Alicia Keys aborda temas pessoais e sociais em novo álbum

Sétimo disco de estúdio da cantora estadunidense, 'Alicia' é marcado por sua sensibilidade para melodias marcantes e referências à música soul
Márcio Bastos
Publicado em 23/09/2020 às 9:01
RESISTÊNCIA E RESILIÊNCIA Ao longo de sua carreira, Alicia Keys já vendeu mais de 40 milhões de álbuns Foto: DIVULGAÇÃO


Prestes a comemorar duas décadas de carreira (seu disco de estreia, Songs In a Minor, foi lançado em 2001), Alicia Keys é hoje um dos nomes mais respeitados do r&b e atingiu o topo das paradas com uma mistura certeira de música clássica com os ritmos urbanos. Seu sétimo álbum, Alicia, é mais um exemplo de como a artista continua a aperfeiçoar essa fórmula sem se acomodar, experimentando elementos de gêneros musicais variados em canções que mesclam investigação de suas emoções e análises do ambiente político e social.

Inicialmente programado para chegar às lojas e plataformas digitais no final de março, o trabalho foi adiado por conta da eclosão da pandemia do novo coronavírus. Desde então, Alicia tem se empenhado para ajudar na conscientização das medidas para conter a covid-19, participou de eventos beneficentes em prol de causas ligadas ao combate da doença e homenageou os trabalhadores de serviços essenciais na canção Good Job, presente no novo disco.

A faixa não é a única em Alicia a refletir o estado do mundo. Em Perfect Way To Die, a cantora e instrumentista critica a violência policial contra negros, questão que está no centro do debate nos EUA, diante dos vários casos de assassinatos e crimes de ódio motivados pelo racismo.

Em Undergod, ela celebra os excluídos e as minorias. Como uma crônica da luta daqueles massacrados pelas estruturas sociais, Alicia constrói um tocante hino de empoderamento, sem soar piegas. A inserção de canções de denúncia social também estavam presentes no excelente Here (2016), talvez o álbum mais experimental da artista.

Menos arriscado em termos sonoros, mas nem por isso inofensivo, este novo disco mostra uma artista segura de sua arte e ainda inquieta. Os elementos que a consagraram desde o início da carreira estão todos ali: a voz poderosa, o virtuosismo com o piano, as composições inteligentes e cheias de sentimento, o vasto conhecimento da música negra norte-americana e um ouvido preciso para construir melodias cativantes.

É o caso de Time Machine, que já figura entre as melhores de sua carreira. A faixa é um caldeirão de referências sonoras, que vão da música eletrônica ao soul e o funk, em uma mistura hipnótica que chega ao apíce em um final conduzido por um instrumental com inspirações psicodélicas. Essa mistura entre esperança e melancolia permeia a maior parte do álbum, como uma percepção de que a vida não é binária, mas uma grande zona cinzenta, cheia de altos e baixos, erros e acertos, como ela aponta em Authors of Forever.

A complexidade das relações também é um tema recorrente na obra da cantora e ganha destaque no novo álbum em canções como Wasted Energy, com o músico da Tanzânia Diamond Platnumz, sobre a negligência de um parceiro; a sensual 3 Hours Drive, com Sampha, que aborda a distância e o desejo que nos liga e conduz, e a excelente Show Me Love, dueto o cantor Miguel.

Em Me x 7, com a rapper Tierra Whack, ela canta sobre seus vícios e manias e a propensão de recorrer a muletas emocionais. Alicia também brilha em So Done, com Khalid, um dos artistas mais bem-sucedidos do r&b contemporâneo e que claramente foi inspirado pela cantora. Ela aproveita também parece celebrar um de seus ídolos, Jill Scott, que canta e dá nome a uma das canções.

Alicia é mais uma prova de que a cantora e compositora se mantém fiel às suas convicções e produz de acordo com os seus próprios termos. Treinada na música clássica e exímia no piano, mesclou elementos de uma arte considerada elitista com o hip hop e o r&b, conquistou o público jovem e ocupou espaços historicamente negados a mulheres negras e jovens.

Suas canções dialogam com o comercial, sem se pautar por eles. As canções do álbum podem tocar nas rádios pop e também figurar em playlists voltadas para a música alternativa, ou clássica ou ao r&b tradicional. Essa mistura de gêneros sem preocupação em se encaixar é um dos aspectos mais fascinantes de Keys.

Que essa altivez tenha se convertido em uma carreira célebre (são 15 Grammys, mais de 40 milhões de álbuns vendidos, canções em primeiro lugar na parada americana e vários prêmios) se mostrou não só uma prova de resistência e resiliência, como também abriu portas para outros artistas jovens e dispostos a experimentar. E, como mostra no novo álbum, aos quase 40 anos, ela continua disposta a se desafiar, olhando para suas emoções sem deixar de se engajar e usar sua voz por uma sociedade mais justa.

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