SAÚDE

É uma vergonha o Brasil não ter se planejado para a compra de agulhas e seringas, diz epidemiologista

A enfermeira e pós-doutora em epidemiologia Ethel Maciel comentou o atual cenário do plano de imunização contra a covid-19 no Brasil na Rádio Jornal, nesta sexta-feira (8)

JC
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Publicado em 08/01/2021 às 11:25
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Ethel Maciel foi uma das pesquisadoras que teve o nome incluso no plano de vacinação contra a Covid-19 que foi encaminhado pelo governo ao Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2020 mesmo sem ter sido consultada - FOTO: REPRODUÇÃO
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No mesmo dia em que o Instituto Butantan apresentou resultados positivos sobre a vacina CoronaVac, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou atrás e assinou decreto que reabre crédito extraordinário de R$ 19,9 bilhões para custear a imunização da população contra a covid-19. Anteriormente, o chefe do executivo havia dito que a compra de compra de seringas estaria suspensa "até que os preços voltem à normalidade". Em entrevista à Rádio Jornal, a enfermeira e pós-doutora em epidemiologia Ethel Maciel criticou a falta de planejamento para aquisição precoce do material necessário para o plano de vacinação.

"Infelizmente é uma vergonha a falta de planejamento do governo para um país como o nosso, que tem uma tradição enorme de campanhas de vacinação, que sabe fazer isso", disse a especialista. Ela ressalta que o contrato entre a gestão, a Astrazeneca e a Fiocruz foi firmado no dia 31 de julho, e defende que, desde então, a logística deveria ter sido iniciada. "[O governo] já sabia que teria as vacinas e que eram intramuscular - que precisaria de seringas e agulhas. Não se preparou e iniciou a compra em dezembro", critica.

"Todo mundo está atrás do mesmo produto, então é natural da lei da oferta e da demanda que haverá escassez no mercado, e que o preço vai aumentar. Não tem outra saída para o governo, vai ter que comprar com o valor do mercado", explica a epidemiologista. "Felizmente, alguns governadores foram organizados e compraram seringas. Os estados têm uma reserva de seringas e não é apenas para as campanhas de vacinação que já fazemos, contra sarampo, meningite, rubéola; eles compraram a mais. Então a gente vai poder iniciar com essas seringas e o governo federal vai ter que comprar depois para repor para esses estados."

Ethel tranquilizou a população acerca dos resultados sobre a CoronaVac, e fez apelo para que todos se vacinem. "O que a gente sabe até o momento já pode dar tranquilidade de que essa vacina é segura, eficaz, e vai poder auxiliar no controle dessa pandemia. Quando se diminui o numero de pessoas infectadas, diminui a transmissão, diminui o número de pessoas com doenças graves e a também diminui a mortalidade. A vacina é tudo que a gente precisa para controlar essa pandemia. É uma estratégia coletiva, a gente precisa que todas as pessoas vão até o serviço de saúde se vacinar. O que conta é ter pessoas vacinadas", pediu.

O Instituto Butantan, do governo de São Paulo, informou que os resultados do imunizante produzido junto ao laboratório chinês Sinovac apresentou 78% de eficácia em casos leves, e 100% nos graves. "Ainda que a gente tenha um percentual [de pessoas] que vai desenvolver uma doença leve, é um sucesso enorme impedir o desenvolvimento de uma doença grave, precisa ir para hospital, ser entubado, e muitas pessoas perdem a vida", disse Ethel.

A especialista explica que, por causa do caráter emergencial das vacinas aprovadas, nem todas as respostas foram dadas. Por exemplo, não se sabe exatamente o tempo de imunização que cada uma garante. "Vamos saber tudo isso ao longo nesse ano".

Ela esclarece também que os imunizantes foram desenvolvidos com rapidez nunca antes vista na história da humanidade porque há anos diversos laboratórios já pesquisavam como desenvolver vacinas para outros tipos de coronavírus, e que, em uma pandemia, o processo também é acelerado. "Esses laboratórios precisaram fazer algumas modificações, mas a base dessas pesquisas já existia. A gente conseguiu testar muito rápido porque estamos no meio de uma pandemia. Na fase 3, precisa ter pessoas que estejam sob o risco de se infectarem, de entrar em contato com o vírus. Se não estivéssemos em uma pandemia, talvez demoraríamos 5 ou 10 anos para ter 40 mil pessoas que entrassem em contato com o vírus", afirma.

Nome incluso no plano de vacinação

Ethel Maciel foi uma das pesquisadoras que teve o nome incluso no plano de vacinação contra a covid-19 que foi encaminhado pelo governo ao Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2020 mesmo sem ter sido consultada. "Nós, pesquisadores que estamos assessorando o governo no Plano Nacional de Vacinação da Covid-19, acabamos de saber pela imprensa que o governo enviou um plano, no qual constam nossos nomes e nós não vimos o documento. Algo que nos meus 25 anos de pesquisadora nunca tinha vivido!", disse, nas redes sociais. Após protesto da professora e de outros especialistas, o Ministério da Saúde retirou os nomes.

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