DIREITOS HUMANOS

Comunidade dos Pequenos Profetas: a descoberta da vocação do empreendedor social que ajuda a reescrever histórias da periferia do Recife

Demetrius Demetrio comanda a ONG que atende cerca de 400 crianças e jovens de 7 a 21 anos há 37 anos no Centro do Recife

Cadastrado por

Katarina Moraes

Publicado em 01/05/2022 às 7:00
As pessoas pensam que é fácil para esses jovens terem uma alternativa, mas uma pessoa abandonada desde pequena não consegue mudar do dia para a noite. É um processo muito lento, que se não for através da educação, não há um impacto", diz Demetrius Demétrio - ALEXANDRE AROEIRA/JC IMAGEM.

Demetrius Demetrio só descobriu o que era pobreza aos 15 anos, quando o pai militar foi transferido para a capital pernambucana. Até então, o morador do Plano Piloto, área mais nobre do Distrito Federal, não tinha como vizinha a desigualdade social escancarada pelas esquinas. Foi confrontado a ponto de, a contragosto dos pais, “que morreram do coração” - brinca ele - escolher viver um ano em situação de rua pelo Centro da cidade. Assim, nasceu a vocação que levaria por toda a vida: a de empreendedor social.

“Com a cara e a coragem”, como diz, começou a cozinhar e a distribuir sopa na garagem da Basílica da Penha, no Bairro de São José, onde passou sete anos. Mas isso não bastava para ele: “comida matava a fome, mas as pessoas ficavam dependentes disso”. Queria mesmo era mudar realidades.

Contra qualquer tipo de violência, já foi até ameaçado de morte por acolher pessoas ameaçadas de morte por grupos de extermínio, o que fez com que se exilasse precisou passar um ano escondido na Europa, onde aproveitou para estudar sobre captação de recursos a partir de financiamento social.

Há 37 anos, concentra na Comunidade dos Pequenos Profetas (CPP) o seu grande projeto de vida. O nome, dado pelo então arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara. Pequenos por atender a crianças, e profetas por eles “anunciarem e denunciarem” à sociedade a situação de vulnerabilidade social que viviam.

No casarão 110 da Avenida Sul, no Bairro de São José, no Centro da cidade, cerca de 400 crianças e jovens de 7 a 21 anos, entendem - alguns pela primeira vez - o que é ter cidadania, por meio de oficinas que os empoderam sobre a efetivação dos seus direitos humanos, além de capacitá-los profissionalmente.

De segunda a sexta-feira, das 7h às 15h, são promovidas no local oficinas de esportes, de corte de cabelo, de percussão, de meditação, de gastronomia e de produção de hortas, contação de histórias e atendimento psicossocial e jurídico. Tudo feito de forma gratuita para moradores das comunidades do Coque, Coelhos, Joana Bezerra e da Ilha do Leite, e para pessoas em situação de rua.

As mães dos assistidos não ficam de fora. Para elas, são oferecidas oficinas de produção de vasos em papel machê, de compostagem e de costura - vendidas in loco e em feiras locais, revertendo o lucro para as produtoras. “Eu era diarista, agora trabalho com compostagem. É muito bom. Todo dia é essa alegria”, conta Rosana Lessa, de 55 anos, que há um ano frequenta a sede.

Agora, o sonho de Demetrius é “sonhado junto” com uma equipe de 9 funcionários - entre psicóloga, gastrônomo, cozinheira, motorista, pedagoga, nutricionista e cineasta - e cinco voluntários. Na CPP, ele comanda as oficinas de gastronomia.

Fundador da Comunidade dos Pequenos Profetas (CPP), Demetrius Demetrio - Alexandre Aroeira/Jc Imagem.

“Nossa missão é essa: tentar reescrever uma nova história de sucesso através de projetos educativos . As pessoas pensam que é fácil para esses jovens terem uma alternativa, mas uma pessoa abandonada desde pequena não consegue mudar do dia para a noite. É um processo muito lento, que se não for através da educação, não há um impacto”, contou o empreendedor social.

Para Carlos André Barbosa, de 44 anos, a casa representou uma mudança de vida. “Fui abandonado aos 10 anos e vivia nas ruas do Centro quando entrei na instituição. Hoje sirvo de exemplo para outros meninos, porque tenho a experiência de ter passado pela mesma situação que eles e eles veem que podemos ajudá-los. É satisfatório”, contou ele, que hoje é educador do espaço cuidando da horta comunitária junto a Lauro Rodrigues.

Carlos André Barbosa, 44 anos, é ex-assistido da CPP - Alexandre Aroeira/Jc Imagem.

Desde pequeno, Lucas Henrique Lucena, de 20 anos, frequenta o espaço - e adora. “Eu achei aqui muito bom desde que cheguei. Brinco, jogo bola, vou para passeios, para a praia”, disse ele, que vive em situação de rua e tem como atividades preferidas a “pelada” com os colegas e das aulas de desenho.

Educação ambiental

Ações de sustentabilidade e responsabilidade social são produzidas no telhado eco produtivo da CPP, o primeiro da cidade, criado em 2016. Ali, é oferecido apoio técnico para o plantio de hortas em casa, democratizando a alimentação saudável. Parte das hortaliças e verduras produzidas são utilizadas nas refeições distribuídas na casa, enquanto o restante é doado às comunidades das redondezas.

No último andar do casarão também funciona o projeto hortas verticais, onde são cultivados pimentão, tomate-cereja, alface, coentro, hortelã e outras hortaliças em garrafas pets retiradas do Rio Capibaribe. Desde o início, em 2010, mais de 8 toneladas de lixo foram recolhidas pelo projeto.

O que é produzido é consumido na própria ONG, que fornece café da manhã e almoço de segunda a sexta a jovens das redondezas. O restante é doado a comunidades - Alexandre Aroeira/JC Imagem
O que é produzido é consumido na própria ONG, que fornece café da manhã e almoço de segunda a sexta a jovens das redondezas. O restante é doado a comunidades - Alexandre Aroeira/JC Imagem
O que é produzido é consumido na própria ONG, que fornece café da manhã e almoço de segunda a sexta a jovens das redondezas. O restante é doado a comunidades - Alexandre Aroeira/JC Imagem
O que é produzido é consumido na própria ONG, que fornece café da manhã e almoço de segunda a sexta a jovens das redondezas. O restante é doado a comunidades - Alexandre Aroeira/JC Imagem
O que é produzido é consumido na própria ONG, que fornece café da manhã e almoço de segunda a sexta a jovens das redondezas. O restante é doado a comunidades - Alexandre Aroeira/JC Imagem
O que é produzido é consumido na própria ONG, que fornece café da manhã e almoço de segunda a sexta a jovens das redondezas. O restante é doado a comunidades - Alexandre Aroeira/JC Imagem

A luta pela captação de recursos

“Está difícil”, respondeu Demetrius quando questionado sobre como mantém o espaço. Desde a pandemia, o funcionamento da CPP teve horário reduzido pela diminuição das doações. São necessários R$ 30 mil por mês para realizar suas várias atividades - desses, 40% são captados por conferências feitas por ele ao redor do mundo, que têm todo valor destinado à CPP. O restante vem de financiamento internacional e de doações. “É uma luta para conseguir”, afirmou.

“Tentamos diminuir todos os nossos custos, com 26 placas solares e poços artesianos. Muito da nossa comida é produzida por nós mesmos. Empresas privadas fazem doações de alimentos e de roupas. Autoridades do mundo inteiro vêm nos visitar, temos muito reconhecimento fora, mas não aqui”, disse.

Como ajudar a Comunidade dos Pequenos Profetas

As empresas podem apoiar pequenos projetos de impacto da CPP, fazendo parcerias e convênios, promovendo ações de impacto, apoiando as cooperativas, com cursos ou patrocinando cursos com doação de matérias primas e de serviços, apresentando ideias de negócio social. Basta entrar em contato pelo instagram @pequenos_profetas ou pelo telefone/whatsapp (81) 98863-7718 e marcar uma reunião com o gestor, Demetrius Demetrio.

Doações de alimentos, roupas e utensílios podem ser deixados na sede da CPP (Av. Sul Gov. Cid Sampaio, 110 - São José, Recife - PE). Para doações financeiras, confira os dados para transferência ou depósito: 

PIX
12 861 514 0001 10 (CNPJ)

Banco Bradesco S/A
Comunidade dos Pequenos Profetas
Agência 3208 e conta 99453-7

Código Swifit
BBDEBRSPRCE

Número Iban
BR9360746948032080000994537C1

 

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