Notícias sobre segurança pública em Pernambuco, por Raphael Guerra

Segurança

Por Raphael Guerra e equipe
EXCLUSIVO

Chacina de Camaragibe: 'Verdade irá chegar', diz oficial da PM acusado de dar ordem para crimes

Pela primeira vez, tenente-coronel fala sobre as acusações de participação na sequência de assassinatos ocorridos após as mortes de dois PMs. Ele é réu por triplo homicídio e está afastado das funções públicas

Cadastrado por

Raphael Guerra

Publicado em 22/03/2024 às 14:38 | Atualizado em 22/03/2024 às 15:03
Tenente-coronel Fábio Roberto Rufino da Silva é réu na chacina de Camaragibe - Guga Matos/JC Imagem

Réu por triplo homicídio duplamente qualificado e afastado das funções públicas por determinação da Justiça, o tenente-coronel Fábio Roberto Rufino da Silva decidiu quebrar o silêncio e rebater as acusações de suposta participação na chacina de Camaragibe, no Grande Recife, ocorrida em setembro de 2023.

Em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, na sede da Associação de Cabos e Soldados de Pernambuco, no Recife, nesta sexta-feira (22), o oficial da Polícia Militar afirmou que não teve qualquer participação na sequência de assassinatos ocorridos por vingança após as mortes de dois policiais no bairro de Tabatinga. Na época, ele era comandante do 20º Batalhão, responsável pelo policiamento na localidade.

"Eu não passei nenhuma mensagem, nem informação a respeito do que tinha acontecido (para os policiais)", declarou. 

Além dele, outros 11 policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE) à Justiça e se tornaram réus. A 1ª Vara Criminal da Comarca de Camaragibe expediu intimações para que todos ofereçam defesa por escrito. Após o prazo, será feito o agendamento da primeira audiência de instrução do processo.

A denúncia do MPPE destaca que os tenentes-coronéis Fábio Roberto Rufino e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco, que ocupava o segundo posto de comando da inteligência da PM, teriam acionado vários PMs para dar início à perseguição ao suspeito de matar os dois militares, o vigilante Alex da Silva Barbosa, morto no dia seguinte. 

Também foram assassinados: Ágata Ayanne da Silva, Amerson Juliano da Silva e Apuynã Lucas da Silva (irmãos de Alex), Maria José Pereira da Silva e Maria Nathalia Campelo do Nascimento (mãe e esposa dele). Ana Letícia, de 19 anos, que teria sido feita de escudo humano por Alex no momento de confronto com os PMs que foram morto, também acabou falecendo dias depois. 

O tenente-coronel e os outros 11 PMs são réus no primeiro processo enviado à Justiça, que diz respeito aos assassinatos dos três irmãos de Alex. O crime, inclusive, foi filmado e transmitido em tempo real por Ágata, numa rede social.

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CONFIRA A ENTREVISTA EXCLUSIVA:

O senhor participou em algum momento, em alguma situação, da chacina ocorrida em Camaragibe?

No momento em que os dois policiais foram vitimados, eu era comandante da área. Fui para o local onde eles estavam hospitalizados, e a gente teve a notícia do óbito deles lá. Fui lá para ficar à frente e passar as informações para a Diretoria (Integrada Metropolitana da Polícia Militar). Minha missão era essa: exatamente passar as informações fidedignas do que tinha acontecido diante da morte dos policiais.

O senhor esteve no local onde os PMs morreram? Conversou com outros policiais e solicitou que eles fizessem diligências para capturar o suspeito? Houve troca de mensagens?

Eu fui na unidade hospitalar e fui no local. Eu cheguei lá e fui só passar o que tinha acontecido para o meu diretor. Eu fui apurar, mas não fui comandar as viaturas. Porque essas viaturas ficam subordinadas ao Ciods (Centro Integrado de Operações de Defesa Social).

Na investigação, o Ministério Público diz que o senhor e o tenente-coronel Marcos Túlio "participaram intensamente das trocas de mensagens para os policiais" e que "eram passadas informações a respeito dos familiares do Alex". Isso ocorreu?

De forma alguma. Eu não passei nenhuma mensagem, nem informação a respeito do que tinha acontecido. Eu entrei em contato só com diretor integrado metropolitano.

Os policiais militares participaram efetivamente das mortes em Camaragibe? O que o senhor sabe sobre isso?

Eu não posso julgar, nem tenho competência para julgar. Mas a verdade irá chegar.

Tenente-coronel Roberto Rufino da Silva é réu na chacina de Camaragibe - Guga Matos/JC Imagem

O Ministério Público cita, na denúncia, que houve uma reunião próximo à Faculdade de Odontologia de Pernambuco para planejar a caçada ao Alex e aos familiares dele. O senhor participou?

Eu passei próximo ao local, mas não participei dessa reunião. Eu vi algumas viaturas da Diresp (Diretoria Integrada Metropolitana da PM), mas não participei da reunião. Eu passei e vi que não era reunião do meu batalhão. Fui embora.

O Ministério Público também diz que o senhor e o tenente-coronel Marcos Túlio "não expressaram contrariedade antes ou depois dos assassinatos". O senhor chegou a conversar com os policiais sobre as mortes? Houve alguma reunião depois desse fato?

A apuração faz parte da Polícia Civil. Eu, como comandante, não precisava fazer esse tipo de verificação. Depois que aconteceu, a gente nem direcionou mais atenção porque poderia ser interpretada de outra forma, por isso deixamos a investigação para a Polícia Civil.

A Justiça determinou que o senhor e os outros policiais que se tornaram réus, mas estão soltos, sejam afastados das funções públicas. O que o senhor tem a dizer sobre essa decisão?

Eu tenho que respeitar, porque, como militar, a gente respeita a decisão que vem de cima.

DEFESA DO TENENTE-CORONEL

Advogado Cézar Souza, responsável pela defesa do tenente-coronel Fábio Roberto Rufino da Silva - Guga Matos/JC Imagem

O advogado Cézar Souza, da Associação de Cabos e Soldados, fez críticas ao Ministério Público, que, segundo ele, divulgou informações ao longo do andamento do inquérito que estava sob sigilo. Ele citou,  por exemplo, a informação de que celulares de investigados foram apreendidos durante operação. 

Disse ainda que o Ministério Público divulgou a lista de réus um dia antes da Justiça derrubar o sigilo do processo e torná-lo público.

"Causa surpresa esse vazamento seletivo de informações, com a finalidade de causar uma comoção social, porque, de fato, aqueles crimes que ocorreram causam uma comoção social", afirmou o advogado, responsável apenas pela defesa do tenente-coronel Fábio Roberto Rufino.

Ele ainda reafirmou que o oficial não teve qualquer participação na sequência de assassinatos e que, inclusive, os policiais que viraram réus não eram subordinados a ele.

"Nenhum daqueles que estão denunciados eram comandados pelo tenente-coronel Rufino. Nenhum daqueles denunciados são do 20º Batalhão", disse.

Além dos dois tenentes-coronéis citados na reportagem, também viraram réus por suposta participação nesses crimes:

João Thiago Aureliano Pedrosa Soares, 1º tenente;

Paulo Henrique Ferreira Dias, soldado (preso);

Leilane Barbosa Albuquerque, soldado (presa);

Emanuel de Souza Rocha Júnior, soldado (preso);

Dorival Alves Cabral Filho, cabo (preso);

Fábio Júnior de Oliveira Borba, cabo (preso);

Diego Galdino Gomes, soldado;

Janecleia Izabel Barbosa da Silva, cabo;

Eduardo de Araújo Silva, 2º sargento;

Cesar Augusto da Silva Roseno, 3º sargento.

OUTRAS INVESTIGAÇÕES

Sequência de assassinatos, em setembro do ano passado, chocou o País - REPRODUÇÃO

O MPPE e a Polícia Civil seguem investigando o caso para esclarecer as mortes dos outros parentes de Alex.

Por volta das 9h de 15 de setembro, os corpos da mãe, Maria José Pereira da Silva, e da esposa dele, Maria Nathalia Campelo do Nascimento, 27, foram achados num canavial na cidade de Paudalho, Mata Norte do Estado.

Duas horas depois, Alex foi morto em Tabatinga. A PM alegou que houve uma abordagem e que ele teria reagido, resultando na troca de tiros.

A Polícia Civil e o MPPE também precisam esclarecer como foi a dinâmica das mortes dos PMs. Havia uma suspeita de que Alex poderia ter contado com ajuda de outra pessoa.

Não há prazo para conclusão das investigações e para o envio de novas denúncias à Justiça.

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