DIA DAS MÃES

Ela perdeu a irmã para covid, mas ganhou um filho. A história de uma mãe em meio à pandemia

Pollyanna também viu o sonho de morar em Portugal cancelado. Mas a vida lhe reservava um presente muito maior

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 09/05/2020 às 15:25
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YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
Pollyanna e Cláudio estão no processo de adoção, após uma espera de cinco anos. A notícia chegou bem em meio às incertezas do novo coronavírus. - FOTO: YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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Estava tudo planejado. Malas prontas, passagens compradas. Pedido de demissão no emprego, móveis vendidos, apartamento próprio alugado, era só esperar. A ideia de recomeçar a vida em Portugal finalmente ia virar realidade. Afinal, faltavam poucos dias para a viagem. O voo, marcado para 20 de março. No dia 18, o espaço aéreo de Portugal foi fechado. Encerrava-se ali um ano de planejamento e o sonho de viver em outro país. O novo coronavírus havia jogado a vida da ex-funcionária pública Pollyanna Souza, 43 anos, em compasso de espera. Quase um mês depois, o impacto da pandemia ganharia outra dimensão. Faria Pollyanna chorar a morte da irmã, vítima da covid-19. Em meio à dor extrema, uma ligação telefônica mudaria tudo de lugar. De novo.

Do outro lado da linha, uma assistente social daria a notícia que Pollyanna aguardava há cinco anos: havia uma criança disponível para adoção. “A senhora tem interesse em conhecê-la?”

O coração apertou. A cabeça deu um nó.

Razão e emoção embrulhadas, numa hora de tantas incertezas e medo de tudo. Ela imaginou: sair de casa, ir buscá-la no abrigo, o risco de contaminação, a indefinição dos dias, a insegurança do amanhã. Mas pensou no menino que a esperava e o quanto o desejo de ser mãe era maior que tudo. “Havia um motivo para eu não pegar aquele avião. Era meu filho que estava me esperando. Comida não vai faltar. Amor também não. Então, eu deixei o medo de lado e disse para o meu marido: vamos encarar.”

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A primeira videoconferência para conhecer o garoto ocorreu no mesmo dia em que a irmã de Pollyanna foi enterrada. Ela havia morrido na noite do dia anterior. Faltaram forças. Só o marido, o advogado Cláudio Marinho, 44, participou da conversa. A avó paterna não aguentou a curiosidade e também entrou no papo virtual. Pollyanna só iria conseguir conversar com o menino no dia seguinte. E, um dia depois, o casal já estava pegando a estrada, rumo a Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata do Estado, para encontrar pessoalmente o garoto que chegava para mudar totalmente o destino dos dois.

A própria vida do menino também foi atravessada pela pandemia. Abrigado há cerca de um ano, está com o processo de destituição de poder familiar praticamente concluído, mas ainda sem o trânsito em julgado, em função da paralisação imposta pelo coronavírus às atividades do Judiciário. Preocupada com a saúde e o risco de contaminação para a criança, a juíza Sheila Cristina Torres Santos Moreira, da Vara da Infância e da Juventude de Vitória de Santo Antão, autorizou a guarda provisória para o garoto. “Nossa intenção é proteger a criança, já que o ambiente de abrigamento oferece mais riscos. Tivemos o cuidado, inclusive, de verificar se a nova família estava em isolamento social e tomando todos os cuidados para tentar evitar a contaminação do vírus”, explica a magistrada.

YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
Pollyanna e Cláudio estão no processo de adoção, após uma espera de cinco anos. A notícia chegou bem em meio às incertezas do novo coronavírus. - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após cinco anos aguardando pela adoção, casal recebe notícia positiva um dia depois de perder parente pela Covid-19. - YACY RIBEIRO/JC IMAGEM

LUA DE MEL

Neste domingo (10) faz exatos 11 dias que Pollyanna e Cláudio estão descobrindo como é ser mãe e pai de um menino de 7 anos. “Minha vida agora é Pokemon”, disse, logo de cara, no primeiro contato telefônico que fiz com ela para a reportagem, fazendo referência ao jogo eletrônico japonês que faz sucesso entre os garotos. Com o apartamento alugado, o casal está morando na casa da mãe de Cláudio. “Era para ser só por uns dias, enquanto a gente aguardava a hora de viajar. Agora, vamos tocando a vida por aqui, esperando ver como as coisas vão ficar.”

Por falta de espaço, as roupas continuam nas malas. E, com a família maior, todo dia é um aprendizado. “Ele é uma criança ótima, muito educada. O abrigo cuidou muito bem dele. Tá melhor do que a encomenda”, diz Pollyanna, brincando que a fase atual é de lua de mel. “Achei que ele pudesse estranhar, mas a adaptação tem sido muito tranquila. Tanto pra gente quanto pra ele.”

Pé no chão, Pollyanna não romantiza o processo de adoção. “Não é um amor à primeira vista, coisa de novela. É uma construção de afeto diária. A relação vai acontecendo devagar, a gente conhecendo ele, e ele descobrindo como é ter uma nova família. Só posso dizer que estou muito feliz”, comemora. Ela admite que, se não fosse a presença do filho, estaria muito mais mergulhada no luto, na dor pela perda da irmã. “Com ele, termino me ocupando muito, tem que brincar, dar atenção. Me vejo entre duas sensações distintas. A tristeza pela saudade da minha irmã e a alegria da chegada do meu filho.”

Na última sexta-feira (08), ela estava especialmente feliz. Pela primeira vez, o menino, de forma espontânea e sem ninguém esperar, chamou Pollyanna de mamãe. “Desde que ele chegou, só nos chamava de tio e tia. Eu fiquei besta quando ouvi. Acho que hoje não vou nem conseguir dormir”, contou, ainda em festa. Ela sabe que, no desafio que é educar, os dias difíceis também virão. “Vamos enfrentar a dificuldade que for. Depois que disse sim, a gente não o devolve mais de jeito nenhum. Ele é nosso. E, seja qual for o plano, ficar no Recife ou retomar o projeto de Portugal, serão sempre os três juntos.” Pollyanna já sabe e sente. Agora é amor para a vida toda. Um amor que tem nome. Amor de mãe.

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