Maracatu-canção já ameaçou reinado do frevo nos anos 30

Compositores populares eram incentivados a compor maracatus
JOSÉ TELES
Publicado em 14/01/2018 às 10:01
Compositores populares eram incentivados a compor maracatus Foto: foto: reprodução


Bombos, caixas, tambores, gonguês, atabaques, inúbias de um maracatu de baque virado, acompanhando um coral de vozes masculinas e femininas, num maracatu-canção de sucesso. O show foi transmitido dos antigos estúdios da PRA-8, a Rádio Clube, na Cruz Cabugá. O maracatu foi o Cruzeiro do Forte, o maracatu-canção o Eu sou do Forte, de José Gonçalves, o Zumba. A data: 30 de janeiro de 1936.

 Essa mistura, hoje impensável, aconteceu com frequência nos anos 30, sobretudo a partir da segunda metade da década; eram incentivadas pelos mais influentes cronistas carnavalescos, e intelectuais como Valdemar de Oliveira, Mario Mello ou Mario Sette, e pela Federação Carnavalesca. Naquela década, chegou a ameaçar o reinado do frevo-canção, e dividiu com ele a simpatia do folião.

 Para os mais fervorosos cultuadores do frevo, a variante canção não passava de uma cópia pálida da marchinha carioca. Para eles, o frevo verdadeiro e único era o instrumental, a marcha-frevo. Em artigo de fevereiro de 1935, Mario Mello, jornalista, cronista carnavalesco, historiador e dirigente da Federação Carnavalesca, entre outras coisas, escreveu: “Pela primeira vez o maracatu está entre nós, sendo olhado com certo carinho, pela possibilidade de, por meio de estilizações musicais, criar-se uma nova música brasileira”.

 Os sucessivos concursos e o incentivo da poderosa federação aos autores de maracatu-canção logo levaram à acumulação de um repertório suficiente para uma “irradiação” (como então se dizia) de um programa inteiro dedicado a este gênero musical, pela PRA-8 (a única emissora de rádio do Estado). No Jornal do Commercio, de 16 de dezembro de 1936, noticiava-se mais uma irradiação de maracatus:

 “... Os rádios ouvintes de Pernambuco e do Brasil ouvirão os sucessos musicais do gênero como Coroa Imperial, Eu Sou do Forte, Martelo, Bomba Grande, Cruzeiro do Forte e A Rainha chegou...” Os maracatus seriam cantados por um coro feminino de “48 senhoras e senhorinhas”, com a batucada do maracatu Cruzeiro do Forte. A transmissão aconteceria diretamente da residência do compositor Zumba, (na Avenida Caxangá, 2117), e seria dedicada ao deputado Carlos Reis.

 No repertório, 14 maracatus-canção, entre eles Eu Sou do Forte (Zumba), e Coroa Imperial (Sebastião Lopes). É certo que o entusiasmo de conservadores da elite pernambucana pelo maracatu refletia muito o clima ideológico da época, de simpatias pelo nazi-facismo, que ainda não tinha mostrado sua verdadeira cara. Vêm daí o nacionalismo fervoroso, o culto às raízes culturais.

 Nada mais puro do que o maracatu, surgido entre os africanos, cativos, tudo bem, mas sem intermediários. No frevo estavam embutidos a polca, o maxixe, instrumentação europeia. Enquanto o maracatu, o Leão Coroado, apontava Mario Mello, vinha dos tempos da Revolução de 1817. A Federação Carnavalesca Pernambucana tinha como todo poderoso Mr. Joseph Pryor Fischer, americano que presidia a Tramways, companhia de transportes e eletricidade. Na linha ideológica da entidade via-se claramente a intenção de controlar as agremiações carnavalescas.

 CONTROLE

 Este controle ia do itinerário dos desfiles à criação de um hino do Carnaval, que seria incorporado ao repertório de todas elas (o escolhido em concurso foi Evoé, de Marambá). O mais ousado item dessa linha era enquadrar as nações de maracatus, ainda vistas como manifestações selvagens, carentes de uma ação civilizadora. Isto pode ser constatado num anúncio de uma transmissão, pela PRA-8, de um programa com o Maracatu Cruzeiro do Forte: “... com seus instrumentos bárbaros e o seu pessoal adestrado na execução de ruídos, motivos que caracterizam as esquisitas modalidades daquela música”. Uma música da qual a classe média ia se aproximando, conforme atesta o incansável Mário Melo, totalmente envolvido com a federação, da qual foi um dos fundadores:

 “... Era vedado ao maracatu e ao caboclinho passarem nas principais artérias da cidade. Hoje ambos são apreciados, as moças brancas quebram o corpo ao som do gongá do maracatu. É a dança preferida no salão de gente nobre, graças à federação”.

 Teoria da conspiração, provavelmente, mas com o incentivo da federação dos autores de frevo para a criação do maracatu-canção, montou-se um repertório com composições que reuniam nomes como Zumba, Capiba, Irmãos Valença, Sebastião Lopes, Marambá (o subestimado irmão de Capiba). Em 1937, a Federação Carnavalesca Pernambucana pretendia que os maracatus-canção fossem distribuídos pelas nações de maracatu, para que fossem cantados durante o préstito no Carnaval.

 Uma sugestão que gerou uma polêmica nos jornais entre os caciques da folia em Pernambuco, Mario Mello e Valdemar de Oliveira. Os maracatus-canção seriam distribuídos à nação cujas características do toque tivessem afinidades com o andamento da composição. A explicação de Mário Mello:

 “Quanto aos maracatus, atendendo ao fato de que acham os mesmo divididos em dois tipos bem definidos. Um que abrange os maracatus lentos, semelhantes ao blues estadunidenses, como o É de Tororó, No Yô-Yô-Yô-Mango e o Ê U’a Calunga e os maracatus do tipo Coroa Imperial e Eu Sou do Forte. A Federação resolveu distribuí-los pelas respectivas classes de maracatus filiados. Os lentos serão distribuídos pelos maracatus Elefante, Leão Coroado, músicas de Sebastião Lopes, Capiba...”

Em, sua coluna no Jornal do Commercio, Valdemar de Oliveira rebateu: “... Ora meu Deus, como será que aquela gente do Leão Coroado há de aprender o Ê U’a Calunga, de Capiba, com seus acordes caprichados, as suas modulações estrangeiradas, e a sua letrinha metida à força na melodia? É preciso evitar a poluição desta fonte puríssima pelo germe da inspiração dos nossos compositores populares... Porque ninguém pode dizer que criou um ritmo novo para uma dança tão entranhadamente popular, tão profundamente racial como é o maracatu. Duvido que os nosso negros dancem nos seus terreiros o É de Tororó ou o Ê U’a calunga. Não dançará, porque o andamento é outro. Coisas assim é que roubam ao seus maracatus o sabor primitivo do legítimo maracatu pernambucano.”

Pelo visto não dançou, nem consta que os maracatus nação abriram mão de suas tradições centenárias para cantar composições feitas por pessoas alheias à sua cultura. Mas, por outro lado, foram compostos dezenas de maracatus-canção. Capiba foi um dos mais bem-sucedidos autores do gênero (alguns com letras de Ascenso Ferreira). Existe, pois, um rico e esquecido repertório da música pernambucana à espera de ser recuperado.

 

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