CRÍTICA

Aquarius estreia em cinemas de todo o Brasil

FIlme entra em 85 salas de cinemas, nesta quinta-feira (1º/9), espalhadas pelo País

Ernesto Barrros
Ernesto Barrros
Publicado em 01/09/2016 às 12:02
Victor Jucá/Cimascópioi
FIlme entra em 85 salas de cinemas, nesta quinta-feira (1º/9), espalhadas pelo País - FOTO: Victor Jucá/Cimascópioi
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Aquarius nasceu como um rastilho de pólvora no 69º Festival de Cannes, em maio passado, onde encantou uma plateia de críticos e jornalistas de todo o mundo. “O filme que fez a Croisette dançar, rir e chorar”, estampou a revista Le Figaro, em letras garrafais. Três meses e meio depois, o segundo longa-metragem de ficção do pernambucano Kleber Mendonça Filho se mantém célere na conquista de prêmios da Oceania à Europa.

Depois de várias sessões especiais eletrizantes, o pavio longo de Aquarius explode nesta quinta-feira (1º/9) em 85 salas de cinemas do País – seis das quais no Recife, um dia depois da posse do presidente Michel Temer. Filme símbolo de um momento político complexo e traumático para os eleitores e simpatizantes da ex-presidenta Dilma Rousseff, que foi cassada do cargo ontem, a um ano e oito meses do seu segundo mandato, Aquarius reveste-se de uma importância além do campo cinematográfico.

POLÍTICA

Clara (Sonia Braga), a força-motriz do filme, é uma jornalista aposentada fiel ao passado e à memória que carrega. Sem dar trégua, ela enfrenta o assédio de uma construtora que tenta, pela força, lhe expulsar do lugar onde morou e criou a família. Desde Cannes, Kleber e equipe se posicionaram contra o impeachment de Dilma Rousseff. Esse duplo movimento deu a Aquarius um tipo de força e energia que poucas obras cinematográficas poderiam almejar.

Essa feição política, que já estava na sua base e que se revestiu ainda mais em contato com a reação do público, mostra que a arte do cinema não perdeu uma de suas principais funções: ser um objeto ativo na vida das pessoas e não apenas um lenitivo para as horas de relaxamento e diversão. Apesar de se prestar a esse corpo a corpo político, deve-se alertar que a função lúdica do cinema está presente em Aquarius da primeira à última cena.

Ao contrário do que se pode pensar, a obra de Kleber Mendonça Filho não é panfletária. Muito pelo contrário, é puro cinema para os olhos, o coração e o cérebro da plateia. Por meio de Clara, uma crítica de música aposentada que mora num prediozinho antigo na Avenida Boa Viagem, tão discrepante em meio aos modernos arranha-céus daquela orla, somos levados a sentir emoções variadas, que vão do choro ao riso, da raiva à indignação, mas tudo filtrado por uma visão cáustica da sociedade, um característica do trabalho cinematográfico do seu diretor.

SIMBOLISMOS

Há muito de luta simbólica na rebeldia de Clara ao rechaçar a família de construtores que pretende derrubar o Edifício Aquarius. Também nas relações que mantém com os filhos, os amigos e com sua vida íntima. E muito mais nas divisões do espaço urbano do Recife, quando ela explica que um esgoto, entre o Pina e Brasília Teimosa, não é uma linha tênue de exclusão.

Simbolismo ainda maior é trazer para o papel de Clara, a jornalista que respira música, uma atriz como Sônia Braga. Na juventude, Sonia representava a liberdade e a beleza da mulher brasileira. Sem esconder as marcas do tempo, criadora e criatura formam uma personagem de dignidade sem tamanho. Afinal, não é todo dia que uma mulher, mesmo rica como ela, peita uma estrutura patriarcal que há mais de quatro séculos joga com cartas marcadas. Agora nos cinemas, resta a Aquarius, um filme que já nasceu grande, vencer uma batalha que só a arte, da forma mais elevada, é capaz.

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