INVESTIGAÇÕES

Parte das armas desviadas da polícia foi vendida para facção que atua em Porto de Galinhas

Sumiço das armas de depósito da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil de Pernambuco foi descoberto em 2021

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 05/04/2022 às 18:54
Bruno Campos/JC Imagem
Após dias tensos, na semana passada, clima em Porto de Galinhas volta à normalidade - FOTO: Bruno Campos/JC Imagem
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Parte das armas de fogo desviadas da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil de Pernambuco foi vendida para a facção criminosa Trem Bala, que está atuando na praia de Porto de Galinhas, no Litoral Sul, segundo investigações. O detalhe é que algumas dessas armas pertenciam justamente à Guarda Municipal de Ipojuca - município onde Porto está inserido.

Na semana passada, o principal cartão-postal do Estado viveu dias de terror após uma criança, moradora da comunidade de Salinas, área periférica da praia, ser morta durante uma ação de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra suspeitos de tráfico de drogas. O caso segue sob investigação e, até agora, não foi revelado de que arma partiu o tiro que matou Heloysa Gabrielly, de 6 anos. 

A morte da menina gerou protestos, fechamento do comércio e atos de vandalismo - expondo o poder da Trem Bala pelo Litoral Sul. A violenta facção tem ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), como informou o promotor de Justiça Rodrigo Altobello à coluna Ronda JC. Há anos a Polícia Civil investiga a atuação da Trem Bala em Ipojuca, por causa do intenso tráfico de drogas e assassinatos de rivais. Apesar de dezenas de prisões de integrantes, o grupo segue crescendo.

A informação sobre o desvio de armas de fogo e munições e o repasse para a Trem Bala consta no inquérito policial - de quase 2 mil páginas - que apurou o sumiço de 326 pistolas, revólveres e submetralhadoras e mais de 3 mil munições que estavam guardados em um depósito da Core. O caso foi descoberto em janeiro de 2021. Outra facção também teria se beneficiado do esquema.

Das 326 armas, 120 pistolas de calibre ponto 40 de fabricação da marca Taurus pertenciam à Guarda Municipal de Ipojuca e foram doadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), em maio de 2020. Na época, o secretário de Defesa Social do município, Osvaldo Morais, tomou a decisão de encaminhá-las à Core porque acreditava-se que seria mais seguro enquanto os profissionais da Guarda seriam treinados. Menos de um ano depois, o gestor foi surpreendido com a informação de que as armas haviam sido desviadas por policiais lotados na Core.

WILDERSON PIMENTEL/SECOM IPOJUCA
PREJUÍZO Doadas pela Polícia Rodoviária federal, em 2020, as 120 pistolas que seriam usadas pela Guarda Municipal de Ipojuca sumiram da Core - WILDERSON PIMENTEL/SECOM IPOJUCA

Interceptações telefônicas apontaram que algumas dessas armas, desviadas da Core, foram comercializadas para as facções criminosas por valores que variavam de R$ 6,3 mil a 6,5 mil, cada uma. Não há informações sobre a quantidade exata e os tipos das armas que cada grupo adquiriu. 

Procurada pela coluna Ronda JC, nesta terça-feira (05), a assessoria da Prefeitura de Ipojuca disse não ter conhecimento, até hoje, sobre a recuperação de ao menos algumas dessas pistolas. A Polícia Civil de Pernambuco também foi procurada e questionada sobre a recuperação das armas, mas disse apenas que o "inquérito policial foi concluído e encaminhado ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE)". 

Vinte pessoas - incluindo cinco policiais civis (um deles veio a falecer) - foram denunciadas pelo MPPE à Justiça por crimes como organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo, peculato, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva. O processo está sob sigilo. 

Entre os denunciados estão o policial civil que seria o responsável por vender as armas e munições para a Trem Bala e outro homem que seria o responsável por intermediar o contato entre os envolvidos. 

No inquérito, os delegados Cláudio Castro e Guilherme Caraciolo classificaram o esquema como uma “Black Friday”.

“O que podemos denotar é que ao longo de anos, em virtude da falta de controle e um software onde todo o acervo bélico da polícia pudesse ser relacionado, policiais que trabalhavam diretamente com o acervo, se aproveitaram da facilidade de acesso e falhas na segurança, e passaram a desviar armas, munições e acessórios, revendendo esse material de maneira indiscriminada para todo e qualquer tipo de criminoso, integrante ou não de organizações criminosas. Uma verdadeira ‘Black Friday’ de armas, munições e acessórios. Houve criminoso que comprou e houve criminoso que intermediou a venda, e assim os valores da comercialização foram sendo majorados e se disseminando a oferta e a procura”, descreveram em relatório.

INVESTIGAÇÕES DA MORTE DE HELOYSA

Enquanto aguarda resultados de perícias do Instituto de Criminalística que vão apontar de onde partiu o tiro que matou a menina Heloysa, a Polícia Civil de Pernambuco está ouvindo testemunhas do caso. O delegado Roberto Ferreira está à frente do inquérito. "Não é possível fornecer detalhes do trabalho em curso para não comprometer as diligências", informou, em nota, a corporação.

As duas viaturas usadas pelos militares do Bope e as armas foram periciadas no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no Recife.

O MPPE afirmou que também está acompanhando as investigações. "O MPPE vem a público compartilhar que está atento aos fatos e dando suporte à atuação dos promotores de Justiça, bem como às suas seguranças diante das três situações investigadas, garantindo a efetiva apuração."

Além do inquérito sobre a morte da menina, também foi instaurada uma investigação pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) e outra pela própria Polícia Militar. Esses dois procedimentos visam avaliar a conduta dos policiais do Bope na ação que resultou na morte da menina.

O Centro Integrado de Defesa Social Municipal da Prefeitura de Ipojuca, de onde está sendo coordenada a Operação Porto Seguro (reforço policial após o temor de comerciantes e turistas de Porto de Galinhas), está contando com um profissional de plantão da Corregedoria Geral da SDS, todos os dias da semana, segundo a SDS.

"Nessa central, ele pode acompanhar o desenvolvimento das ações policiais e das forças de segurança. Um número de telefone funcional, em uso pelo agente da Corregedoria que estiver de plantão, foi fornecido aos representantes da comunidade e familiares da menina Heloysa, de modo a estreitar essa comunicação. Lembramos que os canais tradicionais de atendimento da Corregedoria permanecem: denúncias podem ser feitas todos dias da semana, 24h por dia, através do telefone (81) 31842714 ou de forma presencial (endereço na Avenida Conde da Boa Vista, 428). Existe ainda o telefone gratuito da Ouvidoria da SDS 0800 081 5001", informou a SDS. 


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