Ensaio Fotográfico

Nômades: Andarilhos buscam mais do que a sobrevivência

Deslocamento moderno se dá em busca da felicidade e do autoconhecimento

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 02/11/2014 às 6:55
Heudes Regis/JC Imagem
Deslocamento moderno se dá em busca da felicidade e do autoconhecimento - FOTO: Heudes Regis/JC Imagem
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São Paulo – Escrevo esta narrativa em trânsito, na impessoalidade de um quarto de hotel acostumado a partidas e chegadas de passantes. Durante cinco dias, o apartamento 905 da hospedaria, na Avenida Sumaré, foi minha “residência transitória”. Roupas, objetos pessoais e alguns livros ajudam a desfazer a aparência padronizada do lugar, de cama impecavelmente forrada com lençóis brancos, que já acomodou uma multidão de desconhecidos. A breve estada na cidade foi para concluir este ensaio-reportagem sobre nomadismo contemporâneo, realizado em simbiose com o repórter-fotográfico Heudes Regis. Ao longo de três semanas ouvimos e retratamos histórias de seis personagens para falar sobre deslocamentos, errância, ruptura, identidade, pertencimento, impermanência, autoconhecimento. 


Nessa travessia, também nos transfiguramos. Quem conhece a fotografia de Heudes (de extremo apuro técnico e quadros bem estudados) se depara neste ensaio com outro olhar. Ele se coloca como se estivesse na janela de um trem, observando as cenas em movimento, com visão impressionista. Foram as locomotivas, no século 19, que diminuíram as distâncias e permitiram que as populações se movimentassem, estimulando o nomadismo moderno. Nas artes, despontava a pintura impressionista, rompendo com a estética do desenho nítido para manchar as cenas. 


“A luz, o movimento, o cenário ao ar livre e as pinceladas soltas marcaram a estética do impressionismo, que se contrapôs à escola anterior, preocupada com a nitidez dos contornos. Neste ensaio quis unir essa ideia de movimento dos povos, permitida pela difusão do trem, com a imagem borrada do impressionismo, que também remete a movimento”, explica Heudes. A velocidade fez com que os usuários das estradas de ferro, ao olhar através da janela, vissem as coisas de forma instantânea, iniciando um olhar impressionista, um olhar das coisas no seu instante.

O fotógrafo também traz sua própria experiência nômade para o ensaio. “Quando me perguntam de onde sou, respondo que minha origem está na BR-101”, brinca, fazendo referência às idas e vindas pela rodovia, que une o Rio Grande do Norte (sua terra natal) a Pernambuco (Estado onde mora atualmente e que já viveu com a família). Além dessa porção nordestina, Heudes morou dez anos em São Paulo e viajou mundo afora para fotografar. 

A construção do ensaio exigiu um modo diferente de produção. As entrevistas foram marcadas na casa dos entrevistados, em bares e cafés, muitas vezes invadindo a madrugada. Foram longas conversas. Nos retornos ao hotel, gigas de imagem para descarregar dos cartões de memória, horas de entrevistas para decupar. “Dessa vez, a quantidade de imagens foi maior que a de costume, por conta do caráter experimental do ensaio”, diz.

A história dos povos está atravessada pela viagem, numa tentativa de descobrir o outro e o eu. Não importa se é um deslocamento artístico, científico, filosófico ou aventuroso. Como diz o sociólogo brasileiro, Octavio Ianni, no livro Enigmas da modernidade, o que está em jogo é “a busca do desconhecido, a experiência insuspeitada, a surpresa da novidade, a tensão escondida nas outras formas de ser, sentir, agir, realizar, lutar, pensar ou imaginar”. Nas histórias das seis pessoas que encontramos na trajetória desse ensaio nos deparamos com um pouco de tudo isso. 

Uma característica comum a todos eles é o desejo de quebrar o enclausuramento e o compromisso de residência acorrentado ao lugar onde nasceram. Existe uma preocupação qualitativa, uma sede de infinito, uma pulsão de errância, uma necessidade de descentramento. A francesa Marie-Charlotte Degaine, de 26 anos, peregrinou pela Irlanda, Honduras, Guatemala, Índia e México até embarcar em si mesma no Recife. “Só agora entendo que todas essas viagens que fiz foi pra me encontrar. Foi um caminho muito longo para chegar até aqui. Tinha estudado flauta quando era criança, mas a música se apresentou em mim no Recife, no contato com pessoas que me ajudaram a descobrir quem sou, o que me faz feliz”, revela. Hoje ela integra o grupo Nós Moscada como vocalista e tocando flauta. O nome francês Marie foi trocado por Maria. 

O fotógrafo pernambucano Pio Figueiroa estava em busca de expandir seu trabalho na fotografia quando decidiu desembarcar em São Paulo. Foi atrás de preencher espaços vazios, de transformar uma identidade estável e unificada em algo ao mesmo tempo fragmentado, mas estruturado. “Eu e minha mulher (os dois pernambucanos) nos comprometemos a fazer com que nossos filhos (nascidos em São Paulo) tenham memória afetiva de Pernambuco. Todos os anos eles vão para a casa dos avós, em Olinda, para se relacionar com a cidade. E sentem amor pelo lugar. Depois disso vamos começar a viajar com eles”, diz, reconhecendo a importância da hibridação cultural. 

Outro exemplo emblemático de transculturação é do bailarino Ângelo Madureira. De família tradicional na dança de Pernambuco, que faz história com o Balé Popular do Recife, ele trilhou outros caminhos no desembarque em São Paulo, há 15 anos. Encontrou a bailarina clássica Ana Catarina Vieira de quem se tornou parceiro e marido e criaram um grupo com pé na dança contemporânea. O processo de hibridação transformou as ideias de Ângelo sobre identidade, cultura, diferença, tradição-modernidade. 

A pernambucana Soraya Silva e o italiano Fabiano D’Angelo vivem uma espécie de “enraizamento-dinâmico” nos dois países. Com formação em teatro e circo, os dois enfrentam quase 9.500 km, várias vezes ao ano, para fazer espetáculos lá e cá. “Talvez quando a gente tiver filhos surja a necessidade de decidir por um lugar”, adianta Fabiano.

Já a bióloga argentina Carolina Elsztein sabia desde cedo o que não queria da vida. Pensava em sair da casa dos pais e da pequena Olavarría, cidade com 100 mil habitantes na Província de Buenos Aires. “Queria me estabelecer num lugar que tivesse praia e fiquei no Recife”, conta, dizendo que também descobriu o grupo de capoeira Chapéu de Couro, na Várzea. Já o escritor pernambucano Marcelino Freire foi pra São Paulo no rastro de um amor e já se vão 23 anos. Conseguiu unir singularidade e pluralidade.

Assim são as histórias desses nômades contemporâneos, em constante movimento físico e ideológico. Quanto a mim, vou afivelar a mala e voltar pro Recife.

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