Transporte por ônibus perde 12,5 milhões de passageiros em um ano

Publicado em 21/08/2019 às 9:39
Foto: NE10


Cenário para o transporte coletivo público do País é um dos piores nos últimos anos. Fotos: Sérgio Bernardo/JC JC Imagem  

 

O cenário para o transporte público por ônibus só piora no Brasil. Em um ano, entre abril de 2018 e abril de 2019, o setor perdeu 12,5 milhões de passageiros. E os culpados por essa queda não são apenas o crescimento do uso dos aplicativos de transporte privado de passageiros e a crise econômica nacional. A perda se deve, principalmente, à falta de políticas públicas de financiamento do transporte público e à histórica ausência de infraestrutura para a circulação dos ônibus no sistema viário do País. É um dos piores momentos vividos pelo setor.

A situação preocupante foi apresentada durante o Seminário Nacional de Transporte Público, promovido esta semana em Brasília, pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). Os números fazem parte do anuário elaborado pela entidade e revelam a omissão do País em relação à mobilidade urbana. Um exemplo é a constatação de que os investimentos na área foram irrisórios nos últimos dez anos. Apenas 9,4% do que era previsto foi executado. O transporte público, que responde por 80% dos deslocamentos no País, levando e trazendo 280 milhões de passageiros por mês, recebeu R$ 14,2 bilhões, quando o prometido pelos gestores públicos e políticos era de R$ 151,7 bilhões.

   

 

Os dados têm como base nove capitais brasileiras, o Recife entre elas. São números obtidos nas cidades de Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP), além, da capital pernambucana. No Seminário Nacional, a constatação foi de que o transporte público – o ônibus ainda mais do que o metrô – segue menosprezado no Brasil. A importância dele está no discurso de todos, mas na prática pouco é executado. O desânimo dos números apresentados pela NTU são reflexo da ausência de metas do governo federal para a mobilidade urbana brasileira. O que se comprovou na curta declaração do representante da Casa Civil da Presidência da República Martin Ramos Cavalcanti. “Os investimentos na área de mobilidade urbana terão que ser feitos via financiamento ou empréstimo das cidades e estados. O governo federal não tem dinheiro para gastar em projetos inviáveis, como foi feito nas gestões passadas. E não vai viabilizar power-points. Os gestores públicos e o setor empresarial terão que ter projetos de verdade para conseguir recursos”, afirmou.

 

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Além de não haver perspectiva de que a mobilidade urbana brasileira venha a receber grandes incentivos do governo federal, muito pouco foi feito por ela nos últimos anos. Com relação à evolução dos empreendimentos previstos, o estudo mostra que no ciclo 2018-2019 somente três projetos de priorização do transporte público iniciaram operação no Brasil - um sistema de BRT e uma faixa exclusiva em Niterói (RJ), e outra faixa exclusiva em Curitiba (PR).

 

   

"Temos que correr contra o tempo. Precisamos avançar na infraestrutura e nas políticas públicas a favor do transporte. No mundo todo as pessoas pagam, de alguma forma, pelo transporte público coletivo nas suas cidades. Passageiros ou não do sistema. Só no Brasil que isso não acontece. Todo o transporte é financiado pela tarifa, inclusive as gratuidades, como o estudante e o idoso. O Brasil faz cortesia e é a pessoa mais pobre, que ganha menos e paga a passagem inteira, quem banca. Se faz demagogia e quem paga é o pobre. Precisamos avançar nas discussões de taxar o transporte individual, aí incluídos também os aplicativos de transporte privado de passageiros, para que ele financia o transporte urbano coletivo", afirmou o presidente executivo da NTU, Otávio Vieira da Cunha.

O levantamento da NTU apontou que entre 1994 e 2012 a redução de demanda foi de 24,4% e, entre 2013 e 2017, a diminuição foi ainda maior, da ordem de 25,9%. Entre 2017 e 2018 houve uma estabilidade que chegou a animar o setor de transporte público, mas que não significou uma interrupção na redução de passageiros, como a queda verificada em abril deste ano.

TODOS PELO TRANSPORTE PÚBLICO

Para tentar reverter o cenário de desolação do setor de transporte público, foi lançado durante o Seminário Nacional o documento “Construindo hoje o amanhã - propostas para o transporte público e a mobilidade urbana sustentável no Brasil”. O documento reúne cinco programas e metas que podem ser referência na área de mobilidade urbana para gestores públicos, operadores e técnicos da área. Defende ações e intervenções que envolvem o setor privado e os diferentes níveis da gestão pública para reduzir o preço da passagem, dar transparência e oferecer infraestrutura para qualificar o serviço.

 

Foto: Diego Nigro/Arquivo JC Imagem  

 

AS PERDAS DO SETOR

Redução de passageiros

Comparação com os meses de abril

2013 - 381,1 milhões

2014 - 363,8 milhões

2015 - 340 milhões

2016 - 323,6 milhões

2017 - 275 milhões

2018 - 293,4 milhões

2019 - 280,9 milhões

Investimento em projetos de transporte pararam no tempo

O estudo da NTU mostra que de 2018 para 2019 somente três projetos de priorização do transporte público iniciaram operação no Brasil:

1 Sistema de BRT em Niterói (RJ)

1 Faixa exclusiva em Niterói (RJ)

1 Faixa exclusiva em Curitiba (PR)

Embora 248 empreendimentos de prioridade ao transporte público tenham sido iniciados, entre sistemas de BRT, corredores e faixas exclusivas

Situação em 2019 dos empreendimentos de priorização do transporte público por ônibus

 

Fase de projetos

BRT - 45

Corredor de ônibus - 88

Faixa exclusiva - 20

 

Em obras

BRT - 24

Corredor de ônibus - 57

Faixa exclusiva - 14

 

Em operação

BRT - 26

Corredor de ônibus - 52

Faixa exclusiva - 136

 

Total

BRT - 95

Corredor de ônibus - 197

Faixa exclusiva - 170

 

9 cidades como referência

Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), RECIFE (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP)

Fonte: NTU  

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