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Cena Política

Por Igor Maciel
Cena Política

Projeto de João Campos para o centro do Recife gasta 70% do orçamento só com pessoal e 2% com investimentos

Apesar de toda a propaganda, o Recentro representa só 1% das despesas da Prefeitura em 2022, maior parte do dinheiro é para manter a estrutura de pessoal do gabinete que deveria cuidar da área da cidade em que um turista alemão foi morto há alguns dias.

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Igor Maciel

Publicado em 15/12/2022 às 15:00
Werner Duysen Gurkasch (esq.) e o marido, Wolfgang Duysen Gurkasch, estavam passeando pelo Recife após saírem de um navio - REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

O assalto que terminou com a morte de um turista alemão no centro do Recife é uma tragédia para a família da vítima e outra para a imagem da capital pernambucana. Se o governo e a prefeitura não conseguem garantir a vida de quem desembarca por aqui para passar algumas horas apenas, descendo de um navio no porto, significa que a cidade não está disposta a receber esses turistas e um grande potencial se perde entre a desconfiança das agências de turismo e o horror dos passageiros.

Você, como turista, sabendo que seu navio passará por uma cidade em que andar nas ruas pode levar você a ser esfaqueado por causa de uma câmera ou de um celular, descerá da embarcação para fazer um passeio e gastar seu dinheiro aqui?

- Governo, sem noção, faz balanço do turismo em Pernambuco hoje. Morte de turista alemão não estará nele

O governador e o prefeito são responsáveis diretos por esse prejuízo para a imagem da cidade e do estado. É um prejuízo que transcende suas gestões e mancha qualquer legado. E tudo isso está sendo tratado como se fizesse parte da rotina. É assustador.

Infelizmente, é algo que se espera de administrações que se pautam pelo dizer que faz enquanto faz quase nada. O mesmo centro da cidade no qual o turista alemão foi assassinado é o que deveria estar sendo beneficiado por um “grande” projeto que a prefeitura de João Campos (PSB), aquele que quase não para no Recife, chama de Recentro.

No papel, nas ideias, nas redes sociais, é algo maravilhoso. Na prática, entrega pouco ou quase nada. Não se trata de opinião, mas de fatos corroborados pelo orçamento do programa. O Recentro já está funcionando há um ano, tem estrutura de secretaria municipal, mas praticamente só tem dinheiro para pouco além de existir.

O vereador Alcides Cardoso (PSDB) fez esse alerta recentemente. O parlamentar apontou que o dinheiro destinado ao orçamento do gabinete em 2022 não chegou a representar nem 1% das despesas totais da Prefeitura do Recife neste ano.

“O orçamento do Gabinete do Centro do Recife é de R$ 1,7 milhão, enquanto as despesas totais da prefeitura em 2022 totalizaram R$ 5,2 bilhões”, disse Alcides. A situação piora se você observar que mais de 70% deste orçamento foi para pagamento de funcionários. Os investimentos ocupam apenas 2% do planejado para o gabinete, segundo o vereador. Em 2023, o planejado é que a pasta receba pouco mais de R$ 2 milhões. Ainda é muito pouco, dentro do orçamento da prefeitura.

A gestora do Recentro, Ana Paula Vilaça, esteve numa entrevista com este colunista quando o projeto foi lançado. Uma das perguntas feitas foi exatamente sobre a segurança do centro da cidade, já que muita gente evita a região por causa dos assaltos. Havia muitas ideias, planos de monitoramento e parcerias com Polícia Militar e Guarda Civil. Aconteceu quase nada.

Mas não dá pra fazer muita coisa numa gestão que não lhe dá recursos. A gestora é quem tem menos culpa nisso. Sem dinheiro para investir, o Recentro será apenas falação.

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O prefeito João Campos pode ter faltado à aula de gestão em que se diz que “propaganda é a alma do negócio, mas se o produto for ruim o sucesso vira pó”. É isso que não parece ainda ter ficado claro para o gestor quando se vê tantas fotos e vídeos bonitos no Instagram, enquanto a realidade assalta (às vezes literalmente) os cidadãos, todos os dias, com engarrafamentos, buracos, alagamentos, miséria e insegurança.

O caso do alemão esfaqueado no Recife deveria estar sendo tratado pela gestão municipal como a tragédia que é, mas fica feio botar isso nas redes sociais, vai quebrar o clima que se tenta vender ali.

Melhor fingir que não aconteceu?

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