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Crítica: Polícia Federal – A Lei é para Todos, de Marcelo Antunez

06 / set
Publicado por Ernesto Barros às 5:15

Cena de Polícia Federal – A Lei é para Todos. Foto: Downtown Filmes.

Para o bem ou para o mal, o longa-metragem Polícia Federal – A Lei é para Todos, de Marcelo Antunez, chega carregado de expectativas – principalmente para quem vibrou com cada fase da Operação Lava Jato, das prisões do doleiro Alberto Yussef e do engenheiro Marcelo Odebrecht à condução coercitiva do ex-presidente Lula. O filme estreia nesta quarta-feira (6/7) em circuito nacional e chegando em cerca de mil salas de cinemas no feriado de sete de setembro.

Produzido ao custo de R$ 16 milhões – arrecadados de investidores anônimos, segundo o produtor sérvio Tomislav Blazic, que mora no Brasil desde criança –, o filme não teve financiamento público, entretanto recebeu apoio irrestrito da Policia Federal. Os roteiristas Gustavo Lipsztein e Thomas Stavros tiveram acesso às denúncias do Ministério Público e também leram os depoimentos dos acusados e as decisões do juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, que está à frente da Lava Jato.

Para contar essa história, que vem sendo acompanhada pelo público como um evento crossmedia desde abril de 2013, o time criativo de Polícia Federal – A Lei é para Todos foi buscar inspiração na narrativa já testada por José Padilha no díptico Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro. Como o capitão Nascimento, temos aqui um agente da PF contando o que aconteceu no Brasil desde… A chegada das caravelas, quando os portugueses vieram para cá, com a varíola, a tuberculose e a corrupção.

Apesar de não ter o carisma de Wagner Moura – o delegado Ivan não chega aos pés do Capitão Nascimento –, não se pode dizer que Antonio Calloni é um ator ruim. Ao contrário, a interpretação controlada dele é a melhor coisa do filme. Mas essa construção mais sutil é jogada para o lixo porque os outros policiais parecem saídos de um reality show em que se esforçam para ser mostrarem coléricos, superiores e que estão no centro financeiro do Brasil – com diz a agente Bia, interpretada por Flávia Alessandra, que, felizmente, desaparece de cena mais ou menos no meio do filme. Mas nada é tão irritante quanto o agente apoplético e “muito louco” Júlio César, interpretado por Bruce Gomlewski, que termina suas frases geralmente com um “porra”. Como o filme é dos policiais federais, sobre pouco espaço para o juiz Sérgio Moro (interpretado em modo robótico por Marcelo Serrado), que aparece trabalhando mais dentro de casa do que no tribunal.

Afirmar que Polícia Federal – A Lei é para o Todos é um artefato político-ideológico contra o PT e a esquerda não é um argumento muito sólido. Afinal, não é crime alguém fazer um filme para defender suas ideias – só que geralmente se faz filmes para ganhar dinheiro. O fato de alguém botar grana, anonimamente, num filme em que pessoas reais têm seus nomes envolvidos, isso sim não é muito honesto – ainda mais quando os nomes dos agentes da Polícia Federal são todos fictícios, personagens inventados. Assim, fazer um filme ruim, carregado de clichês e que se assemelha a 300 episódios de TV, isso sim é um sério problema. Aparentemente, no entanto, isso não tem perturbado nem a Blazic nem a Antunez, que já divulgaram que pretendem fazer uma trilogia dedicada à Operação Lava Jato.

Do jeito que começaram, com informações de uma única fonte e coletada numa estrutura de poder, certamente a verdade esta longe de ser isenta. Mas tudo pode mudar se o público rejeitar o filme nas bilheterias. Os pontos fracos do filme são a humilhação pública a que submetem tanto Lula (Ary Fontoura, caricato) quanto Odebrecht (Leonardo Medeiros, muito bom) e as tentativas de apostar em cenas de ação, quase sempre atabalhoadas e sem um mínimo de suspense.

Com um repertório de imagens que parece ter aprendido nos dramas de tribunal e procedimentos jurídicos da TV, Marcelo Antunez conduz o filme com pouco brilho e sem conseguir fazer dele um retrato da encruzilhada em que o Brasil se meteu. Resta agora o veredicto do público para ditar a sorte da suposta trilogia da Lava Jato.


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