Entrevista

Bolsonaro na Veja: Tom moderado, "golpe" descartado, eleições limpas e reconhecimento de excessos; veja destaques da entrevista do presidente

"A chance de um golpe é zero", declarou o presidente Jair Bolsonaro

Mirella Araújo
Mirella Araújo
Publicado em 25/09/2021 às 9:00
ALAN SANTOS/PR
O presidente pretende disputar a reeleição em 2022, mas ainda não definiu por qual partido será candidato - FOTO: ALAN SANTOS/PR
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Matéria atualizada às 9h11

O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), descarta a possibilidade de golpe nas eleições de 2022. Em um tom moderado, apesar de reafirmar que não tem o perfil de ser o “Jairzinho paz e amor”, o chefe do Planalto diz que está bem com o parlamento e reconheceu os excessos cometidos contra o Judiciário, durante as manifestações do dia 7 de setembro. Em entrevista à revista Veja, Bolsonaro também falou sobre o seu futuro partidário, a alta dos preços da gasolina, do gás de cozinha e dos alimentos. Além disso, ele também voltou a defender o tratamento precoce contra a covid-19, mesmo sem comprovação científica.

“A chance de um golpe é zero”, crava o presidente. “Existem 100 pedidos de impeachment dentro do Congresso. Não tem golpe sem vice e sem povo. O vice é que renegocia a divisão dos ministérios. E o povo que dá a tranquilidade para o político voltar. Agora, eu te pergunto: qual é a acusação contra mim? O que eu deixei, em que eu me omiti? O que eu deixei de fazer? Então, não tem cabimento uma questão dessas”, afirma Bolsonaro.

Sobre as manifestações do Dia da Independência, em que chegou a dizer que não cumpriria mais as decisões do ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro explicou que contatou o contato com o ex-presidente Michel Temer (MDB), levando-o para Brasília, em um avião da Força Aérea. Lá, Temer o ajudou a construir a “Declaração à Nação”, na tentativa de apaziguar os ânimos.

“Esperavam que eu fosse chutar o pau da barraca. Você imagina o problema que seria chutar o pau da barraca. Eu não convoquei a manifestação. Eu vinha falando que estamos lutando por liberdade e comecei a falar uns quinze dias antes que estaria na Esplanada e em São Paulo. Mas em São Paulo, quando eu falei em negociar, eu senti um bafo na cara. Extrapolei em algumas coisas que falei, mas tudo bem”, disse.

Durante a entrevista da Veja, não faltaram críticas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, que pretende responsabilizar o chefe do Executivo pelas mortes causadas pela doença, prestes a atingir a marca de 600 mil óbitos. Para o presidente, a CPI “não tem credibilidade nenhuma”. “A história vai mostrar que as medidas que tomamos, concretas, econômicas, ajudando estados e municípios com recursos, salvaram as pessoas”, declara.

Ao ser questionado se faria algo diferente com relação às medidas tomadas pelo governo federal para o enfrentamento da pandemia, Bolsonaro disse que não teria errado em nada.
“Fui muito criticado quando falei que ficar trancado em casa não era a solução. Eu falava que haveria desemprego — e foi o que aconteceu. Outra consequência disso é a inflação que está aí. Hoje há estudos que mostram que quem mais caminha para o óbito por coronavírus é o obeso e quem está apavorado", disse.

TRATAMENTO

Mesmo sem comprovação científica, o presidente da República insiste na defesa do tratamento precoce através do uso da hidroxicloroquina, alegando que o medicamento “nunca matou ninguém”. Por outro lado, ele mantém o ceticismo sobre a vacinação, defendendo que ela não deve ser obrigatória, mas partir de uma decisão pessoal.

Ele citou o caso da sua esposa, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que foi vacinada nos Estados Unidos, durante a agenda do presidente da Assembleia da ONU, em Nova York. Vale ressaltar que as autoridades sanitárias reforçam que o uso de máscara e a aplicação das duas doses da vacina contra a covid-19, são os instrumentos mais eficientes para combater a doença.

ELEIÇÕES

Candidato à reeleição em 2022, o presidente Jair Bolsonaro explicou que não pretende repetir o que ocorreu nas eleições de 2018, referindo-se a escolha do vice e do partido. “O vice tem que ter algumas características, tem que ajudar você. E tem que ajudar no tocante ao voto também”, afirma. Ainda sobre Hamilton Mourão, Bolsonaro afirmou que o militar não possui vivência política, mas que ele teria o perfil de disputar uma vaga no Senado.

Desde que rompeu com o presidente nacional do PSL, o deputado Luciano Bivar, o que culminou na sua desfiliação em novembro de 2019, o presidente da República está sem partido. Em entrevista a Veja, ele afirmou que não iria fugir de estar no PP, PL ou Republicanos. O PTB, de Roberto Jefferson, um dos maiores defensores do bolsonarismo, também lhe ofereceu legenda para a disputa no ano que vem.

Com os resultados das últimas pesquisas de opinião, apontando uma queda na popularidade de seu governo, e indicando que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sairia vitorioso, caso as eleições fossem hoje, Bolsonaro diz que a realidade difere dos índices apresentados. “A gente quer o bem do Brasil. O outro gastava horrores, não tinha teto de gastos, não tinha problemas com o Parlamento, dava menos dor de cabeça para eles, loteou tudo. Hoje é completamente diferente, estou demorando um recorde de tempo para sabatinar o André Mendonça, coisa que não acontecia no passado. Era um relacionamento Executivo-­Legislativo bem diferente do que é hoje. Aqui não tem loteamento”

ECONOMIA

Sobre os preços em alta dos alimentos, gás de cozinha e da gasolina, Jair Bolsonaro reconhece o aumento da inflação, mas diz que não vai “tabelar ou segurar preços”. “Não posso tabelar o preço da gasolina, por exemplo, mas quero que o consumidor fique sabendo o preço do combustível da refinaria, o imposto federal, o transporte, a margem de lucro e o imposto estadual. Hoje toda crítica cai no meu colo. O dólar está alto, mas o que eu posso falar para o Roberto Campos (presidente do BC)? Quem decide é ele, que tem independência e um mandato. Reconheço que o custo de vida cresceu bastante aqui, além do razoável, mas vejo perspectivas de melhora para o futuro.”, afirma à Veja.

Ele também foi questionado sobre as dificuldades de encontrar recursos para sustentar o novo programa de renda social, o Auxílio Brasil, cuja expectativa do governo federal é de pagar uma parcela mínima de R$ 300. “Se eu usasse o programa para ganhar a eleição, colocava o valor em 600 reais. Em outros governos, com uma canetada fingia-se que estava extinta a pobreza no Brasil. São as hipocrisias. Duvido que o PT se reelegeria com o Orçamento que eu tenho. Com toda a certeza eles iriam furar o teto de gastos. Apesar da nossa dívida e dos nossos problemas, a nossa meta é ter responsabilidade e cumprir o teto de gastos”. Por fim, Bolsonaro descartou a possibilidade de demitir o ministro da Economia, Paulo Guedes e que há perspectiva de melhora na área para o futuro.

 

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