Acidente Tamarineira: um ano depois, Miguel abre o coração

"Ainda não tenho vontade de viver", diz Miguel Motta, que sobreviveu junto com a filha Marcela
Margarette Andrea
Publicado em 25/11/2018 às 8:12
"Ainda não tenho vontade de viver", diz Miguel Motta, que sobreviveu junto com a filha Marcela Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem


A dor ainda transborda. No olhar distante. No sorriso triste. Na palavra recheada de saudade. No choro que se quer conter. Passado um ano do acidente na Tamarineira, Zona Norte do Recife, em que sua esposa, Maria Emília Guimarães, de 39 anos, o filho Miguel Neto, 3 anos, e a babá, Roseane Maria de Brito, 23 (grávida de três meses) foram mortos por um motorista embriagado que avançou o sinal, o advogado Miguel Filho da Motta Silveira, 47, procura o conforto que, dizem, o tempo traz. A motivação para levantar todos os dias fica no quarto ao lado: Marcela, 7 anos, a filha que foi dada como morta duas vezes, mas insistiu em ficar viva. “Ela é um milagre”, diz carinhosamente Miguel, nesta entrevista ao JC, na qual abriu o coração. A entrevista aconteceu no apartamento da família, em Casa Forte, Zona Norte do Recife. A mãe da babá preferiu não falar com a imprensa.

JC – Um ano se passou. Como vocês estão hoje?
MIGUEL: Ainda dá muita tristeza. Mas antes eu não tinha horizonte, motivação de estar aqui. A família, sem dúvida, é nosso chão. Quando tiram ela, a gente fica desnorteado. Você fica muito tempo como se fosse dentro de uma nuvem, só enxergando aquele problema. Mas o pior já passou. Com os dias, você tem que canalizar para outros problemas. Hoje eu consigo respirar. Marcela tem sido a razão de acordar e dormir diariamente. 


JC: Como ela está?
MIGUEL: Está evoluindo. A esperança é muito grande de que ela se recupere. Há várias sequelas. Ela não fala, não senta, não anda. Mas já interage um pouco, sorri, consegue segurar algumas coisas na mão, se apoiar nos bracinhos, segura a cabeça, acompanha alguns filminhos na televisão e come de tudo. Faz fisioterapia, fono e terapia ocupacional todo dia, hidroterapia começou essa semana. E a gente está vendo outros métodos de fisioterapia, já fomos a São Paulo e devemos voltar lá, ou ir para fora do País.

JC: E o caminho até aqui?
MIGUEL: Passamos por momentos bem difíceis. Clinicamente Marcela só está bem há dois meses e meio. Desde o acidente até final de setembro, ela precisou de algumas cirurgias. Ficou sem a calota craniana até março (quando recebeu uma artificial). Em maio teve hidrocefalia, foi colocada válvula e ela teve rejeição, a infecção persistiu. Foram três válvulas até o organismo aceitar. Coquetéis de antibióticos. Era desesperador.

JC: Mas ela é uma lutadora...
MIGUEL: Marcela é um milagre. Ela teve sete paradas cardíacas, a última de 45 minutos, da qual voltou sozinha. Os médicos tiraram as luvas, desistiram dela e ela voltou a bater (o coração) sozinha. Eu soube, um dia desses, que quando foram nos socorrer deixaram ela de lado, pensando que estava morta. Deram prioridade a mim e a meu filho, minha esposa e Rose já estavam mortas. Mas quando estavam nos levando ela tossiu e uma técnica a pegou nos braços. Foi Deus quem trouxe ela de volta. Várias vezes.

JC: Quem te ajuda a cuidar dela?
MIGUEL: Minha irmã mais velha e meu cunhado moram aqui comigo desde que voltei para casa, fizeram essa excelente boa ação. A irmã mais nova praticamente passa o dia com minha filha. Elas são meus braços direito e esquerdo. E ainda tem as tias, a madrinha. A gente vai revezando. E temos enfermeira 24 horas (homecare).


JC: Você voltou a trabalhar?
MIGUEL: Não. Praticamente não vou pro escritório. Eu vou pra academia pra fazer uma endorfina e sair dessa tristeza, vou à Igreja. Também faço feira, tudo que minha esposa cuidava agora é comigo. No mais, é ficar com Marcela. Estou administrando o que já tinha, não tenho condições de fazer atendimentos, audiências, porque se eu me emocionar eu me descompenso. Ainda tomo antidepressivo, faço terapia. Perdi 14 quilos.

JC: É Marcela quem te dá força?
MIGUEL: Só ela para me segurar. A vontade que você tem é de morrer também. Até hoje eu não tenho mais vontade de viver. Se amanhã dissessem: “Você vai amanhecer com 90 anos”, estava ótimo. Tudo que eu quero é que acabe logo essa passagem aqui. 

JC: E consegue pensar em futuro?
MIGUEL: Eu digo que só consigo pensar no que vou fazer de noite. Se me perguntarem o que vou fazer amanhã eu não sei. Tínhamos tantos planos... Minha esposa era minha melhor amiga, minha confidente.

JC: Quais planos tinham?
MIGUEL: Minha esposa ia fazer dez anos de serviço público. Ia ter seis meses de licença prêmio e acumulou férias. A gente ia levar os meninos para fazer um intercâmbio, morar fora, provavelmente na Flórida. 

JC: Vocês estavam juntos há muito tempo?
MIGUEL: Eu a conheci ela tinha 7, 8 anos, era amigo do irmão dela. Começamos a namorar eu ia fazer 30 anos. Casamos eu tinha 37. Antes eu era bancário, me formei em contábeis primeiro, trabalhava 14, 16 horas, mas, por obra e graça de minha mãe, comecei o curso de direito, voltei a ser estagiário. Mas trabalho desde os 16 anos.

JC: E como era a rotina de vocês antes do acidente?
MIGUEL: A gente acordava cedo, a mãe ia trabalhar e levava os dois para o colégio. Eu ia trabalhar e ia buscá-los para almoçar. Ela só trabalhava de manhã e à tarde levava as crianças para natação, balé... Final de tarde eu chegava e ficávamos brincando com eles. Dormíamos os quatro na cama, depois levava eles para a deles. Marcela era muito sabida, independente. Tomava banho sozinha, escovava os dentes, trocava de roupas. O irmão era mais quietinho, muito doce.

JC: A religião tem te ajudado?
MIGUEL: A gente se acorda todo dia para renovar a fé, a esperança. Já me perguntaram se fiquei de mau de Deus, se fiquei revoltado. Não, a gente sabe que isso não é desejo dele. E se foi (acho que não, ele não trouxe a gente aqui pra sofrer) é porque ele sabia que eu aguentava. 

JC: Qual seu sentimento pelo motorista que causou o acidente?
MIGUEL: Eu não sinto nada por ele. Nem lembro dele. Se passar na minha frente nem sei quem é. Eu só quero que pague pelo que fez. Pela vida que escolheu. Há vários relatos de que era contumaz em beber e dirigir, então, isso não foi um acidente. Era uma tragédia já escrita. Não tenho espaço para raiva, rancor. Isso não vai voltar o tempo, meu filho e minha esposa não vão voltar, Rose não vai voltar. Mas estou convicto de que será condenado.

JC: Isso lhe traria alívio?
MIGUEL: Outros vão pensar duas vezes antes de beber e dirigir. Tristeza eu vou carregar até o final da vida, porque tudo tem solução, menos a morte. O tempo vai dizer como fica. Como eu sou católico, cristão, tenho a certeza de que um dia estaremos todos juntos. E pra isso, nós precisamos trilhar nosso caminho aqui. Agradeço a todos os amigos virtuais, a todas as mensagens, orações, isso ajuda a passar esse restinho de vida aqui na terra de forma digna, com amor e compaixão.

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