LUTO

Políticos e entidades lamentam morte de Roberta, trans queimada por adolescente no Recife

Ao ser queimada viva no Cais de Santa Rita, Centro do Recife, no dia 24 de junho, Roberta Nascimento Silva, 33 anos, deu visibilidade à causa LGBTQIA+ em Pernambuco

Cadastrado por

Katarina Moraes

Publicado em 09/07/2021 às 10:32 | Atualizado em 09/07/2021 às 16:50
Ela passou por uma cirurgia na bacia no dia 17 de outubro - Foto: Diego Nigro/Arquivo JC Imagem

Ao ser queimada viva no Cais de Santa Rita, Centro do Recife, no dia 24 de junho, Roberta Nascimento Silva, 33 anos, deu visibilidade à causa LGBTQIA+ em Pernambuco. O assassinato, supostamente cometido por um adolescente, rendeu-lhe 16 dias de internação no Hospital da Restauração (HR), a amputação dos dois braços e cirurgias de raspagem. Nesta manhã de sexta-feira (9), por volta das 9h, ela descansou. A morte da transexual causa comoção nas redes sociais, onde políticos e entidades lamentam a perda.

O prefeito do Recife, João Campos (PSB), "lamentou profundamente a morte", e disse que nova casa de acolhimento à população LGBT+ homenageará Roberta. "Lamento profundamente a morte da mulher trans Roberta da Silva. É intolerável qualquer vida perdida para o ódio e para o preconceito. Vamos avançar com novas ações para ampliar o atendimento a esta população, como a Casa de Acolhida LGBTI+, que irá receber o nome de Roberta".

A codeputada estadual do Juntas Robeyoncé Lima (PSOL), quem inicialmente divulgou o caso, publicou uma nota de pesar no Twitter. "Me foi informado agora pouco do falecimento da companheira Roberta. Atacada de maneira cruel, ela foi mais uma vítima da transfeminicídio em Pernambuco. Mandemos boas energias para que ela tenha uma passagem serena e também honremos sua memória", desejou.

A deputada estadual Teresa Leitão (PT) trouxe a notícia com tristeza, e denunciou o preconceito presente no Estado.

Através de nota, o PV Pernambuco lamentou a morte de Roberta e afirmou que "é doloroso, em todos os aspectos, receber notícias desse porte uma vez que a defesa da diversidade humana é dever de todos". A sigla declarou, ainda, que "repudia a violência contra qualquer forma de vida e, acima de tudo, defende a dignidade do ser humano". Além disso, a Executiva da agremiação disse que segue cobrando que a Justiça seja aplicada "para que haja respeito e direito à cidadania plena".

A Aliança Nacional LGBT reafirmou, por nota, que vai continuar com o compromisso de "atuar para que a Justiça e a educação vençam a violência, a intolerância e o preconceito. Neste momento de dor, prestamos toda a solidariedade à família, amigos e esperamos que os órgãos competentes possam criar políticas políticas pública ao enfrentamento da LGBTfobia que é crime e interrompe trajetórias como a de Roberta Silva, em uma sociedade democrática e de direito não há espaço para barbárie, ódio e intolerância."

Brenda Safra, travesti, atriz e influenciadora digital, disse estar "arrasada" com a notícia da morte. "Infelizmente acordando com más notícias. Mais uma mulher trans morta por transfobia no Recife. Dessa vez é a Roberta, a moça que foi queimada viva. Ela não resistiu e faleceu no hospital. Estou arrasada."

Por meio de nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ) também lamentou o ocorrido. Prestamos nosso respeito e solidariedade à família, amigas e amigos de Roberta e a toda a comunidade LGBT. O Governo de Pernambuco não tolera crimes de ódio e repudia que uma pessoa seja assassinada pela sua condição de gênero ou orientação sexual", disse trecho do texto.

De acordo com o órgão, o adolescente apreendido pelo "ato infracional análogo a tentativa de homicídio qualificado" contra Roberta, cumpre internação provisória na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase), onde aguarda sentença.

A  Frente Popular de Enfrentamento à Transfobia se referiu à morte de Roberta como "um brutal caso de transfeminicídio". Segundo a entidade, "a morte de Roberta não é um número. É uma vida interrompida e demonstra todas as camadas da vulnerabilidade social desta população que encara uma a vida nas rua, a prostituição como única opção, a falta de acesso a documentos básicos, distância do processo de retificação do nome, e um atendimento administrativo de saúde completamente despreparado para o acolhimento".

O caso

O caso aconteceu no dia 24 de junho e ela estava internada na unidade de saúde desde então. Após ter tido o braço esquerdo amputado, Roberta apresentou melhora, estava consciente e respirando sem ajuda de aparelhos. No último domingo (4), entretanto, ela precisou ser intubada novamente após apresentar depressão respiratória e foi transferida para a UTI no dia seguinte.

O suspeito de cometer o "ato infracional", por se tratar de um adolescente, foi apreendido e levado para um serviço de atendimento provisório. O caso segue sob investigação.

No início da semana, a mãe de Roberta concedeu entrevista à TV Jornal, na qual relatou a dor de ver de perto a violência sofrida pela filha. "Eu tenho pressão alta, deu uma dor em mim e fui socorrida. Foi muito forte vê-la queimada daquele jeito, ficou muito marcada. Quando saio de lá (do hospital), me sinto mal. Quando chego em casa, tenho que tomar remédio. Às vezes, durmo tarde", afirmou. Ela preferiu não ser identificada.

Assassinatos de travestis

Com a morte de Roberta, subiu para quatro o número de mulheres trans assassinadas em Pernambuco em menos de um mês. Kalyndra, de 26 anos, Pérola, de 37, Fabiana, 30, e, agora, Roberta, 33 anos. Entre facadas, tiro no pescoço, asfixia e corpo queimado, as vítimas foram mortas de forma extremamente violenta, com requintes de crueldade, como é o padrão nesses casos, conforme especialistas do assunto. As mortes das quatro mulheres também confirmam a baixa expectativa de vida das transexuais no Brasil, que é de apenas 35 anos de idade.

Em entrevista à Rádio Jornal na última quinta-feira (8), a pesquisadora do Observatório da Violência de Pernambuco, Dália Celeste, havia alertado para como as mortes de mulheres trans costumam ter requintes de crueldade. "O crime de transfobia é praticado sempre com grandes requintes de crueldade. Não basta matar [na cabeça dos agressores]. São inúmeras facadas, estrangulamentos, no caso da Roberta, ela foi queimada viva”, disse Dália.

“Nós precisamos educar as crianças porque elas estão sendo ensinadas dentro dessa lógica de preconceito que trans não devem ter dignidade. [O homem que mata uma trans] ele mata porque ele não sabe lidar com o corpo que desde a infância foi ensinado a ele que é errado", completou a especialista, que também é uma mulher trans.

Como denunciar LGBTfobia

A sociedade em geral e a população LGBTI podem denunciar qualquer ato violador dos seus Direitos pelo CECH, através dos números (81) 3182-7665/ 3182-7607, do e-mail centrolgbtpe@gmail.com, ou presencialmente na sede do órgão localizado na Rua Santo Elias, 535, bairro do Espinheiro. O governo do estado garante sigilo das informações. Já a Prefeitura do Recife disponibiliza plataforma online de denúncias contra LGBTfobia através do link http://bit.ly/DenunciaLGBTRecife. Vítimas também podem procurar o Centro de Referência em Cidadania LGBT do Recife. O equipamento fica na Rua dos Médicis, nº 86, Boa Vista, e funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.


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