, posicionamento e fala”. “Isso é parte do processo democrático, agora, é claro que dentro dessa conduta, também tem que ter consonância com o partido. Se você está dentro de um partido, você admite que ele representa o mesmo pensamento político que o seu”, afirmou um socialista, em reserva.

Em entrevista ao JC, Felipe afirmou que não tem pretensão de sair do PSB, mas deixa o recado: “não sou um avatar pilotado pelo partido”. “Minha história dentro do PSB é muito maior do que momentaneamente quem está ocupando o partido. Quando eu entrei no partido, quem presidia era Miguel Arraes, depois trabalhei diretamente com Eduardo Campos, que também foi presidente. Não é por conta de um momento em que se adota uma postura, radical, extremista e antidemocrática, que não vou me posicionar”, afirmou Carreras. A fala acaba por evidenciar que as rusgas entre o parlamentar e a direção nacional, hoje comandada por Carlos Siqueira, ainda não foram superadas.

“Posso pagar um preço caro sobre isso, mas prefiro perder voto do que coerência”, destacou o socialista pernambucano. No caso da Reforma da Previdência, ele ressalta que a versão a qual ele foi favorável já era bem diferente da original apresentada pelo governo de Bolsonaro, que tinha pontos que segundo ele, eram inegociáveis, como a capitalização. 

“No sistema político eleitoral do nosso país, a maioria dos votos são depositados no candidato, o eleitor dá seu voto de confiança e credibilidade naquele candidato. É óbvio que se ele está filiado a uma legenda, é porque está de acordo com o conteúdo programático do partido, mas quem é cobrado é candidato”, argumenta Carreras, sobre seus posicionamentos, muitas vezes divergentes do partido.

Túlio Gadêlha

O deputado federal Túlio Gadêlha (PDT) está desempenhando o primeiro cargo eletivo na sua trajetória política, mas já tem participação ativa no PDT, seu primeiro e único partido, há 13 anos. Ele assumiu a a presidência do diretório do Recife em fevereiro de 2020, quando sua pré-candidatura á Prefeitura do Recife já estava sendo ventilada. 

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Ao longo de 2020, ele recebeu sinalizações positivas tanto do presidente nacional Carlos Lupi quando o vice-presidente, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes. Mas o cenário tomou outros rumos de lá pra cá e Túlio hoje é considerado dissidente.

Depois que o deputado fez o lançamento oficial da sua pré-candidatura a prefeito, em julho de 2020, a então secretária de Habitação do Recife, Isabella de Roldão, hoje vice-prefeita do Recife, também colocou-se como pré-candidata.  

Em setembro, Túlio anunciou sua desistência do pleito alegando atender um pedido da Direção Nacional para manter a aliança entre PDT e PSB no Recife e assim evitar rompimento em ao menos 40 municípios brasileiros com mais de 200 mil habitantes. Ele chegou a indicar um aliado, Rodrigo Patriota, para ser vice de João Campos (PSB), mas o nome não foi bem recebido pela postura crítica ao PSB que ele adotava. 

O PDT estadual é presidido pelo deputado federal Wolney Queiroz (PDT), aliado do governador Paulo Câmara (PSB), que seguiu fiel a ele na eleição de 2018 mesmo quando o PDT integrou a chapa adversária, de Maurício Rands, que tinha como candidata a vice Isabella de Roldão, hoje vice-prefeita do Recife. A indicação de Isabela em 2020 para ser vice de João consolidou a aliança entre os dois partidos. 

No segundo turno, Túlio decidiu apoiar a candidatura de Marília Arraes (PT) à Prefeitura do Recife, o que lhe rendeu a destituição do cargo de presidente municipal, cargo que passou a ficar sob a alçada de Wolney. Quando veio ao Recife para participar da campanha de João Campos, Lupi chegou a afirmar que no partido não há "espaço para traíras", sem citar o nome de Túlio. 

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Ao JC, Túlio sacramenta: Todas as minhas divergências com o PDT giram em torno da falta de democracia interna". "Não é uma questão eleitoral, pontual, de interesse pessoal ou de projeto político e sim uma questão mais ampla de democracia interna que falta nos partidos políticos no Brasil", completa. 

Um dos grandes problemas no PDT, segundo ele, é o fato das direções estadual e municipal do partido ser em na verdade uma Comissão Provisória, órgão designado pela Executiva Nacional, e não um diretório eleito pelos filiados. 

"Todos esses anos a gente sempre provocou o partido a realizar eleições internas e eleger os diretórios municipais e estadual, a realidade é que o PDT de Pernambuco existe há mais de 25 anos em condição de comissão provisória. E a comissão provisória em qualquer partido, é muito ruim, porque é um partido que tem dono, que não escuta os seus filiados", alertou. 

Na avaliação de Túlio, a falta de democracia interna ocasiona distorções como a que ocorreu no Recife em 2020, quando apesar de ter recebido incentivo para se candidatar, o pleito acabou sendo rejeitado posteriormente. "Eis ai o grande problema de ter partido democrático, que funciona com base na decisão de um ou de outro. A medida que a pessoa muda de opinião, o direcionamento político das alianças muda. As alianças deveriam acontecer de maneira madura discutindo um programa, aprofundando as teses e isso deveria acontecer nos partidos político", argumenta. 

Para Wolney Queiroz, é necessário avaliar separadamente os casos em que a posição dos parlamentares são divergentes das orientações partidárias. Ele cita a Reforma da Previdência, em que muitos partidos, como o PDT, fecharam questão sobre a bancada votar contra a aprovação.

“No Recife, aconteceu algo parecido nas eleições, porque ocorreu dentro de uma estratégia nacional, envolvendo a candidatura de Ciro Gomes em 2022. Então, a desobediência em afrontar aquela decisão que foi tomada como uma estratégia nacional do partido, foi algo que impressionou”, declarou Queiroz.

Além da destituição do comando provisório municipal do Recife, e da vice-presidência estadual do PDT, Túlio Gadêlha poderá ter outras consequências em relação à resistência em desistir da sua candidatura a prefeito e, posteriormente, declarar apoio a candidata Marília Arraes (PT). “Essas questões não são colocadas pelas instâncias locais, mas pela própria nacional”, ressaltou o dirigente pedetista.

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