O desafio do ensino híbrido: aula na escola e em casa ao mesmo tempo

Com autorização do retorno das aulas presencias nem todas as famílias mandaram os filhos para a escola, optando pelo remoto. Quem vai se divide entre o presencial e o remoto
Margarida Azevedo
Publicado em 16/11/2020 às 12:21
Professor dá aula para quem está na sala e aqueles que ficaram em casa Foto: BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM


Alunos e professores das escolas estaduais e particulares de Pernambuco vivem um novo momento neste ano letivo de 2020. Depois das tradicionais aulas regulares, ministradas até a metade de março, eles foram obrigados a se adaptar ao ensino remoto por causa da pandemia de covid-19. Agora, com a liberação para o retorno das atividades presenciais, é o ensino híbrido, que mescla aulas presenciais e virtuais, que desafia a comunidade escolar. A experiência vai contribuir para o planejamento do ano letivo de 2021, já que muito provavelmente o formato acompanhará a rotina dos colégios enquanto não houver 100% de segurança em relação à pandemia de covid-19.

Na rede privada, a volta das aulas presenciais, com a chegada das turmas do ensino médio, completou um mês na última segunda-feira (09). Na rede estadual, fará 30 dias na próximo sexta-feira (20). “A escola não é a mesma que deixamos lá atrás, em março. É uma rotina sem abraço, sem contatos próximos, mas a presença do outro, de carne e osso, sem ser por uma tela, motiva mais. Continuamos sendo um espaço importante de convivência, de socialização”, destaca o presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco (Sinepe), José Ricardo Diniz.

“O desafio do híbrido é atender, de forma sincrônica, alunos que estão em espaços diferentes, os que foram para a escola e aqueles que permaneceram em casa. É uma experiência nova principalmente para os professores, que estão encarando mais essa mudança neste ano”, observa José Ricardo. “Evidente que ficaram e ficarão lacunas na aprendizagem pois cada aluno vivencia as aulas com realidades e circunstâncias distintas. Por isso a importância de focar neste momento em conteúdos estruturantes, sobretudo em português e matemática”, diz o presidente do Sinepe.

Professor de matemática do Colégio Santa Maria, localizado em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, Kenji Chung diz que a carga de trabalho aumentou no modelo híbrido. “É mais puxado porque há alunos que estão acompanhado online que não conseguem tirar dúvidas na mesma hora. Acabam perguntando depois pelo whatsApp”, conta Kenji. “Quando liberaram as aulas presenciais, fui contra mandar meus filhos. Mas a diferença no aprendizado de quem volta é grande. O ganho na aula presencial é significativo. Por isso, fui um dos que voltou atrás”, afirma.

"Com certeza o aprendizado é maior estando na escola. O contato direto com o professor ajuda a manter o foco. É bom voltar à rotina escolar, principalmente para nós que vamos fazer o Enem. A diferença é a volta para casa, mais rigorosa com a higienização de sapato e mochila”, afirma Maria Gabriela Fernandes Vieira, 18 anos, aluna do 3º ano do Colégio Santa Maria e fera de medicina.

"A qualidade do ensino é a mesma, os professores continuam empenhados, só mudou porque estão agora na escola. Queria ter voltado para as aulas presenciais, mas na pandemia retornei para Petrolina, onde moram meus pais. Estou acompanhando todas as aulas virtualmente”, conta Ana Gabriela Andrade, 17, também concorrente de medicina e aluna do Colégio Equipe.

A Escola Técnica Estadual Cícero Dias/Nave, também situada em Boa Viagem, é uma das poucas da rede estadual que, assim como ocorre na maioria dos colégios privados, transmite as aulas simultaneamente para estudantes que estão presencialmente e os que ficaram em casa. A unidade recebeu doações de câmeras porque o prédio foi usado como base do Programa Atende em Casa, voltado para atender pessoas com suspeita de terem o coronavírus.

“Dos 509 alunos matriculados, cerca de 200 indicaram numa pesquisa que queriam voltar para as aulas presenciais. Mas frequentando mesmo temos uma média de 120. Por isso manter o ensino remoto é tão importante quanto o presencial. O desafio é motivar aqueles alunos que por dificuldades com conexão ou equipamento não conseguem acompanhar”, ressalta a diretora, Aldineide Queiroz.

CAUTELA

A advogada Mariana Bezerra, 45, têm filhos gêmeos, Henrique e Rafael, 14 anos, estudando no 9º ano do ensino fundamental, e Isabel, 10, no 5º ano, todos no Colégio Marista São Luís. Eles não vão aderir ao ensino híbrido.

“Estamos no fim do ano, as dificuldades para adaptação das aulas virtuais foram vencidas, apesar deles estarem cansados do ensino online. Mas não acho seguro voltar sem ter vacina”, diz. “É importante o que aprenderam na escola, mas isso não me preocupa tanto. Se houver lacunas poderão recuperar depois. Houve outros aprendizados, bastante significativos, como maior participação nas tarefas de casa, mais consciência política e responsabilidade”, afirma Mariana.

“Eu queria voltar para a escola, mas há o receio de pegar covid-19. Gostei mais das aulas da semana passada, quando os professores já estavam na escola porque voltou o ensino presencial. Achei-os mais animados pois estão na sala de aula. Essa animação termina motivando a gente que ficou em casa”, diz Henrique.

 

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