21
set

Crítica: Columbus, de Kogonada

21 / set
Publicado por Ernesto Barros às 16:03

Cena de Columbus. Foto: Supo Mungam Filmes

Descobrir um filme, seus mistérios e caminhos, é uma experiência que os amantes do cinema prezam acima de tudo. A descoberta é ainda mais significativa quando uma obra cinematográfica, feita com zelo e rigor estético, cresce diante dos nossos olhos. Sem precisar fazer alarde, mas com simplicidade, silêncio e uma certa cerimônia, o longa-metragem americano Columbus, que estreia nesta quinta-feira (21/9) no Cinema da Fundação/Museu, é um desses filmes que sua existência parece um milagre.

O título se refere a uma cidade do estado de Indiana, no Meio-Oeste americano, que é conhecida por ser uma espécie de modelo para arquitetos. A arquitetura da cidade é o elemento que o diretor estreante Kogonada, nascido na Coreia do Sul, mas criado nos Estados Unidos, usa para conectar a vida de vários personagens do filme. Embora pareça algo muito frio e calculado, o ponto de partida de Kogonada revela-se um cativante estudo sobre sobre vida e morte.

Os personagens centrais do filme estão paralisados em virtude de seus relacionamentos com os pais e não sabem como seguir adiante. O tradutor Jin (John Cho) vem de Seul para cuidar do pai, um arquiteto coreano que teve um problema de saúde e está hospitalizado em Columbus, onde dá aulas numa universidade. Já Casey (Haley Lu Richardson), uma jovem que trabalha numa biblioteca, cuida da mãe (Michelle Forbes), uma ex-drogada, mas não tem forças para conseguir se separar dela e tentar ir para uma universidade.

Com uma sensibilidade ímpar, Kogonada consegue juntar Jin e Casey, a partir de um encontro casual, em que os dois, por meio do amor pela arquitetura de Columbus, vão encontrar seus caminhos. Embora não force um romance, o cineasta não exclui um clima ambíguo entre os dois, que a diferença de idade entre eles – Jin, com cerca de 30 anos, e Casey, uns 19 – parece impedir algo mais. Isso, entretanto, é explorado mais francamente entre Jin e Eleanor (Parker Posey, a musa independente dos anos 1990), a assistente do pai (e talvez amante dele), que foi sua paixão de juventude.

Columbus vem causando sensação desde o inicio do ano, quando conquistou a atenção da crítica durante o Festival de Sundance. Meca do cinema independente americano, o festival é conhecido por revelar talentos, mas há um bom tempo que não aparecia nenhum cineasta com uma história particular como a de Kogonada (de certa maneira, muito parecida com a de Quentin Tarantino, que ganhou notoriedade depois da exibição de Cães de Aluguel em Sundance, em 1992).

Até outro dia, Kogonada editava pequenos vídeos sobre cineastas famosos em sites da internet, enquanto defendia uma tese na universidade sobre o cineasta japonês Yasujiro Ozu. Columbus, evidentemente, é um filme mais oriental que ocidental, não apenas em seu ritmo, mas também na maneira como o diretor trabalha suas composições visuais e na interpretação contida dos seus atores. Trata-se mesmo de um filme de grande sofisticação estética, mas que é totalmente orientado pela construção dos personagens no meio em que eles vivem, com também a busca deles por equilíbrio. Vale apena descobrir esse filme fascinante.


Veja também