Rússia prepara produção em massa da vacina contra o coronavírus para setembro

País europeu anunciou registro da vacina nesta terça-feira (11)
AFP
Publicado em 11/08/2020 às 8:31
Casos suspeitos de reinfecção em Pernambuco serão avaliados pelo Ministério da Saúde Foto: HÉLIA SCHEPPA/SEI


Depois de confirmar o registro da primeira vacina contra o coronavírus no mundo, a Rússia anunciou que pretende iniciar a produção em escala industrial da substância a partir de setembro deste ano. A vacina foi batizada de Sputnik V, em homenagem ao satélite soviético.

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Apesar do otimismo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda vê com desconfiança a vacina russa por conta da falta de dados e transparência. 

Durante o anúncio da vacina, Putin ainda confirmou que uma de suas filhas foi inoculada com a vacina. "Uma das minhas filhas tomou esta vacina. Acho que ela participou nos experimentos", disse Putin, segundo a agência Interfax, poucos minutos depois de anunciar a homologação.

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A Rússia é o quarto país com mais casos de coronavírus no mundo. São 897 mil confirmações da doença e mais de 15 mil mortes.

CORRIDA PELA VACINA

De acordo também com a OMS, existem atualmente mais de 160 substâncias candidatas a vacina contra a covid-19 em desenvolvimento em todo o mundo. Para ser aprovada, a vacina precisa suceder em todas as etapas. As fases 1 e 2, feitas em dezenas e centenas de pessoas, respectivamente, têm como objetivo avaliar se o imunizante é seguro, a partir da observação de seus efeitos colaterais. Também buscam saber se ele estimula o sistema imunológico a combater o vírus. Na fase 3, a vacina é testada em larga escala para ver se funciona antes de poder ser liberada para toda a população.

A China e o Reino Unido já se encontram na fase 3. Enquanto isso, iniciativas mais avançada dos Estados Unidos ainda não conseguiu começar essa etapa. Pouco se sabe sobre a empresa Moderna, nos EUA. Ela chegou a anunciar resultados muito animadores na fase 1 de testes, mas ainda não há informação sobre como estão os resultados da fase 2, ainda estão em andamento.

Já a Rússia é responsável por uma das vacinas mais misteriosas, a Gamaleya. O laboratório russo anunciou resultados positivos na fase 1 de testes, mas sem muito detalhamentos.

Veja vacinas que têm avançado

Oxford

Uma das vacinas mais promissoras está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford. Na última segunda-feira (20), um artigo revisado por cientistas publicado na revista Lancet mostrou que a vacina experimental para a covid-19 da empresa AstraZeneca é segura e produziu resposta imune em ensaios clínicos iniciais em voluntários saudáveis.

O imunizante, chamado AZD1222, não provocou efeitos colaterais graves e desenvolveu respostas imunes a anticorpos e células T, de acordo com o estudo publicado na revista médica The Lancet. Os resultados referem-se às fases 1 e 2 de testes. A terceira etapa está sendo testada em 50 mil pessoas, incluindo 5 mil brasileiros.

"Esperamos que isso signifique que o sistema imunológico se lembre do vírus, para que nossa vacina proteja as pessoas por um período prolongado", disse o principal autor do estudo, Andrew Pollard, da Universidade de Oxford. A fase 3, com mais de 50 mil voluntários, está em andamento inclusive no Brasil, onde os testes estão sendo feitos em 5.000 pessoas pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em São Paulo, e pela Rede D'Or, no Rio de Janeiro.

O caminho até se chegar à vacina ainda é longo. Pesquisadores ressaltam que, nas fases 1 e 2, o imunizante foi testado entre 23 de abril e 21 de maio em 1.077 voluntários saudáveis, de 18 a 55 anos, num ambiente controlado. Ainda falta saber como a vacina vai funcionar em larga escala e qual a dose necessária para proteger todas as pessoas. "Precisamos de mais pesquisas antes de confirmarmos que a vacina protege efetivamente contra a infecção por SARS-CoV-2 e por quanto tempo dura a proteção", explicou Andrew.

Também foi firmado, no final de junho, um acordo do Ministério da Saúde com a Universidade de Oxford que prevê a produção de até 100 milhões de doses dessa vacina pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), com um investimento do governo federal de R$ 693,4 milhões. Inicialmente, devem ser produzidas 30,4 milhões de doses a partir de dezembro de 2020, segundo previsão do governo. Elas só serão disponibilizadas ao público após comprovação de sua eficácia. A instituição britânica prevê apresentar os resultados finais das pesquisas apenas em agosto de 2021.

CanSino

Também na última segunda-feira (20), a revista Lancet publicou os resultados da fase 2 de outra pesquisa com uma vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa CanSino Biologics. O teste foi feito com 508 voluntários em Wuhan, que foi o epicentro da pandemia na China. Eles foram divididos em grupos que receberam uma dose única, uma meia dose e um placebo.

Segundo o estudo, 95% do grupo que recebeu doses altas da vacina e 91% dos que tomaram doses baixas desenvolveram respostas imunes de células T e de anticorpos no 28° dia após a vacinação. Assim como a vacina de Oxford, os chineses também recorreram a uma versão de um adenovírus para tentar provocar uma resposta imune do organismo no combate à infecção causada pelo novo coronavírus.

A fórmula usada pela empresa no desenvolvimento da vacina é a mesma aprovada para o enfrentamento do ebola. O estudo lembra, entretanto, que nenhum dos participantes foi exposto ao novo coronavírus após a vacinação. Por isso, ainda não é possível dizer se ela protege contra a infecção. A fase 3, com um grupo maior de participantes, já está em andamento, segundo a empresa.

Sinopharm

Outra vacina chinesa que está avançando é a Sinopharm. A iniciativa passou pelas fases preliminares de testes e se provou segura e capaz de induzir resposta imune. Durante os experimentos, foram 1.120 voluntários, que receberam duas aplicações da vacina em diferentes doses.

Após 28 dias da primeira aplicação, os pesquisadores perceberam 100% de seroconversão dos pacientes, o que significa que todos os vacinados tinham os anticorpos desejados ao final do ciclo. No entanto, os dados também não foram publicados em formato de artigo científico até o momento.

Assim como a vacina da Sinovac, a iniciativa da Sinopharm se baseia no uso do vírus inativado para gerar resposta imune contra a Covid-19. A pesquisa também já entrou na fase 3 de testes, com a aplicação em voluntários nos Emirados Árabes.

Brasil

CoronaVac

A vacina contra o coronavírus que está sendo desenvolvida pela farmacêutica chinesa de biotecnologia Sinovac com o Instituto Butantã, em São Paulo, segue progredindo para as testagens. As primeiras doses da CoronaVac serão aplicadas nesta terça-feira (21) em profissionais de saúde. No total, mais de um milhão de pessoas se inscreveram no site do Governo do Estado criado para recrutar voluntários, entretanto, apenas 9.000 serão selecionados para participar da fase 3 dos testes.

A vacina usa uma versão do vírus inativado, ou seja, não há a presença do coronavírus Sars-Cov-2 vivo na solução, o que reduz os riscos deste tipo de imunização. Vacinas inativadas são compostas pelo vírus morto ou por partes dele. Isso garante que ele não consiga se duplicar no sistema. É o mesmo princípio das vacinas contra a hepatite e a influenza (gripe), no qual ela implanta uma espécie de memória celular responsável por ativar a imunidade. Quando entra em contato com o coronavírus ativo, o corpo já está preparado para induzir uma resposta imune.

As pesquisas esperam que os resultados sobre os testes no Brasil saiam até dezembro. A depender da eficácia, a vacina poderá estar disponível até junho de 2021. As previsões mais otimistas sobre o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus falam de um ano a um ano e meio para que ela fique pronta.

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