A (nova) escolha de Sofia no dilema bioético da covid-19: o que fazer quando não há vagas de UTI?

Com UTIs cheias, Cremepe, Secretaria Estadual de Saúde e médicos fazem um debate pautado pela necessidade de tomar a decisão sobre quem pode ter maior chance de sobrevivência para se ocupar uma vaga de terapia intensiva
Cinthya Leite
Publicado em 30/04/2020 às 14:54
VERBA Ministério da Saúde deixou de repassar dinheiro para gasto com leitos de UTI para estados neste ano Foto: FETHI BELAID/AFP


Ao acompanharmos a situação de países onde a epidemia de covid-19 já causou um colapso no sistema de saúde, ouvimos muito falar sobre a história contada no romance A escolha de Sofia, que se popularizou com o filme de Alan Pakula, que levou um Oscar no início da década de 1980. O enredo conta sobre uma mãe que precisou escolher quem salvaria entre os dois filhos durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então, a expressão passou a ser usada quando se é preciso fazer escolhas duras e difíceis, como as que têm sido tomadas durante esta pandemia de covid-19. Estamos falando sobre um dilema médico pautado pela necessidade de tomar a decisão sobre quem pode ter maior chance de sobrevivência para se ocupar uma vaga de terapia intensiva.

Em Pernambuco, diante das unidades de saúde superlotadas com pessoas que apresentam sintomas de covid-19, começou a ser aprofundada a discussão sobre o perfil de pacientes que devem ser priorizados o acesso a leitos de unidades de terapia intensiva (UTI), assistência ventilatória e paliação. O debate, oficialmente iniciado pelo Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), apresenta-se como um meio de hierarquização da gravidade dos pacientes, na ausência absoluta de vagas de UTI suficientes para atender a demanda terapêutica. O documento, publicado na segunda-feira (27) pelo conselho, destaca que caberá à autoridade sanitária definir o início, a duração e a gradação do ponto de corte de utilização do Escore Unificado para Priorização (EUP-UTI), de acordo com a necessidade de adequação dos quantitativos de leitos à demanda existente.

“Não é o médico que vai decidir. É complicado para ele que está na ponta, estressado, cansado e pressionado. Então, tentamos, com essa recomendação (inclui definição de critérios de prioridade de internação dos pacientes infectados com coronavírus em unidade de terapia intensiva), tirar a responsabilidade do médico. Nós propusemos à Secretaria Estadual de Saúde (SES) que, na Central de Leitos, tenha um núcleo de tiragem que receba as informações (dos pacientes, coletadas pelos médicos) de todas as unidades de saúde. Assim, a central decidiria quais são os pacientes que serão priorizados. Isso não tem força de lei; é uma contribuição para tentar ajudar neste momento tão difícil”, explica o vice-presidente do Cremepe, Maurício José de Matos e Silva.

No boletim da SES da quarta-feira (29), havia um número de 23 leitos de UTI a mais do que no dia anterior. Ao todo, são 387 vagas de terapia intensiva, e 98% estavam ocupadas – um ponto percentual a mais do que na segunda-feira (28). Letal e avassaladora, a covid-19 faz uma pressão gigantesca na assistência hospitalar e, por isso, Pernambuco discute como os médicos podem ter que lidar com aqueles que podem ter menor e maior chance de sobreviver.

“A SES deverá se pronunciar e poderá adaptar à nossa recomendação em parte ou usá-la completamente. E pode negar, mas acredito que isso não vai acontecer. A secretaria é que vai poder definir qual é ponto de corte. Se o escore é até 12, ela pode definir que o ponto de corte é dez para cima, que é um doente praticamente inviável. Ou se houver escassez de leito maior, pode optar pelo ponto de corte de novo, oito...”, destaca Maurício, que reconhece a delicadeza da situação. “É extremamente difícil para todos nós e pode parecer até cruel, mas alguém tem que tomar essa iniciativa de tentar salvar o maior número de vidas e dando oportunidade para todos os pacientes receberam a assistência adequada”, acrescenta.

Cuidados paliativos

Médica geriatra e paliativista, Mirella Rebello Bezerra foi uma das dezenas de profissionais que participaram da elaboração do documento do Cremepe e fala sobre a importância da recomendação neste momento de dilema médico. “A pessoa não vai ser escolhida para viver ou para morrer. A verdade não é essa. A verdade é que recomendação do conselho defende a otimização do uso dos recursos para que todos tenham o melhor atendimento possível para que ninguém morra agonizando sem respirador ou medicações que possam diminuir a falta de ar e o sofrimento das pessoas”, explica Mirella, doutoranda em Bioética pela Universidade do Porto, em Portugal. Ela diz que, para garantir a assistência adequada à população, é preciso se basear em critérios técnicos, éticos, justos e transparentes.

“Há doentes crônicos com doenças avançadas e terminais que já não têm indicação de usar respirador antes de adoecer da covid-19. Para eles, é necessário que sejam atendidos com dignidade, tenham seus sintomas aliviados e, se possível, fiquem ao lado da família. Já um doente com grandes chances de sobreviver, se for precoce para um leito de UTI, pode perder essa chance se ficar três dias numa fila esperando por uma vaga”, salienta a geriatra.

Sobre a recomendação do Cremepe, o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, sinalizou em coletiva de imprensa online na quarta-feira (29), que a contribuição do conselho é importante. “Em situação de calamidade pública, o médico é chamado para tomar decisões difíceis. É essencial ter esse parâmetro, baseado em escores, para não ficar apenas em iniciativas simplistas, como usar o ponto de corte apenas da idade. Ninguém ficará desassistido; não queremos isso. Nosso trabalho é para salvar cada vez mais vidas”, destacou Longo.

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